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Arivaldo Maia: 50 anos dedicados ao rádio

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Colaborador do Torcedores

Foto: Arivaldo Maia na rádio Gazeta AM - Maceió

Crédito: Arquivo Pessoal

Vinte e um de fevereiro de 2019. Segunda fase da Copa do Brasil, CRB e Goiás, jogo único. O árbitro apita o início da partida. Nada de gols no primeiro tempo. Na segunda etapa, falha do goleiro Sidão e gol do CRB. Minutos depois, pênalti para o Goiás: 1×1. A partida vai para as penalidades máximas.

A oportunidade é de ouro para o CRB. Vamos ver quem cobra pelo Galo. Olha aí! É ele, Felipe Menezes. Capricha, Felipe. Capricha. É agora! Ele está concentradíssimo. Vai para a bola Felipe, correu, preparou… Olhaaaaa o Galo avançando na Copa do Brasil. Eliminando o Goiás em plena Serrinha. Alagoas brilhando no futebol do Brasil. Quem não acreditava, bata palmas.

Em 2017 completaram-se cinco décadas que os alagoanos ouvem o dono dessa narração na rádio Gazeta AM, de Maceió. São raros, ou quase inexistentes, os amantes de futebol da terra de Graciliano Ramos que não conhecem Arivaldo Maia.

A cidade em que nasceu era, em sua gênese, cercada de Palmeira. Os primeiros habitantes foram também os verdadeiros descobridores do Brasil. Palmeiras dos Índios é hoje a quarta maior cidade de Alagoas. Em 1967, período de ditadura militar no país, esse município foi palco do clássico alagoano CSA e CSE e foi neste dia que a rádio Gazeta AM conheceu Arivaldo Maia.

“– Eu narrava futebol de salão pela rádio Cacique (hoje rádio Sampaio). Quando a rádio Gazeta precisou transmitir um jogo em Palmeira, o narrador Arnoldo Chagas pediu a rádio Sampaio um pista e eu fui fazer. No outro dia, a rádio Gazeta mandou me contratar”.

Começou seu trabalho no auge do rádio. A televisão tinha chegado há menos de 20 anos no Brasil e a novidade trazida por Assis Chateaubriand não era encontrada em pelo menos metade dos lares do país.  Mesmo sendo o meio de comunicação mais popular da época, o rádio esbarrava nos problemas tecnológicos, pois não tinha internet e nem telefone. As transmissões de futebol exigiam muitas gambiarras para darem certo.

Entre as dificuldades daquele período, estavam as precárias condições das cabines em muitos estádios país a fora. A do campo dos Aflitos em Pernambuco, por exemplo, era de madeira e balançava com o vento forte, se assemelhando a um poleiro de galinha, segundo Arivaldo. Muitos estádios sequer ofereciam água para as equipes de transmissão e muitas cabines não tinham banheiro. Essas más condições não eram encontradas apenas em estádios menores. No antigo Maracanã, Arivaldo conta que só tinha cabines para as emissoras do eixo sul-sudeste e os narradores de outras regiões ficavam em cima de caixões de cerveja para poder narrar o jogo.

Muitos desses problemas foram solucionados, outros não. Como o fato de algumas cabines ainda não terem ar-condicionado e nem disponibilizarem ventilador, “Se o jogo for no Piauí, você se lasca. No corredor do avião já dá uma quentura nas pernas”, destaca Arivaldo. Outra dificuldade é a transmissão de jogos fora do Brasil, que acabam provocando delay, ou seja, uma diferença de tempo entre o envio e o recebimento de um sinal, gerando um atraso. Como a narração é uma das profissões mais dinâmicas do mundo, o delay realmente é um grande problema.

Arivaldo diz que foram grandes as mudanças nas transmissões de jogos, como a do off-tube, que permite ao narrador fazer a locução do jogo do estúdio, pela tela da TV, sem estar presencialmente no estádio. As empresas de comunicação optaram por essa forma para economizar. No caso de Arivaldo, a viagem só acontece quando os jogos dos times alagoanos não são transmitidos pela televisão. Sem mencionar que depois de 50 anos no sistema AM, ele irá em breve, de forma definitiva, para o FM, pois a rádio em que trabalha está fazendo a migração. O rádio é o veículo de comunicação que melhor soube se adaptar a todas as mudanças tecnológicas. Por isso, Arivaldo acredita na perpetuidade desse meio. Segundo ele, o improviso do rádio cria emoção. Arivaldo cita, por exemplo, as pessoas que assistem aos jogos pela televisão, mas ouvem a narração pelo rádio.

