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A maior conquista do Santo André na memória de um torcedor desiludido

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Colaborador do Torcedores

Crédito: Créditos: site oficial do Santo André

Bem no instante em que o Seu Valdecir ia enfiar a faca na sua corvina cozida, sentado no banquinho da sua cozinha apertada, olhando para os azulejos bege e para os ponteiros atropelando o tempo no seu relógio de parede alemão, em algum ponto de Santo André, o telefone tocou, irritando-o. Não havia um mês que se submetera a uma bateria de exames que lhe garantiu, do ponto de vista cardíaco, alguns bons anos a mais de estrada, desde que passasse a “maneirar” no colesterol, o que lhe impôs a substituir o cardápio sem miséria de uma vida, acostumado a faisões defumados, bode no espeto, baião de dois e sarapatel, por uma dieta à base de carnes brancas e verduras verdes. Esta mudança radical de paladar, sem dúvida o sentido que mais apreciava na vida, foi o primeiro motivo que Dona Meliza, angustiada a sua direita na mesa, considerou para justificar o súbito mau-humor do marido e concluiu que aqueles lamentos sobre “aproveitar o tempo juntos” eram o prenúncio de que a estrada dele começava a chegar ao fim.

Mas Seu Valdecir não caíra num poço de amargura. Seu humor alternava momentos de introspecção e choros sem lágrimas. Esquivava-se de diálogos que antes adorava travar e respondia as questões sobre a sua saúde com um “está tudo bem” e fim de papo.  Às vezes, Dona Meliza o pegava choramingando sozinho e não entedia bem por quê. Espantoso ver como de repente aquele cabra que viera do Pernambuco sozinho com a obrigação de vencer em São Paulo, um metalúrgico que se gabava de ter dado duro até os sessenta e cinco anos e de ter provido uma vida melhor a filha do que o seu velho Raimundo pudera lhe dar, como de repente aquele homem ficara emotivo, deixara de segurar sentimentos dos quais sempre se privara e se orgulhava disso porque havia se obrigado a ser bruto. Só agora com 71 anos, grilhaso, diabético e magro feito um jumento desnutrido, sensibilizava-se com histórias de superação na tevê, com abraços de mães e filhos nas novelas, com discursos políticos, com o voluntarismo social da nova geração, com os palhaços que divertem as crianças nos hospitais e até com o especial de fim de ano do Roberto Carlos, um cantor que sempre desprezou, como toda a Velha Guarda. Já havia se livrado desde os anos 60 da obrigação de ser o amante perfeito, o que muito o ajudou a aplacar seu complexo de inferioridade.

E já não era aquele homem que ouvia paciente os cunhados discutirem na ceia de Natal quem da estirpe havia falecido e, enquanto se surpreendiam, com certo regozijo, com as certidões de óbito, ele disfarçava o incômodo incumbindo-se de preparar a farofa e de esfaquear o chester, aquela curiosa ave com nome de cidade inglesa, isso quando não conseguia se refugiar no escritório por cinco minutos e, sem-graça, punha o fone para ouvir Linda Demais e A Lenda, do Roupa Nova, canções que o remetiam à melhor época da sua vida. Uma época que agora invadia seus pensamentos e não o permitia vivenciar o presente, como naquele instante naquela mesa cheia de gente fútil.  Uma época em que a felicidade era mais verdadeira (era mesmo?) ou pelo menos as pessoas não a buscavam por meio de compras desnecessárias. Devia mesmo haver algo de errado com a humanidade, refletia. Tanta gente desalentada, vadia, sem emprego, sem lar, sem comida e sem honra, trapos humanos ignorados pelo batalhão consumista, esta outra classe de gente desprezível, que transita pelos shoppings com suas mãos cheias de sacolas pensando que a vida se resume a esses instantes de alienação e que considera normal uns, como eles (graças a Deus faziam parte deste grupo), terem tanto e outros tantos mendigarem; é uma questão de sorte do destino, imutável, só nos restando lamentar por estes coitados e vagabundos que por obra do acaso já nasceram na merda, órfãos de afeto, atenção, carinho e pão. Já há muito Seu Valdecir perdera o ideal de mudar os rumos deste mundo imperfeito, recolhendo-se na sua pequenez e insignificância. Definitivamente não tinha nascido para ser como um daqueles líderes populares que sempre admirara, mas, no seu íntimo particular, na sua revolta individual, continuava a se indignar com as regras deste mesmo mundo a que ele havia desistido, por incapacidade, de melhorar. Como não enriquecera o suficiente para distribuir renda e mitigar o sofrimento alheio – sempre esperava que os outros, mais brilhantes e caridosos, fizesse isso por ele – ao menos se abstinha de gastar seu merecido tostão com supérfluos. A austeridade era o seu remédio contra a culpa. Santificar a simplicidade o permitia dormir de consciência tranquila, ciente de que a frugalidade o livraria das punições que um dia haveria de infligir os gananciosos. Estava preso ao passado. Um passado que ele remoía, mistificava, exagerava, cantava aos quatro ventos ter sido mais lindo do que de fato fora. Assim lidava com a dificuldade de adaptação. Assim resistia à inovação, à modernidade, à nova ordem liberal. Assim se aferrava às raízes provincianas, mesmo vivendo havia cinco décadas na metrópole à qual esconjurava, prometendo um dia retornar às origens; valorizava a cultura sertaneja, ouvindo várias vezes ao dia Menina Veneno e exacerbando no sotaque para reforçar seu elo caipira, que o tornava um conservador, sim, como tudo no campo, mas não um reacionário, até porque nunca havia parado para pensar e desconhecia o sentido deste novo termo que saía toda hora da boca dos jovens, principalmente da sua filha.

