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PAPO TÁTICO: Tite precisa se reconectar com a realidade se quiser fazer a Seleção voltar a jogar bem

Antes de mais nada, é preciso deixar bem claro que a análise da grande imprensa esportiva precisa ir muito mais além dos velhos clichês repetidos há pelo menos 50 anos. Não faltou “vontade” e nem “amor à camisa” no empate da Seleção Brasileira com o Panamá neste sábado (23). Mas as últimas atuações da equipe comandada por Tite preocupam muito. Nem tanto pela atuação dos jogadores na partida, mas pelo sistema escolhido pelo treinador do escrete canarinho. A impressão que fica é que Tite parece desconectado com a realidade ao insistir numa formação que não permite que Arthur, Firmino e outros rendam o que pode render. Mesmo sem Neymar em campo, a Seleção Brasileira pode e deve jogar mais e melhor.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Quando a escalação do Brasil foi divulgada, muita gente pensou que Tite fosse posicionar Lucas Paquetá e Arthur por dentro, Richarlison e Philippe Coutinho pelos lados e Firmino no comando de ataque (embora este venha jogando como “camisa 10” no Liverpool) no seu 4-1-4-1 costumeiro. O que se viu na prática foi um time sem muito padrão de jogo, com Paquetá jogando pelo lado, Coutinho por dentro e Arthur entre as linhas do 5-4-1 da equipe comandada por Dely Valdéz. O único gol brasileiro na partida saiu de um lance em que Paquetá apareceu por trás da defesa panamenha e escorou cruzamento de Casemiro. Mas foi só. E muita gente se perguntava o que havia acontecido com o futebol apresentado nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia.

Tite armou a Seleção Brasileira com Philippe Coutinho por dentro e Lucas Paquetá aberto pela esquerda. O posicionamento ruim dos jogadores em setores onde não se sentem confortáveis vem sendo um dos grandes equívocos do treinador do escrete canarinho. Foto: Reprodução / TV Globo

É aí que entra o grande X da questão. O futebol sofreu algumas modificações significativas após o Mundial do ano passado. É preciso ser muito mais objetivo na saída de bola e contar com jogadores que exerçam essa função. É o tal “ritmista” que Tite tanto procurou nos últimos meses. Quem cumpre essa função hoje é Arthur. Só que o volante do Barcelona não vai conseguir nunca mostrar o seu futebol se ele não participar da saída de bola e da distribuição das jogadas. Quem explica muito bem isso é o grande József Bozsik (pseudônimo emprestado grande médio húngaro) com as mudanças ocorridas na disposição dos jogadores brasileiros nas Eliminatórias, na Copa de 2018 e no empate contra o Panamá. A diferença é considerável.

Tite erra ao não adotar a formação que consiga tirar o melhor de cada jogador em campo. Repito: apesar de discutir alguns nomes, o grupo é bom (explicamos isso aqui em artigo feito antes dos cortes de Daniel Alves, Vinícius Júnior e Filipe Luís) e poderia fazer boas partidas mesmo sem Neymar em campo. E se o primeiro tempo contra o Panamá foi fraco, os quarenta e cinco minutos finais mostraram um futebol muito abaixo do que a Seleção Brasileira já mostrou em outros tempos. Muito por conta de uma certa teimosia de Tite na revisão dos seus conceitos. O frame abaixo mostra Firmino, Arthur, Philippe Coutinho encaixotados na frente, laterais abertos e Paquetá (um dos que tem qualidade no jogo aéreo) quase como um volante. Desorganização total.

Tite manteve Fagner e Alex Telles bem abertos para aproveitar as jogadas de linha de fundo, mas deixou os Firmino e Arthur em setores onde não rendem o que podem render. Além disso, Paquetá jogou fora de posição todo o tempo em que esteve em campo. Foto: Reprodução / TV Globo

Embora alguns insistam nos velhos clichês da “falta de vontade” e de “amor à camisa”, este que escreve insiste na tese levantada no início deste artigo. O futebol mudou e Tite precisa acompanhar essa mudança. Richarlison, Alex Telles, Arthur (apesar de mal posicionado), Lucas Paquetá e Casemiro estiveram bem. Philippe Coutinho, Firmino (outro que jogou fora de posição) e Gabriel Jesus nem tanto. Por outro lado, é difícil falar em atuação ruim deste ou daquele quando o treinador não consegue achar a formação que deixe seus atletas confortáveis em campo. O empate contra o Panamá não é o fim do mundo. Mas liga o alerta para o jogo contra a República Tcheca e para a Copa América daqui a pouco mais de dois meses.

A partida da próxima terça-feira (26) pode trazer o alívio ou o inferno para Tite antes da competição mais importante do ano. Se quiser ter paz e ver a Seleção Brasileira jogar bem novamente, é preciso se reconectar com a realidade e rever conceitos o quanto antes.

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