Marcelinho Paraíba relembra título da Copa do Brasil e fala sobre AVC e aposentadoria

“O Interminável”. Parece título de filme, mas na verdade trata-se do adjetivo que a imprensa esportiva usa para se referir a Marcelo dos Santos. As chances de alguém o conhecer pelo nome de batismo são quase nulas. Orgulhoso de sua terra natal, e desejando que todo o Brasil soubesse de onde viera aquele jogador – que muda a cor de cabelo com a mesma frequência com que troca de time –, decidiu que seu sobrenome seria o do seu estado.

Elisa Marinho
Colaborador do Torcedores

Crédito: Reprodução/ Youtube

“Era 1999. Campeonato Brasileiro, São Paulo e Ponte Preta. Fiquei a semana toda com uma ideia na cabeça, queria homenagear a Paraíba. Existia muito preconceito com o nordestino, muitos não tinham coragem de dizer que eram de lá, tinham vergonha. Como naquela época podia ficar com uma camisa por baixo com alguma frase ou foto eu escrevi o nome 100% Paraíba. Nós (São Paulo) estávamos perdendo por 2×0, mas eu fiz 3 gols e levantei a blusa. A partir daí eu me tornei Marcelinho Paraíba”, relembrou, em entrevista exclusiva ao Torcedores.com.

Assim como muitos craques do futebol brasileiro e mundial, o primeiro campo de Marcelinho Paraíba foi a rua. No caso do paraibano, as ruas do José Pinheiro, bairro da terra que abriga o maior São João do mundo, em Campina Grande-PB. Aos 16 anos, no início da década de 90, entrou para as categorias de base do Campinense e começou a jogar na Raposinha.  Depois seguiu para o Corinthians-AL e logo depois para o sudeste do país. Em 1997, foi contratado pelo São Paulo e ficou por lá até 2000.

Hoje, Marcelinho dá significado ao adjetivo interminável. Tem 24 times no currículo ao longo dos 27 anos de carreira e 43 de idade. Começou sua trajetória ganhando dois paraibanos pelo Campinense, em 1991 e 1993. Pelo São Paulo, faturou dois estaduais,1998 e 2000. Conquistou duas Copas da Alemanha pelo Hertha Berlim e foi campeão gaúcho vestindo a camisa do Grêmio.

Mas a conquista mais importante da sua história aconteceu um ano antes do quinto título do Brasil, em uma Copa do Mundo. Marcelinho Paraíba brilhava no futebol gaúcho em 2001. Naquele momento, o Grêmio, treinado pelo atual técnico da seleção brasileira, fazia uma campanha honrosa na Copa do Brasil. O time de Tite passou por Fluminense, São Paulo, Coritiba, entre outros. Chegou a final. Do outro lado estava o Corinthians.

Na partida de ida, que aconteceu no Olímpico, Marcelinho estava suspenso e assistiu ao jogo pela televisão. O time paulista abriu 2×0, o que deixou o paraibano apreensivo, mas o Grêmio conseguiu o empate. Tudo se resolveria no jogo de volta no Morumbi. Tite vs Vanderlei Luxemburgo, Marcelinho Paraíba vs Marcelinho Carioca.

“Foi bem difícil. 73 mil pessoas, apenas duas mil gremistas. O Corinthians atacava muito, jogava pelo empate, mas com 15-20 minutos eu sabia que íamos ser campeões, porque começamos a dominar o jogo.  Talvez por causa da ansiedade, perdemos muitos gols, mas abrimos 2×0. Eles fizeram 2×1, aí ficou complicado. Foi quando eu fiz o terceiro. Matei o jogo”.

Mas engana-se quem pensa que Tite ou a qualidade daquele elenco foram os únicos responsáveis pela conquista de 2001. Marcelinho Paraíba revelou um dos segredos que levou o time do Grêmio ao seu quarto título na Copa do Brasil.

“Sempre fazíamos um pagode na concentração. Íamos para a sala de reunião, fazíamos uns pagodezinhos, das 19h30 às 22h. Não foi o pagode que ajudou a gente a ganhar, mas ajudou muito na união do grupo, no entrosamento. Não tinha discussão”.

Festa de verdade aconteceu após o jogo da final, fazendo, inclusive, Marcelinho mudar os planos de voltar para a cidade natal. O pagode falou mais alto.

“Estava com uma passagem marcada para Campina Grande, mas eu não quis perder a festa por nada. Cancelei o voo. A gente já foi comemorando no avião até Porto Alegre, tinha muito gremista. Quando chegamos no aeroporto estava lotado, fomos no carro de bombeiro até o estádio. Foi um dia muito especial”.

Naquela edição da Copa do Brasil Marcelinho marcou cinco gols, alguns que ajudaram o Grêmio a conquistar o título, como esse da final, e o único anotado contra o Fluminense, suficiente para fazer o time gaúcho avançar na competição.