Ieda Cruz Batista dos Santos nasceu prematura e quase não chorou, uma surpresa que só não foi maior do que o tempo mínimo que passou na incubadora. Recuperou o quilo a menos em duas semanas e ao final do primeiro mês já pesava quase cinco quilos. Engatinhou com quatro meses, andou com dez e já balbuciava há cinco. Espantou o pediatra quando ao fim do primeiro ano marcado por choros intermináveis em decorrência das cólicas, começou a andar. Largou as fraldas seis meses depois. Cresceu dependente da mãe e só dela. Não se desgrudavam. O pai já alertava sobre o excesso de zelo materno, mas, o que fazer, era não atender os caprichos e a menina abria o berreiro. Constrangido, Valdecir aceitava os mimos para não comprar briga com a esposa.  Ieda nascera engenhosa. Com quatro anos já falava as cores e os mamíferos em inglês. Com sete ganhou uma bolsa integral na escolinha. A mãe a iniciou no balé e o pai na natação, mas a ela não tomou gosto por nenhum dos dois. Preferia ficar em casa desenhando, brincando de ciência e de adivinhar o nome das coisas. Descer para o parquinho era um martírio. A avô materna, tão coruja quanto a mãe – era de criação – trouxe a neta para o centro do seu existir. Tudo era razão para falar dela, sempre orgulhosa, porque Ieda era perfeita, a melhor aluna da escola, a aluna que chorava quando não tirava dez e cujos boletins serviam para comprovar que os esforços dos pais dariam frutos e finalmente um dos Santos teria um futuro promissor, longe das soldas, das graxas, dos pregos, da serragem e da água sanitária. A pressão por vingar na vida acompanhou a menina desde a infância. Já recaía sobre ela a esperança de ser o que os pais não foram, porque, ao contrário deles, ela teve e teria todas as oportunidades. Mas era uma pressão diferente da que os pais haviam sofrido, mais sutil. Os pais venceram na marra, por falta de opção – era isso ou não ter o que comer. Ieda não. Ieda pôde crescer num lar estruturado, com água encanada, livros à vontade, brinquedos no aniversário, festinhas para fazê-la se sentir amada e gatinhos de estimação. Com quatorze anos já tinha lido O Sonho de um Homem Ridículo e Notas do Subterrâneo. Perguntava ao pai o que era niilismo, ateísmo, socialismo utópico e por que tanta gente tinha ido parar na guilhotina por causa desses ideais. Seu Valdecir, encabulado, tergiversava e depois, sozinho, no banho ou na dispensa, culpava-se por não ter se educado a altura de responder as curiosidades da sua pequena prodígio. Anos mais tarde, Ieda se daria conta do quão penitente devia ser estar na pele do pai. Um homem que ela nunca, jamais tinha visto feliz – nem por um dia, por uma hora, um segundo sequer. Um homem que, finda a ceia de Natal, enquanto todos sorriam ou tentavam achar graça dos papos jogados fora, ia para a cozinha lavar louça, e se o chamassem para participar da conversa, por que sua presença importava, ele agradecia, dispensava a sobremesa e voltava-se para louça. Um homem cujo ideal de vida era servir a família e se castigar para vê-la bem e, se o bem dela fosse vê-lo contente nesses raros momentos de união, criava caso, renegava e abria mão de todo e qualquer bem-estar, porque essa era a sua sina, a sua chibata. Privar-se dos bons momentos era o preço a pagar para atenuar sua culpa cristã – uma culpa que começara no orfanato da Igreja, quando Padre Antônio o reprimia pelas amizades suspeitas e porque gostava de cartas e futebol, esses prazeres demoníacos, a mesma culpa filha da puta que o chicotearia até o caixão.

E olha que Ieda nunca desconfiou que a vida fosse um mar de rosas, ao contrário. Sempre a encarou mais como um fardo do que como dádiva. Compartilhava de vários votos de pobreza do pai. Nunca ligou para grife. Depois de crescida, nunca exigiu o que sabia estar fora da realidade financeira da família. Sempre lidou bem com negações. Reconhecia o esforço paterno. Mas também não aceitava que a sua missão na terra fosse herdar passiva a cruz que o pai carregava. Embora não tivesse o mesmo ângulo de visão para enxergar sofrimento em tudo quanto é lado, sabia que a vida era dura para muita gente, que era uma privilegiada, mas não se culpava por isso. Aliaria altruísmo e prazer pessoal. Apoiaria projetos sociais, faria trabalhos voluntários, lecionaria de graça inglês  na favela, distribuiria sopas noturnas e presentes para crianças carentes, quem sabe um dia adotasse uma delas; mas também comeria em bons restaurantes, beberia vinhos sul-africanos, pularia carnaval em fevereiro e viajaria para a Colômbia, México, Japão e Tailândia – sozinha ou acompanhada – e ficaria em hotéis bem localizados, se possível com vista para o mar – e nessas ocasiões procuraria desfrutar do momento sem ficar imaginando quantas pessoas adorariam estar no seu lugar, quantos migrantes perderam a vida tentando cruzar o Mediterrâneo ou foram deportados como indigentes e como era possível para uma família congolesa sobreviver com dez centavos de dólar por dia. Não, não pensaria em nada disso nos seus momentos de prazer; eram os seus momentos – trabalhou por eles. Seria solidária com os vulneráveis no momento certo – não em regime integral, porque a sua consciência não a açoitava como a do pai e havia prometido a si mesma que algum deleite nesta vida haveria de desfrutar.

Quando se formou na faculdade de rádio e tevê, já sabia o que queria ser. Desde cedo instigada a se tornar uma das estrelas projetadas nas telas, alguém em quem os outros se espelham, admiram, invejam. Sonhava em escrever tão bem quanto seus ídolos, em ser tão carismática quanto os seus professores de locução e em ser abordada na rua por fãs que se satisfazem com uma foto. Tinha que ser reconhecida. Mais que obsessão, doença.  Mas era mesmo tão boa? Por que, então, sua confiança era tão menor do que a que depositam nela? Por que se rebaixava? Por que tinha que verificar se havia mesmo apagado as luzes apesar da certeza de tê-lo feito? Reescrevia os parágrafos que julgava ruins, mas em seguida se arrependia, pois a correção ficara pior que o original. Ela já criava personagens para falar de si, exprimir seus sentimentos, descarregar suas fúrias. Mas não imaginava, embora almejasse, que alguém os lesse. Tinha receio de que os considerasse uma porcaria, o que, no fundo, pressentia ser. Por que tanta insegurança, medo, covardia? Deve ser porque os outros (esses outros eram seus pais) esperam – ela pensava – que o seu sucesso redima seus fracassos. Acreditam que a sua vitória é também a vitória deles. Paternalismo do mais barato. Exemplo a não ser seguido. Egoístas. Querem que os filhos façam aquilo que não tiveram a coragem ou a competência de realizar. Que coisa desgraçada é a vida dedicada a cativar os outros, não? Só queria só ficar na sua, sem ser obrigada a agradar. E também não demoraria para começar a se incomodar com elogios sobre a sua aparência, até com os verdadeiros. Alta, cabelos castanhos escorridos até as costas, olhos de mel, voz meiga, tetas miúdas, é verdade, mas atinentes a sua silhueta, cintura fina e pernas espichadas que, se não eram deslumbrantes, devia-se a sua preferência por vestidos folgados às calças apertadas. Nunca apreciou olhares maliciosos, nunca fez questão de ser chamada de gostosa e sentia repulsa quando olhavam para sua bunda. Nunca leiloou sua autoestima à sedução. Na verdade, sempre quis passar despercebida. Era compreensível – ouviu certa vez de Eric – que não gostasse de ser elogiada pelos atributos físicos. Saudar a beleza de uma mulher nos dias de hoje – pensou o namorado – se não é assédio, é o mesmo que ignorar seus talentos. É como se dissesse que ela só chegou aonde chegou porque é atraente. Por isso a obsessão pela competência intelectual. Por isso o enaltecimento do quão duro foi chegar até o sucesso e de purgar a beleza, este estigma que as aprisiona. Entendo a revolta – emendou Eric. Um insulto. Depois de séculos de repressão, não querem nada além de demonstrar seu valor no mundo masculino. Igualá-los. É a forma de provar que estavam enganados. Hoje estou seguro de que a melhor cantada – gabou-se – é a indiferença, o deboche. Assim conquistou Ieda. Fazendo se sentir menos confiante de si. Menosprezando-a. Desviando seu olhar e silenciando, para que entendesse o quão desinteressado estava. A inação a atraiu. Explodiu dentro dela um desejo que de forma alguma existiria se a intenção desde pronto fosse explícita. Quando ela soube que eu troco qualquer encontro por uma cerveja com Netflix, procurou pretextos para me encontrar. E quando soube que eu não preciso de mulher para me excitar, foi aí que enlouqueceu e não parou de me tentar. Excitava-a o desafio de ser desejada por um homem pouco afeito à carne feminina.