O narrador alagoano tornou-se uma enciclopédia do futebol. Muitos fatos marcaram sua história, como a narração do gol do Corinthians na final do Campeonato Paulista em 1977, contra a Ponte Preta. A rádio Gazeta foi a São Paulo fugindo do habitual, pois cobria com mais frequência o Campeonato Carioca, devido aos inúmeros torcedores do Flamengo na região nordeste. Mas tratava-se de uma partida com muito significado, pois, se ganhasse, o Corinthians acabaria com um jejum de 23 anos sem título. A narração de Arivaldo Maia do gol de Basílio aos 36 minutos do segundo tempo foi tão excepcional quanto o tento anotado, essa narração, inclusive, foi eternizada na revista do Timão.

Esse gol realmente marcou a trajetória de Arivaldo, mas não tanto quanto um fato acontecido sete anos antes. Em 1970, Arivaldo Maia teve a honra de entrevistar o maior jogador do futebol mundial. Pelé esteve em Maceió para inaugurar o estádio que carrega seu nome. A rádio Gazeta convidou Jorje Cury para narrar o jogo inaugural entre a Seleção Alagoana e o Santos. Já Arivaldo Maia, ficou responsável por conversar com o Rei do Futebol, uma de suas maiores glórias na carreira.

Durante seus mais de 50 anos como narrador, outro ofício ocupou seu coração. Ele conseguiu unir, durante muito tempo, duas paixões de boa parte do povo nordestino: futebol e vaquejada. Não foram poucas as vezes em que Arivaldo Maia narrou jogos no sábado à noite e, no domingo à tarde, correu vaquejada. Conta seus feitos de vaqueiro com muito orgulho, mas parou de praticar esse esporte quando quebrou a perna. Outras profissões fizeram parte da sua história, em paralelo com a narração. Já foi adestrador de cavalos, leiloeiro rural e é bacharel em direito.

Embora tenha perdido todas as Copas do Mundo que cobriu, 4 no total, Arivaldo se orgulha muito de suas conquistas.  Hoje é o narrador mais ouvido na terra de Zagalo. 6 Copas América, inúmeros brasileiros e incontáveis alagoanos.

Como torcedor do futebol local, diz que a Copa do Brasil é uma competição da qual não tem apego, pois os times do Paraíso das Águas nunca chegaram muito longe no campeonato. Mas destaca que a Copa do Brasil é muito boa porque ajuda a divulgar várias cidades do país, pouco conhecidas. Sua principal recordação de 2002, por exemplo, não é fato de o ASA ter eliminado o Palmeiras, mas sim a divulgação de Arapiraca, um município interiorano de muitas belezas.

Sem mencionar que nesta competição fica escancarada a diferença de investimentos entre vários clubes brasileiros. Os chamados “times grandes” respeitam os ditos pequenos, mas entram em campo deixando claro que são superiores “como um sargento que chega na casa do general. A eliminação para um time pequeno é uma morte para eles”, diz Arivaldo.

Outro ponto destacado pelo narrador são as eliminações precoces na Copa do Brasil, que prejudicam o trabalho da imprensa esportiva, em especial no rádio, pois muitos patrocinadores rompem os contratos, o que acaba deixando muitos profissionais desempregados. Há também o famoso e tão debatido problema do calendário do futebol brasileiro, que acumula competições para muitos times, enquanto inúmeros outros ficam sem disputar nada, já a partir de abril com o fim dos estaduais.

Alagoas colocou três times na Copa do Brasil em 2019: ASA, CSA e CRB. Os dois primeiros foram eliminados na primeira fase. O Bragantino-PA eliminou o ASA e o Mixto-MT, o CSA.  O único time alagoano que continua é o CRB, que vai jogar a próxima fase contra o Bahia, no dia 2 de abril, em Maceió.

Arivaldo diz que irá com certeza torcer para o time alagoano. Acredita que o CRB pode ganhar o jogo de ida, mas considera o de volta difícil, pois reconhece que o Bahia tem um investimento muito maior, o que resulta em uma equipe mais qualificada e isso muitas vezes dita o resultado final.

Como diz o próprio Arivaldo, em um dos seus bordões, “a bola correeeeeee com o tempo” e lá se vão 72 anos de vida, dos quais mais de 50 deles foram vividos dentro desse mundo fascinante que é o rádio. Dentro de seu coração existe a certeza de que construiu uma história vitoriosa.