Um ano antes dessa memorável conquista, Marcelinho Paraíba sofreu uma de suas maiores derrotas no futebol, também na Copa do Brasil. Em 2000, o paraibano mais uma vez chegou à final do campeonato, dessa vez com a camisa do São Paulo, clube que o projetou para o país. São Paulo e Cruzeiro, única final da Copa do Brasil que o time paulista disputou, único troféu que o Tricolor não tem em sua galeria.

“Até hoje eu penso nesse jogo. O nosso time era muito bom, tinha Raí, Rogério Ceni, Jorginho, França e outros. O nosso treinador era o Levir Culpi, um dos melhores que eu tive.  Nós jogávamos pelo empate. Eu fiz o gol lá no Mineirão, aos 20 minutos do segundo tempo, mas tomamos a virada no finalzinho, com gols de Fábio Júnior e Geovanni. Foi um dia muito triste”..

Mas decepção mesmo Marcelinho só sente quando recorda o fato de não ter ido para a Copa do Mundo em 2002. “Eu estava cotado para ir. Eu ajudei a seleção nas eliminatórias. Fiz gol pela seleção brasileira e Felipão prometeu levar o grupo que classificasse e eu fiquei fora. Foi uma decepção, uma frustação muito grande, eu senti muito, eu estava no meu melhor momento”..

Questionado se ouviu a garantia de Felipão de que seria convocado, Marcelinho respondeu: “No último jogo das eliminatórias contra a Venezuela, nós ganhamos de 3×0. Esse jogo classificamos para a Copa, eu estava no banco, eu até entrei no jogo, dei uma saia no goleiro. Nesse dia, eu concentrei com Ronaldinho Gaúcho, ele foi no nosso quarto e falou que ia contar com a gente, que se desse tudo certo íamos estar com certeza no grupo que ia para o Mundial. Então eu fiquei tranquilo, quando aconteceu a convocação final meu nome não estava. Eu fiquei muito triste”..

O meia-atacante reconhece que naquele momento existia uma boa disputa para sua posição, Djalminha, Alex, Luizão, Edilson Capetinha, entre outros. Mas se a Seleção Brasileira é a responsável por sua mais significativa decepção, é ela também dona de sua principal alegria. Ao ser questionado sobre sua maior emoção na carreira, ele não demora a responder que foi a sua primeira convocação para vestir a Amarelinha, no início de 2002. O seu primeiro jogo foi um amistoso contra o Panamá, em preparação para as eliminatórias, que ele também disputou.

Alegrias e tristezas. Assim é a vida, assim é o futebol. Ano passado, em 2018, o “Interminável” deu um susto nos torcedores brasileiros. Por um momento, achou-se que essa grande história seria encerrada de uma maneira indesejável.

“Eu estava na casa de um amigo. Eu senti uma dormência no lado direito do rosto e uma dificuldade para falar, então eu fui no hospital. O médico pediu uma ressonância e viu uma manchinha. Foi diagnosticada uma isquemia cerebral”.

Marcelinho ficou internado durante dois dias. O médico pediu repouso de um mês, mas Marcelinho, como seu signo próprio indica, agiu como um touro, com 14 dias voltou a jogar. “O Treze-PB estava nas finais da série D, eu queria voltar para ajudar o time”.

E conseguiu, o Galo da Borborema conquistou o acesso para a série C e disputou a final da quarta divisão, a única final de Campeonato Brasileiro que Marcelinho jogou na carreira, embora tenha sido um dos artilheiros da primeira divisão com o Coritiba em 2009, com 14 gols. O time de Campina Grande acabou perdendo para o Ferroviário-CE. “Ficamos felizes porque o nosso principal objetivo era o acesso. Mas perder uma final é sempre ruim”.

Ao ser questionado se faz alguma preparação especial para se manter na ativa dentro das quatro linhas aos 43 anos, Marcelinho confessa que não. Faz tudo conforme os outros atletas. Diz que teve uma vida desregrada no álcool, mas que isso é passado.

A pergunta que tem respondido com mais frequência é até quando pretende jogar. Prestes a completar 44 anos no dia 17 de maio, ele afirma que seguirá jogando até os 45. Hoje, Marcelinho Paraíba atua pela equipe da Perilima, de Campina Grande. Mas, engana-se quem pensa que o paraibano irá se afastar totalmente do futebol.

“Eu já estou agenciando alguns atletas, já tem uns garotos que estou trabalhando, também tenho grande interesse de seguir uma carreira como treinador. Vou fazer curso de técnico e estou pensando, em 2020, entrar para a política, como vereador em Campina Grande”..

Esse é Marcelo dos Santos: versátil e interminável. Um andarilho da bola. Sabe que é privilegiado, por ser conterrâneo de Zé Ramalho, Augusto dos Anjos, Ariano Suassuna e Assis Chateaubriand. Impossível não se orgulhar de um lugar desses. E Marcelinho sempre teve ciência que a Paraíba, como diz o músico Tom Oliveira, é uma joia rara. Talvez por isso optou por carregar em seu nome o seu estado natal.