 

Era pouco mais de seis e meia da tarde naquele último domingo de outono em Santo André e Seu Valdecir já fazia ideia sobre quem o importunaria numa hora dessas. Eric era um sujeito intempestivo, porém de ótimo coração, que nos últimos três meses vinha se esforçando para conquistar a confiança dos Santos. A de dona Meliza ele conseguira, mas a do sogro era outra história. Primeiro por uma questão de imagem. Teria sido mesmo um milagre Seu Valdecir vibrar com o genro que Ieda o apresentou, um ano antes, no dia de Ação de Graças. Não foi o Mickey colorido tatuado no antebraço esquerdo que o assustou, embora tampouco tenha causado boa impressão, mas sim à múmia que escorria desde a sua nuca até o lombo, e ela ainda segurava um cajado de madeira na mão direita, o objeto que mais o aborrecia, porque era um pecado desapropriá-lo da Bíblia e cravá-lo na carne daquele jeito. Naquela ocasião ele se apresentou como um fotógrafo jornalístico, o que Valdecir checaria, no dia seguinte, ser verdade, embora muito estranhasse o costume do rapaz de ir todos os dias pela manhã ao viaduto da Eusébio Matoso observar e torcer, quando não caçar, um flagra de uma moto caindo, um caminhão tombando ou dois carros se espatifando, registros que na década de 90 lhe renderiam até oitocentos reais nas Notícias Populares, mas que hoje não valem mais que duzentos, porque se banalizaram, mas não só por isso. Também e principalmente por causa da concorrência desleal – cinegrafistas amadores, transeuntes oportunistas e viúvas desocupadas, uma verdadeira invasão de abutres neste mercado amoral. “É engraçado” – disse Eric, tentando quebrar o gelo naquele encontro enquanto Valdecir limpava a boca com o guardanapo e já enchia a próxima garfada –, “os motoristas me vêem parado na ponte e acham que sou o fiscal de trânsito, o marronzinho, que estou ali para multá-los. Fecham a cara. Mas quando notam a câmera, sorriem e dão tchauzinho. Gente que nuca me cumprimentaria na rua, ali, só por que nunca mais as verei, são agradáveis, ainda que por um segundo. Os gordos e as ruivas são os mais afáveis, não sei por quê”.

Ter um time de futebol é um luxo a que uma cidade relativamente próspera pode se dar. Com pouco mais de 715 mil habitantes, um PIB per capita de 36,2 mil (709º maior do país) e com o 14º maior IDH do país (0,815), Santo André é um lugar onde os trabalhadores ganham, em média, três salários mínimos, onde 97% das crianças de 6 a 14 anos estão na escola e onde rede sanitária cobre 95% das residências. Para os padrões nacionais, é uma cidade evoluída, embora a vizinha São Caetano, sua eterna rival, apresente índices socioeconômicos superiores. Quando Seu Valdecir se mudou da capital para o ABC para morar mais próximo do trabalho, mas também porque não queria viver numa cidade tão indecorosa com os idosos, onde as ruas trabalham a favor dos carros, o vermelho no semáforo não demora trinta segundos a dar passagem ao verde, porque a cidade não pode parar, afinal movimento é progresso, bem, ele não imaginava que seu novo lar fosse crescer a ponto de também se tornar hostil à velha guarda, guardadas as devidas proporções, claro. Santo André era habitada por menos de cem mil pessoas, quase todas ligadas à metalurgia e à burocracia municipal. Prefeitos indicavam filhos e netos para sucedê-los no cargo. Formavam os clãs que se revezavam no poder, digladiavam-se na imprensa local, mas se confraternizavam às escuras, porque inimizades políticas não devem jamais transbordar para o lado pessoal e no fundo todos dependiam uns dos outros – sem oposição, a situação perdia referência para comparar seus feitos e vice-versa. “Uma ladainha que se retroalimenta”, reflete Seu Valdecir, que, ao contrário do que sugerem essas aspas, sempre gostou de política. Ao lado do futebol dominava os assuntos nos tabuleiros de dominó que tomam seu tempo todo domingo de manhã religiosamente após a missa. Mas era a mistura de futebol com política que o enojava. Embora jamais se convencera de que caminhassem em paralelo no seu passado áureo – recordava-se da insistência dos presidentes em posar para foto ao lado dos campeões mundiais, um interesse que desaparecia no menor sinal de fracasso -, foi de alguns tempos para cá que a decepção tomou conta e o que ele chama de politicagem hipócrita fez com que tomasse desgosto pelo futebol, sua grande paixão de moleque, o único passatempo que a liturgia não o convencera a abandonar. Secretários sem nenhum conhecimento prático eram investidos no cargo, dívidas a clubes mal administrados eram perdoadas, nenhum incentivo para o esporte de fomento, na universidade ou nas bases. Insurgira-se também contra a Lei Pelé, que, nas suas palavras, “arrebentou com os clubes e transformou o jogador em mercadoria, uma mercadoria preciosa, isto é certo, mas ainda assim mercadoria, sem vínculo com o clube que o criou”.

