PAPO TÁTICO: Por que insistimos que Messi não é culpado pela péssima fase da Argentina

A derrota da Argentina para a Venezuela (a segunda na história) justo no retorno de Lionel Messi para a Albiceleste chega a ser emblemática. Muitos críticos (dentro torcedores e imprensa esportiva) colocam nas costas do camisa 10 quase toda a culpa pela péssima fase que a seleção bicampeã mundial vem passando. Messi, segundo eles, não rende o mesmo que rende no Barcelona sendo apenas “jogador de clube”. Este que escreve, por outro lado, segue discordando dessas colocações. E contra a Venezuela, este que escreve chegou a ficar com pena de Messi por conta de uma série de fatores que vamos destrinchar aqui na coluna PAPO TÁTICO. E não, ele não é o culpado pela situação da Argentina no futebol mundial.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / FIFA.com

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que a Argentina passa por uma grande renovação. Nomes como Mascherano, Di María, Higuaín e outros vêm dando lugar a jovens valores como Lo Celso, Benedetto e Lautaro Martínez. Ao mesmo tempo, o técnico Lionel Scaloni se vê no meio de um furacão envolvendo a insatisfação dos jogadores e a AFA. E também temos Messi tentando provar seu valor vestindo a Albiceleste. Contra a Venezuela, o time entrou em campo armado num 5-3-2 com o camisa 10 no comando de ataque. Mas a falta de compactação e aproximação entre os jogadores acabou prejudicando e muito a atuação do escrete portenho na partida. Sendo bem sincero, ficou até barato para os comandados de Lionel Scaloni.

O técnico Lionel Scaloni armou a Argentina num 5-3-2 e deixou Messi no comando de ataque para armar as jogadas ofensivas. O treinador portenho desfez o esquema tático logo depois do primeiro gol da Venezuela, mas o time seguia com sérios problemas defensivos e sem padrão tático. Foto: Reprodução / Sportv

A grande verdade é que a Argentina só conseguia ser perigosa quando Messi deixava o setor ofensivo e vinha trabalhar as jogadas no meio-campo. Ao mesmo tempo, Lautaro Martínez, Pity Martínez e Montiel cresciam de produção quando o camisa 10 pegava na bola. É bem verdade que a Albiceleste criou suas chances de gol, mas acabou esbarrando na boa atuação do goleiro Fariñez, nos erros de conclusão a gol e na boa organização defensiva da Vinotinto. O técnico Rafael Dudamel (aquele mesmo que foi goleiro da Seleção Venezuelana nos anos 1990 e 2000) armou um 4-5-1 que negava espaços e tinha em Rondón e Murillo a válvula de escape para explorar os contra-ataques. A estratégia não poderia ter sido mais feliz.

A Venezuela apresentou um bom jogo coletivo e uma defesa sólida. O técnico Rafael Dudamel armou uma linha de cinco jogadores à frente da linha defensiva numa formação que negou espaços ao adversário. Foto: Reprodução / Sportv

Lionel Scaloni já havia desfeito o seu 5-3-2 logo depois do primeiro gol venezuelano e apostado num 4-2-3-1 com o seu camisa 10 mais solto na frente. Mas os problemas defensivos seguiam os mesmos. Como tirar o melhor de Messi na Argentina com tamanha desorganização tática? Messi é craque. Fato. Mas a impressão que fica é que as últimas formações da Albiceleste (principalmente na Copa do Mundo da Rússia) não passavam de times reunidos ao seu redor sem uma proposta de jogo clara. Ao mesmo tempo, o time de Scaloni crescia quando Messi tinha com quem dialogar no ataque. E foi exatamente isso que aconteceu no único gol argentino na partida. Messi armou o contra-ataque que resultou no gol de Lautaro Martínez.

Messi só conseguia mostrar seu futebol quando tinha com quem jogar no setor ofensivo. Tanto que o único gol da Argentina na partida teve a jogada iniciada nos pés do camisa 10. Foto: Reprodução / Sportv

É claro que jogadores como Otamendi e Agüero fazem muita falta em qualquer seleção do mundo. Principalmente o atacante do Manchester City. Mas o ponto aqui é o peso colocado às costas de Messi na Argentina. Por mais que a Venezuela tenha merecido vencer a partida no Estádio Metropolitano de Madrid, os comandados de Lionel Scaloni colaboraram demais para que isso acontecesse. Fazendo um paralelo com Cristiano Ronaldo em Portugal, onde o time e o esquema tático são construídos ao redor do craque, Messi se vê sem lá muitas opções na sua seleção. Falta algo que tire o melhor do camisa 10 dentro de campo e não apenas passar a bola para ele e esperar uma mágica. Às vezes dá certo. Outras vezes não.

Que fique claro que este que escreve é fã do futebol de Lionel Messi e lamenta muito por não ver o craque jogando o fino da bola com a camisa da sua seleção. Mas a culpa não pode ser colocada apenas nas suas costas. Existem muitas coisas na Seleção Argentina que precisam ser corrigidas o quanto antes.

LEIA MAIS:

Argentina x Venezuela: assista aos melhores momentos da volta de Messi

Messi sente lesão e é cortado após revés da Argentina em amistoso

PAPO TÁTICO: Por que continua sendo injusto colocar toda a culpa da crise da Argentina nas costas de Messi