Escolhera o Flamengo por causa da empolgação dos locutores da Rádio Nacional, a única que chegava nos cafundós do seu Pernambuco, mas desde o título nacional de 1992, com o fim daquele timaço que tudo fez nos anos 80, o encanto acabara. Zico, Nunes, Leandro e Júnior tinham o acostumado mal. Foram um sonho. A realidade agora era outra: Fabiano Eller, Ibson, Athirson e Jean. E esses não eram ruins, tinha visto gente muito, muito pior, que não deixou recordação e nem podiam, porque a cada temporada, uma renovação para pior, um retrocesso. Futebol feio, jogadores medíocres (sim, era um saudosista) – exceção de Romário, claro, “um gênio” – discursos protocolares, na vitória e na derrota e resultados presumíveis, quando não combinados. Irritava-se também com o excesso de estratégia – muita tática e pouco folclore, dizia. “Mas o trouxa somos nós, torcedores!”, exclamou conclusivo – “Depois que percebi que a derrota é a regra, algo tão óbvio, parei de sofrer. Pega o Brasil, pentacampeão: perdeu em 30, 34, 38, 50, 54, 66, 74, 78, 82, 86, 90 e 98 (a história se passa em 2004). Perdeu muito mais do que ganhou. O Real Madrid, maior campeão europeu: conquistou 13 Liga dos Campeões (números atualizados), não venceu 50. Portanto, todos os times, todos, perdem mais do que ganham. Os mais vitoriosos perdem menos, mas perdem muito também. É por isso que sempre aguardo a derrota, não porque o pessimismo esteja encarnado na minha alma, mas porque eu sei que a chance de êxito é sempre muito menor do que a do fracasso. Esperando pelo fracasso, mas torcendo para me enganar, a vitória é uma surpresa bem-vinda e a derrota, como já é aguardada, nunca é uma decepção. Assim não me frustro e torcer deixa de ser tão penoso”. “Além disso” –prosseguiu empolgado, pigarreando e mudando o tom – “torcedor parece criança mimada. Se o time não vence, abre o berreiro. São patéticos. Ele quer porque quer que o time vença e nunca entende quando não é possível – e muitas vezes não é possível. Quem quer ser o melhor sempre, nunca o é. É idêntico àquela criancinha chata que pede um presente e não aceita recusa. Começa a chorar feito um idiota, deixando o pai sem graça na frente do vendedor. Fosse comigo, daria logo um murro na fuça para aprender a crescer. Penso o mesmo sobre o torcedor-criança. Zero paciência. ‘Ah, quer vencer? Mas não deu. Ponto. Não aceita? Foda-se. Enxuga o choro e vira homem’. Não conheço um time que ganhe sempre. É impossível. A mera exigência por vitória já é absurda. No futebol e na vida, quanto mais se quer vencer em tudo, é aí que não vence nada mesmo. O melhor é se conformar. O conformismo é a chave da humildade”.

Ir aos estádios é outro programa que perdeu a graça para Seu Valdecir. Desde a última visita ao Bruno José Daniel, num jogo do Santo André pelo Paulistão, “contra o São Paulo, se não me engano”, não quis mais saber disso. “Não consigo entender” – lamenta, erguendo as sobrancelhas e sem esboçar irritação – “Gente que nunca vi e nunca mais verei na vida me xingando. Entram num estado de ebulição emocional. Comportam-se feito animais. Gritam, berram, depositam toda a fé do universo em onze cabras atrás de uma bola. É uma aposta tão irracional. Eu só queria ver o jogo sentado, tranquilo, numa boa, e depois ir embora para casa, ganhando ou perdendo, tudo bem… não é indiferente, mas também não é o fim do mundo. Amanhã vai ser tudo igual. Sempre achei as metáforas no futebol exageradas. A analogia bélica, um horror. Quem não dosa a mão nas hipérboles soa tão falso como o bêbado milionário. Não menosprezo a importância do futebol no Brasil. Não mesmo. Em toda cidade que fui vi um campinho. Por alguma razão – não sei explicar – eu vejo a molecada jogando bola na beira da estrada, não vôlei, basquete ou tênis. Existe uma preferência clara por este jogo no nosso continente e eu respeito isso. Porém, me incomoda a visão superestimada. O futebol é uma dentre tantas expressões culturais brasileiras. Uma dentre tantas; há várias outras. O futebol não é a causa nem a solução dos problemas do país. Ele não explica o Brasil. O Brasil é infinitamente mais complexo que o futebol.”

A primeira reação de Seu Valdecir ao atender o telefonema do genro foi recusar o convite. Contratado havia seis meses como cinegrafista numa emissora local, Eric descolara um ingresso extra para o primeiro jogo da final da Copa do Brasil. Já era um enorme feito para Santo André ter chegado tão longe na competição, sobretudo depois de derrubar dois gigantes – o Atlético Mineiro, na segunda fase, e o Palmeiras, nas quartas de final (nos pênaltis), em pleno Palestra Itália, onde agora enfrentaria o Flamengo na partida mais importante da sua história.  Poderia entrar em campo e ser goleado que, em Santo André, o time seria recebido como se tivesse sido campeão. A bem da verdade, porém, não era um ingresso que Eric conseguira. A emissora havia credenciado toda a equipe de externa – repórter, cinegrafista, auxiliar e motorista – para cobrir o jogo no estádio. Mas o motorista, Cláudio Jumbo, um negão com pinta de bicheiro (adepto às camisas floridas desabotoadas, cordões de ouro falsificado e competições de canários cantantes, por isso ganhou até o apelido de “passarinheiro”) recém-convertido ao budismo, era alheio ao futebol e naquele dia implorou para ser dispensado do serviço porque tinha que prestigiar a filhinha numa apresentação de dança portuguesa no teatro da escola. Eric propôs que o sogro o substituísse. Ele só precisaria ficar na área destinada à imprensa no estádio. Assistiria ao jogo de pé, com os braços cruzados, impaciente, como todo motorista de plantão que não vê a hora do apito final para levar a equipe de volta à tevê e encerrar seu turno. Lincoln, o repórter, não gostou muito da ideia porque era – e provavelmente ainda é porque essas coisas não mudam de uma hora para outra – muito metódico. Um cara que não fala palavrões, não deixa a comida transbordar do prato, só come com guardanapo repousado na coxa, nunca palita os dentes, nunca mijou na rua, nunca se atrasou, nunca perdeu um compromisso, que para não perder um voo sai de casa com cinco horas de antecedência – e se o chamarem para jogar futevôlei pela manhã, mesmo o voo sendo meia-noite, ele recusa, porque “alguma coisa pode acontecer” – um sujeito que planeja minuciosamente cada detalhe do seu trabalho, até os mais insignificantes – uma vez chegou destroçado em casa após 12 horas de serviço e quando percebeu que havia deixado o computador bloqueado, retornou a tevê para desligá-lo – um cara que fica sem graça e muda de assunto quando os colegas falam sobre pornografia, e que, em nenhuma hipótese, trairia sua devota esposa, a única mulher com quem trepou na vida, porque isso contraria os seus princípios. Não o faria nem para satisfazê-la, se ela assim quisesse e implorasse.

É claro que um cara desses se oporia à trama de Eric porque ela representava uma mudança no plano original – e Lincoln detesta mudanças, improvisos e gambiarras. Tudo tem que ocorrer conforme o combinado. Não foram poucas vezes em que Eric questionou como alguém com personalidade tão ortodoxa pudesse gostar de um jogo que zomba da organização, do previsível, do planejado. “Futebol não combina com gente caxias, Lincoln”, provocava-o – “Por que não joga xadrez? Você ia se dar bem, já que quer antever tudo”. Mas Lincoln tinha uma qualidade que convinha com a situação: não era incisivo nas suas atitudes. Podia não concordar com a ideia – e certamente não concordava – mas não era o tipo que batia o pé e impunha sua vontade. Não criava caso.  Aceitava contrariado, mas aceitava. Além do mais, o fiel do embate pendia a favor de Eric. Rômulo, o auxiliar, era o oposto de Lincoln. Bem menos porra louca que Eric, mas ainda assim flexível, maleável, um cara do diálogo, na medida do possível equilibrado, um cara que se orgulhava de ter a voz mais fraca, de ir conforme a maioria ia, mas que neste caso em especial foi obrigado a se posicionar – a favor de Eric, não por simpatia, mas por bom-senso, afinal qual era o enorme problema de se trocar um motorista por outro? Lincoln aceitaria com a condição de que a redação fosse notificada, porque não queria ser responsabilizado por imprevistos que atrapalhassem seu trabalho, o que gerou outra discussão na equipe. Como Seu Valdecir não era funcionário da empresa, é óbvio que a direção da tevê se oporia. Mas ela não precisava saber. E ficou acertado que Jumbo os levaria até o terminal da Barra Funda, onde encontrariam Seu Valdecir e efetivariam a troca. Por fim, chegaram ao termo em que, caso houvesse qualquer transtorno, qualquer problema no trabalho, Eric assumiria a culpa. Conseguiriam entrar mesmo com o nome do motorista trocado? Não seriam barrados? “Claro que não”, asseverou Eric. “Pra começar, não tem que falar nada. É só entrar. Somos imprensa. Mas não entra cagando, não. Com medo, achando que vai dar errado, dá. É preciso transparecer confiança, mas na humildade, sem nariz em pé. Ninguém gosta de prepotência. Se falarem alguma coisa, a gente se impõe. Diz que houve uma troca de última hora e ponto. Além do mais, os seguranças são gente fina. Não vão encrencar. Valdecir entra, com certeza. Vem na minha”.

O Esporte Clube Santo André foi fundado em 18 de setembro de 1967 com o mesmo brasão da cidade que representaria, um retângulo vertical amarelo cortado por um xis verde e chapelado por quatro torres medievais. Ao contrário de muitos clubes do país, sua mascote não é um bicho. Alude ao explorador português João Ramalho, que invadiu o território tupiniquim no século XIV e nele ergueu o povoado de Santo André da Borda do Campo, posteriormente elevado a categoria de vila por Tomé de Souza. Ao longo das suas cinco décadas de vida, o clube sempre esteve vinculado à cidade onde nasceu. O seu centro de treinamento é municipal. O estádio onda manda suas partidas, o Bruno José Daniel, idem. Bruno José Daniel foi três vezes vereador e prefeito interino de Santo André em 1955. É pai do também ex-prefeito Celso Daniel, assassinado em janeiro de 2002. Muitos dos gestores do clube vieram da Secretaria Municipal do Esporte ou fizeram o caminho inverso. A Prefeitura já subsidiou gastos com passagem e hospedagens do time em competições nacionais, o que por várias vezes ensejou acalorados debates na Câmara Municipal – vereadores oposicionistas questionavam a real necessidade de se alocar verba pública numa instituição privada, já que o governo deveria ter outras prioridades. Entretanto, quando os papeis se invertem, isto é, seu grupo político vence as eleições e eles vão para a situação, a visão que tinham sobre o clube muda, e o Esporte Clube Santo André passa a fazer parte do patrimônio imaterial do povo andreense.

Mas nem sempre, claro, a relação entre clube e cidade foi harmoniosa. Nos tempos de vacas magras – e não foram poucos – a subvenção municipal enxugou e a cessão da estrutura física vinha acompanhada de contrapartidas onerosas alheias ao ambiente do futebol, como investimentos obrigatórios nas áreas de lazer da sede social, inclusas aí as piscinas e parquinhos infantis, e obras de reparo no estádio. No verão, o clube tinha de estender o horário de funcionamento, o que o obrigava a contratar mais pessoal. Vez ou outra a Prefeitura condicionava a continuidade do apoio ao investimento em outros esportes e em equipes femininas. Nenhuma exigência, porém, causou tanta celeuma quanto o valor dos ingressos. A Prefeitura freou reajustes súbitos convenientes ao clube ao sabor do momento pelo qual passava nos torneios. Ingresso por um alimento não perecível quando ia mal, tudo bem; surpreendeu o Santos na Vila e joga em casa na próxima rodada, torcedor empolgado, espeta cinquenta pau – isso não, é extorsão. Em 1975, o clube quase fechou as portas. Acyr de Souza Lopes, dono da metalúrgica São Justo, assumiu o clube e cedeu alguns dos seus funcionários para compor o plantel do time. Propôs uma mudança no nome da instituição, o que acabou vetado pelo Conselho Deliberativo, e nas cores do uniforme principal – no lugar do verde e amarelo da bandeira da cidade, o azul e branco atuais, uma reverência ao patrocinador. Lopes salvou o Santo André da falência e como recompensa seus trabalhadores conquistaram o primeiro troféu do clube – a segunda divisão do Paulista – título que venceria novamente seis anos depois.

No Paulistão de 1983, já com o elenco independente da indústria, foi o sexto colocado, o que o credenciou a disputar pela primeira vez em 1984 o Campeonato Brasileiro. E não fez feio. Passou da primeira fase como líder da chave, a frente do Grêmio, e da etapa seguinte, atrás do Atlético Paranaense. Caiu quando a competição engrossou, na terceira fase, encerrando sua participação em décimo lugar geral. Só voltaria a jogar a primeira divisão nacional em 2009 (foi vice-campeão da série B em 2008), quando foi rebaixado e nunca mais voltou.

O futebol do ABC vivia sua década de ouro nos anos 2000. O São Caetano tinha chegado à final da Copa João Havelange. Quem se esquece daquela bomba do Adhemar que eliminou o Fluminense nas oitavas e que depois lhe renderia convite para ser kicker na NFL? E da queda do alambrado em São Januário? 160 feridos, nenhuma morte, ainda bem. O Vasco acabaria campeão, mas o Azulão ainda daria o que falar. Em 2001, terminou a fase de grupos na liderança do Brasileirão. Teria sido campeão se fossem pontos corridos. No mata-mata, despachou Bahia e Atlético Mineiro, mas perdeu a final para o Atlético Paranaense. Dois vice-campeonatos seguidos. Em 2002, quebrou todas as expectativas ao chegar à final da Libertadores da América, uma façanha que até então nem o todo-poderoso Corinthians havia alcançado. Perdeu o título para o Olímpia (PAR), nos pênaltis, mas entrou para a história. Vice-campeão continental, para um clube com menos de treze anos de vida, era uma senhora conquista, digna de feriado municipal e desfile em caminhão aberto dos bombeiros. No ano seguinte, depois de tantos vices, finalmente foi campeão paulista; no Brasileirão, ficou em quarto.

A exemplo do arquirrival, o Santo André viveu suas grandes conquistas na virada do século XXI, ainda que muitas delas não tenham o mesmo prestígio e também tenham sido o segundo lugar. Foi vice da série A2 do Paulista em 2001 e da Copa Paulista de 2002 (ainda chamada de Copa Estado de São Paulo), torneio da Federação Paulista de Futebol (FPF) que preenche o calendário no segundo semestre dos times paulistas que geralmente não disputam competições nacionais. Assim como o primo rico, 2003 foi o grande ano do Ramalhão. Começou com a molecada levantando a Copa São Paulo de Futebol Júnior (bateu o Palmeiras na final, 5 a 4 nos pênaltis). Daquele time surgiu a base da defesa campeã da Copa Paulista (seu passaporte para a Copa do Brasil) e vice do Brasileirão da Série C (Ituano ficou com o título). Era a mesma defesa que seguraria o Flamengo no ano seguinte na sua glória máxima: Ramalho, Gabriel Limeira e Alex Bruno – este ajudaria depois o São Paulo a ser campeão do mundo em 2005.

Bastava, portanto, uma breve examinada neste histórico para não desprezar o Santo André em 2004. Era o azarão, não há dúvidas, como qualquer time fora do clube dos treze está fadado a ser. Apesar da defesa jovem e promissora, tinha jogadores rodados, alguns com passagens por grandes clubes, como Romerito, campeão paulista com o Corinthians em 1997; Élvis, tricampeão baiano (1997,1999 e 2000) e bicampeão da Copa do Nordeste (1997 e 1999) com o Vitória; Dirceu (ex-Fluminense) e Sandro Gaúcho (ex-Sport).

Quando bateu o Palmeiras nas quartas de final e o sonho de ganhar a Copa do Brasil deixou de ser impossível, o Santo André amargava a vice-lanterna da segunda divisão do Brasileiro de 2004. A colocação devia-se menos ao desempenho em campo do que às lambanças fora dele, que na justiça lhe custaram 12 pontos no campeonato. O motivo foi a escalação irregular do zagueiro Valdir e do atacante Osmar nos jogos contra Avaí e Paulista – os atletas não podiam ter atuado porque não constavam do Boletim Informativo Diário da CBF. Ainda assim o time escaparia com folga da degola naquele ano – terminaria em décimo quarto lugar. Não fosse a punição, teria sido o quinto.

O Ramalhão era comandado por Péricles Chamusca, um jovem soteropolitano esguio, destro, magro feito um espeto e ferrenho adepto dos trajes sociais a beira do gramado que aliado aos seus indispensáveis óculos de grau lhe conferem a pinta de estudioso do esporte, esta figura enfadonha importada da Inglaterra cujo traço clássico é o forte apreço pelo aspecto tático do jogo, alguém que costuma superestimar o planejamento estratégico e que por isso gosta de comparar o futebol ao xadrez. Não se iludem com o talento natural – creditam-no mais à força de vontade e ao treinamento árduo – e realmente creem que o jogo pode ser vencido na prancheta, o que faz desta classe de treinadores estilosos mais vaidosa que à habitual, e não só na aparência; não obstante adoram ser chamados de managers, porque querem, pedem e, em alguns casos, exigem exercer papeis que excedem o simples preparo da equipe. No íntimo, vangloriam-se do protagonismo que a mídia passou a lhes dar – e alguns de fato acreditam ser mais decisivos que os atacantes, embora mais substituíveis.

Chamusca, todavia, não é bem assim. Como jogador, teve uma carreira curta, atuou nas divisões de base do seu time de infância, o Bahia, mas não se profissionalizou. Cursou educação física e, recém-formado, foi convidado por Evaristo de Macedo para auxiliá-lo na preparação física do tricolor baiano. Mas foi no rival Vitória que chamou atenção, sendo campeão baiano em 1995, quando tinha só 30 anos. Treinou o Santa Cruz (1996), rodou pelo interior de São Paulo (Mirassol e Rio Branco), passou pelo América de Natal e Anápolis até chegar ao CSA, onde obteve sua segunda conquista, o alagoano de 1999. Retornou ao Vitória em 2001, sem sucesso, e, após breves passagens pelo Corinthians do Alagoas, Porto de Pernambuco e Confiança do Sergipe, chegou ao Brasiliense em 2002, levando-o de forma escandalosa à final da Copa do Brasil daquele ano – perdida para o Corinthians, mas, ainda assim, um marco na sua carreira. Apesar da projeção, não assinou com nenhum gigante. Foi para o Caxias (RS), onde ficou até o início de 2004, quando retornou ao Santa Cruz, sem sucesso, e dois meses depois fechou com o Santo André. Chegava ainda timbrado pelo que fizera com o Brasiliense dois anos antes, mas ninguém no Ramalhão, nem o presidente, nem o roupeiro, nem o torcedor mais doente acreditava que aquela zebra pudesse se repetir e, mais ainda, com um outro desfecho.

Depois de tanta insistência e chantagem, Seu Valdecir concordou com a tramoia do genro e aceitou ir ao estádio – meio contrariado porque preferia assistir ao jogo em casa, sossegado, sem aquele monte de desvairados berrando no seu ouvido e enchendo a porra do saco. Também não tinha definido sua torcida. Era rubro-negro de coração, apesar de todas as decepções que seu time lhe infligira nos últimos… o quê?… quinze anos? Um pouco menos, talvez. Nem se dera ao trabalho de vibrar com a conquista da Mercosul em 1999, primeiro troféu não-estadual que erguia desde 1992, quando sem dúvida já não era tão memorável quanto o dos anos 80, o único Flamengo que lhe permitiu torcer com paixão e orgulho, mas ao menos ainda se via um rescaldo de bom futebol em Júnior, Zinho, Nélio, Marcelinho e Paulo Nunes – esses dois últimos em início de carreira. Nunca pretendera romper o mantra tão declamado no hino do clube. Certamente uma vez fora Flamengo, mas ainda o era? Não com o mesmo vigor de outrora, quando não desgrudava o ouvido das locuções de Ary Barroso no seu radinho de pilha comprado a duras penas numa época em que o Flamengo começava a deixar seu passado elitista para se popularizar. Sem dúvida, já não era um fanático. Havia muito não sofria. Recusava-se. Mas também nunca aderiu ao discurso que futebol é perda de tempo. Nunca deixou de gostar do jogo e de conferir os resultados. Só passou a gostar com menos entusiasmo e religião. Já não ia se descabelar. Já não ia desmarcar eventos concomitantes. Já não ia se iludir. Seria sempre um ótimo passatempo, uma boa diversão, se o jogo fosse bom, o que, segundo seus critérios, muito mais rígidos com o tempo, estava cada vez mais difícil de testemunhar. Por isso ganhou a pecha de amargurado. Um saudosista indelével, sempre torcendo o nariz para as novidades – que ele chama de efemeridades. Combatia os argumentos de quem se impressionava com Bebeto e Romário dizendo ter visto Zico, Falcão e Careca. Combatia os admiradores desses dizendo ter visto Pelé e Garrincha. Não duvidem que rebatesse à unânime majestade com juras de amor ao Zizinho. E assim recuava no tempo até encontrar um passado mais belo que ele certamente testemunhou e do qual jamais se esqueceu. Sob o pretexto de manter a memória viva, pretendia na verdade instigar nos demais uma melancolia inversa, um desprezo pelo atual, e assim acertassem as contas com os deuses que tinham lhes privado de viver aquela época formidável, quando o mundo era muito melhor e o futebol nem se fala.

Por outro lado, difícil não se simpatizar com o time sensação da cidade que o acolhera e onde agora, aposentado, escolhera passar o resto dos seus dias. Seria sempre Pernambucano. Mas a infância sofrida ficara para trás, assim como a visão idílica da terra natal cujas raízes ele agora só preservava na fala, nos trajes e na boa mesa, embora até esta tenha se visto obrigado a abdicar por uma ordem médica infame.  Não era bem uma dívida de gratidão que sentia por Santo André. Triunfara por esforço próprio. Poderia ter sido em São José, Ribeirão, Taubaté, onde for. Teria se dado bem nesses lugares igual. Não perdeu um minuto com esta babaquice de dificuldade de adaptação. A opção sempre foi muito clara: aqui tenho trabalho, daqui tiro meu ganha-pão, aqui tenho dignidade, sustento minha família, então é aqui que vou ficar. Mas agora ele tinha opção. Recebia da previdência, tinha suas economias, a filha já estava criada, podia vender a casa e o Passat. Podia voltar para o Pernambuco, grana não seria empecilho. Mas já não queria. Já não tinha nada lá – parentes, amigos. Nada além de lembranças remotas que ele já dispensava revivê-las. Tinha construído sua vida em Santo André, um lugar onde envelheceu prometendo um dia deixar, mas que agora, velho, de bengalas, mudara de ideia. Conformou-se como sempre. Estava bem onde estava. Aprendeu a valorizar a comodidade e a aceitar as condições dadas.

 

Fazia 18 graus naquele 23 de junho em São Paulo, a primeira quarta-feira do inverno de 2004. Não chovia. O Santo André tinha sido obrigado a mandar a partida no Palestra Itália porque o seu estádio não tem capacidade para abrigar o público mínimo de uma final, segundo os critérios tirânicos da CBF. Era o mandante, mas quem jogava em casa era o Flamengo, o mais querido nas arquibancadas. Seu Valdecir chegou com a equipe da tevê duas horas antes do início da partida. Entrou sem nenhum problema, conforme previa Eric. A antecedência era necessária para posicionar a câmera em um bom ângulo na zona reservada às emissoras não detentoras do direito de transmissão, a peãozada que se aglomera em doze metros quadrados embaixo das cabines envidraçadas onde os barões narram o espetáculo desimpedidos, sem nenhuma nuca para atrapalhar. Seu Valdecir se achegou num canto e recostou na pilastra, deixando o corredor à direita livre para o trânsito dos pipoqueiros, os espectadores mais desinteressados nos estádios. Permaneceu indiferente ao público que chegava e recobria os espaços vazios com bandeiras, cartazes, rosários, promessas e fantasias que iam de santos a urubus furiosos. Havia 20 mil pessoas ali, mas ele jurava que tivesse muito mais.

Aos 25 minutos, Ibson cruzou na cabeça de Roger na pequena área. Caixa. O estádio vibrou. Seu Valdecir cerrou o punho direito, olhou para os dois lados e não sorriu. Assim como os pipoqueiros, não deu trela. No início do segundo tempo, Romerito arrancou com ela dominada. Na entrada da área, ciscou pra lá e pra cá e cruzou. A defesa rubro-negra parou, achando que Osmar estivesse impedido. O juiz ficou na dúvida. Olhou para o bandeira, que nada assinalou. Osmar subiu livre e não perdoou. Seu Valdecir descruzou os braços, olhou para a meia dúzia de gatos pingados na outra ponta do estádio, cerrou o punho esquerdo e quase soltou um grito. Dez minutos mais tarde, a bola respinga na área do Flamengo. André Bahia fura. Sandro Gaúcho escora com o peito e Romerito acerta o voleio no canto direito. A maioria se cala. Dessa vez Seu Valdecir não se contém e murmura no ouvido do auxiliar que o gol foi merecido, o Santo André já vinha fazendo por onde. Eric focalizou uma torcedora feliz da vida com o bebê no colo, imagem que talvez abrisse o VT no jornal do dia seguinte. Galvão Bueno trocou o nome do time na narração do gol. “É do São Caetano!”, gritou, para logo em seguida se retratar: “Do Santo André!”.

A poucos minutos do fim, porém, Athirson deixaria tudo igual numa cobrança de falta de longe, traiçoeira, que atravessou a barreira e morreu no canto direito antes que o arqueiro pudesse espalmar. O estádio veio abaixo. Seu Valdecir se enrubesceu e dele não se ouviu mais um só pio até o apito final. Conformado, foi logo apressando a equipe para ir embora. Não imaginava que só sairia dali três horas depois, quando o genro tivesse registrado todas as explicações para o resultado e Lincoln, muito afoito, gravado suas trezentas sonoras. Para seu azar, foi convidado a acompanhar à maratona de entrevistas, o que prontamente descartou. Preferiu voltar para o carro e buscar uma rádio que tocasse sertanejo de madrugada. Nada do que pudessem falar o convenceria. Tinha visto ao vivo, pelo o qual era muito grato, mas já bastava. Os comentários só aprofundariam sua certeza de que, uma vez acabado, não adianta chorar e que as explicações muito técnicas afastam o torcedor mediano daquele mundo simples quando era apenas ataque contra defesa e que vença o melhor. Muito se ia falar do 2 a 2. O Flamengo já estava com a mão na taça. Mas Seu Valdecir não estava interessado. E na semana seguinte, não só não leu nada sobre futebol como escapuliu do assunto no dominó. Fechara-se novamente no seu mundo simples, mal-humorado e orgulhoso.

No jogo da volta, 70 mil rubro-negros sacudiram o Maracanã com bandeirões, olas, réplicas da taça prometida e com gritos de bicampeão. E foi assim que o Flamengo entrou em campo, campeão, por conta dos dois gols fora de casa no primeiro confronto.  Poderia até empatar por 1 a 1. Era só não perder. Júlio César puxou o elenco na entrada ao gramado. Com 25 anos, era um jogador consagrado. Tetracampeão carioca, campeão da Copa Mercosul (1999) e da Copa dos Campeões (2001), goleiro de Seleção Brasileira, despedia-se do Flamengo para jogar na Itália. “Vamos dar este título para esta massa”, afirmou na entrevista antes de a bola rolar. Na outra meta, o outro Júlio César, o anônimo, um ano mais velho que o xará, mas cuja glória máxima na carreira tinha sido o título da Copa Paulista de 2003. Vestia um boné branco, calção azul marinho e camisa de manga longa. Antes do aquecimento, parou admirado, perplexo e assustado diante do estádio onde um dia tinha sonhado jogar, fazer uma grande defesa, segurar a vitória do seu time de infância e ouvir seu nome na boca da multidão. Sonho. Não seria naquele dia que se sentiria amado, imbatível e imortal. Naquele dia ele era o algoz. Estava ali para calar meio mundo. Para ser idolatrado não por 70 mil, mas por duzentos conterrâneos que saíram do ABC em quinze caravanas para vê-lo mudar o roteiro de última hora, alimentar a zebra e operar um milagre, como é próprio da sua posição, mas que, naquele dia, por alguma razão, ele se sentia capaz de realizar. Não se destacava na autoconfiança nem na motivação frenética, mas na timidez, no silêncio e até o no espanto com a situação – típicos de um desconhecido que, como tal, podia se soltar; a pressão estava do outro lado, o preço a se pagar por quem veste a tradição. Ele não. Ele estava bem como azarão. Assim podia desfrutar de cada um dos 90 minutos que se seguiriam. Saborear a única chance que o seu time teria de se tornar campeão nacional. Já havia feito história. Já seriam lembrados. Mas uma final contra ninguém menos que o Flamengo, no Maracanã lotado, não, não era real.

Meia-hora de jogo e os comentaristas, sempre exigentes, reclamavam da quantidade de erros de passe, da total ausência de chances de gol e das finalizações que não assustavam ninguém – chutes sem direção, fracos, recuos e isoladas. Reginaldo Araujo os calou com um tirambaço de fora da área, já na reta final da primeira etapa, que empolgou o narrador e a torcida, mas sequer preocupou o goleiro.  Casagrande dizia que o Flamengo precisava ser mais agressivo para acalentar o torcedor, até então muito quieto, reação atípica para um rubro-negro apaixonado. No intervalo, para conter a lotação, a polícia militar liberou as arquibancadas de vinte reais. Agora o bonde deslanchava.

Mas não foi bem assim. Bastaram vinte e dois minutos da segunda etapa para a massa se calar. Numa cobrança de escanteio, Sandro Gaúcho cabeceou livre aos 07. Tirou a camisa, levantou as mãos para o céu e ostentou a regata em nome de Jesus. Seria abençoado de novo minutos depois, quando carregou a bola pelo meio, tocou na esquerda para Osmar, que cruzou na área nos pés de Élvis. O meia deu um tapa para rede e correu para o abraço.

Depois do segundo gol, a melhor chance do Flamengo na partida, senão a única, foi na cobrança de falta idêntica à do jogo anterior que Athirson encaixou, mas que dessa vez não passou da barreira. Multidões deixavam o estádio antes dos acréscimos. E o pequeno Santo André comemorava a façanha num Maracanã vazio, só dele. Milagre.

Após o título, os treinadores foram originais. Péricles Chamusca enalteceu o equilíbrio emocional da sua equipe e Abel Braga reconheceu que o adversário foi superior, portanto merecedor da conquista. Sandro Gaúcho resumiu o sentimento depois de erguer a taça. “Ninguém acreditava, mas nós viemos aqui e ganhamos”, chorou.

O Santo André chegou a final do Paulistão de 2010, a melhor campanha da sua história. Perdeu para o Santos, mas Júlio César, o anônimo, foi eleito o melhor goleiro da competição. Logo em seguida se despediu do clube. Jogou no Vila Nova, no Red Bull Brasil e no CRB antes de se aposentar, em 2016. Depois do Santo André, Romerito jogou cinco anos no Goiás (2005-08/2008-10) e três no Sport (2008/2010-12). Foi bicampeão goiano (2006 e 2009) e campeão pernambucano (2008). Teve uma passagem curta no Juventus (2012) e, nos anos finais da carreira, jogou em quatro equipes de Goiás: Rio Verde, Anapolina, Aparecidense e Goianésia, clube em que assumiu como treinador, sua última função no futebol. Élvis jogou no Botafogo (2004-05) no Marília e no Ituano. Foi campeão paraense com o Remo em 2007. Retornou duas vezes ao Santo André, em 2009 e 2013, sem o mesmo sucesso da primeira passagem. Encerrou a carreira no CSA. Sandro Gaúcho foi para o Marília em 2005, mas voltou ao Ramalhão um ano depois, sem sucesso. Encerrou a carreira no Juventude. Treinou o time B do Santo André em 2008 e o principal em 2011. Com 58 gols, é o segundo maior artilheiro da história do clube (Tulica, atacante dos anos 70, é o primeiro). Virou pastor e hoje vive nos Estados Unidos.

Seu Valdecir não assistiu a partida de volta no Maracanã. Decidira ler a bíblia ao invés, um projeto que havia tempos vinha adiando retomar. Em algum momento enquanto sonhava jurou ter ouvido fogos de artifício, vários deles, e quando viu na manhã seguinte o mar de latas de cerveja no seu trajeto a pé até a padoca do Seu Renato, onde toda manhã comprava suas duas bisnagas, não teve dúvida. Sorriu. Conferiu no jornal quem havia feito os gols. Talvez os assistisse mais tarde. “Que jogo ontem, hein!”, brincou o padeiro, numa simpatia rara. “Pois é” – respondeu Seu Valdecir, tão rabugento quanto – e cortou o papo. Pegou uma caixa de leite semidesnatado, o jornal e pagou com uma nota de dez reais. Conferiu o troco, desejou bom dia e se despediu. Olhou a manchete da capa, em letras garrafais, e soltou uma risada seca. Sentiu uma súbita alegria, tímida, nada extravagante. Seu coração já não estava dividido. Olhou para trás. Acenou para o padeiro e retornou para casa.