PAPO TÁTICO: Vexame do Real Madrid só não foi maior do que o recital de Tadic no Santiago Bernabéu

A geração deste que escreve guarda na memória uma série de grandes atuações vistas dentro dos gramados. A noite mágica de Zidane contra o Brasil em 2006 e o absurdo que Ronaldo Fenômeno e Rivaldo jogaram contra a Alemanha em 2002 são alguns exemplos. Imagens que ficam para sempre. Quiseram os deuses do velho e rude esporte bretão que o sérvio Dusan Tadic marcasse seu nome na história do futebol com um verdadeiro recital na goleada do Ajax sobre o Real Madrid por 4 a 1 dentro do Santiago Bernabéu. Assim como Ronaldinho Gaúcho o fez em 2005, o camisa 10 do escreve de Erik ten Hag só não fez chover em terras espanholas. Não será nenhuma surpresa se estivermos falando sobre o verdadeiro recital de Tadic neste dia 5 de março de 2018.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / UEFA Champions League

Mais do que a classificação para as quartas de final da Liga dos Campeões da UEFA dentro da casa do maior vencedor da competição, a goleada aplicada nos comandados de Santiago Solari foi a vitória de um estilo de jogo. Muito difícil não recuperar as imagens de outras grandes equipes do Ajax. Os mais velhos vão se lembrar do timaço dos anos 1970 tricampeão europeu. Alguns mais novos devem mencionar o belíssimo escrete comandado por Louis Van Gaal nos anos 1990. De qualquer maneira, o gérmen está lá no 4-3-3 de Erik ten Hag e no resgate da formação histórica. E Tadic foi o maestro da noite, se movimentando muito no setor ofensivo, abrindo espaços, distribuindo passes e marcando gols. Guardadas as proporções, sendo decisivo como Johan Cruijff foi em várias e várias partidas do Ajax nos tempos áureos do clube.

O 4-3-3 de Erik ten Hag era intenso, vertical, ocupava bem os espaços e tinha uma grande mobilidade ofensiva. Apesar dos problemas defensivos, o Ajax soube como neutralizar o Real Madrid logo no começo da partida e teve em Tadic seu grande maestro. Foto: Reprodução / Facebook / Esporte Interativo.

O recital de Tadic começou com o belo passe que deixou Ziyech em condições de abrir o placar aos 6 minutos de partida. A classificação que parecia tranquila para o Real Madrid (por conta da vitória no jogo de ida por 2 a 1) começava a se complicar ainda mais quando o mesmo Tadic aplicou um drible desmoralizante em Casemiro (mal demais em todos os quesitos) e deixou o também brasileiro David Neres sozinho. O camisa 7 teve tempo para se livrar de Courtois e marcar o segundo. Isso aos 17 minutos do primeiro tempo. O Real Madrid se desmanchava na medida em que Tadic voltava para armar o jogo junto com os igualmente enormes De Jong, Van de Beek e Schöne no meio-campo e abria espaços para os velozes Ziyech e David Neres. E a lesão de Vinícius Júnior só deixou a situação ainda mais complicada para os merengues.

Tadic recebe na entrada da área (após drible desconcertante em Casemiro) e se vê diante de seis jogadores do Real Madrid antes de dar o passe para David Neres. Sempre que recebia a bola, o camisa 10 do Ajax se transformava na principal arma ofensiva do Ajax. Foto: Reprodução / Facebook / Esporte Interativo.

Faltava o gol da estrela da noite. E ele veio após jogada em que a bola supostamente teria saído na lateral na origem da jogada que resultou no golaço do camisa 10 (o sexto dele na Liga dos Campeões). Mesmo assim, é praticamente impossível não notar a organização e a intensidade do Ajax nos contra-ataques e a desorganização defensiva do Real Madrid. Enquanto Ziyech recebeu passe de Mazraoui (após o marroquino disputar bola com Reguilón), Van de Beek, David Neres, Tagliafico e Tadic já viravam o corpo para receber o lançamento em profundidade. Não era apenas um simples chute para o ataque. Era algo trabalhado e treinado a exaustão. Ao mesmo tempo, a defesa madrilenha parecia impassiva diante do camisa 10 do Ajax. Por mais que exista a dúvida sobre a saída ou não da bola pela linha lateral na origem do lance.

A filosofia tática de Erik ten Hag e o resgate do Ajax histórico puderam ser vistos no lance do golaço de Tadic. Assim que o time recupera a bola, três jogadores já se preparam para receber o lançamento. É a consolidação de um estilo de jogo e o fim de uma era. Foto: Reprodução / Facebook / Esporte Interativo

Ainda houve tempo para Asensio marcar o gol de honra do Real Madrid e para Schöne marcar o quarto gol do escrete holandês e fechar a goleada. Se Tadic era o grande maestro da noite e consolidava o estilo de jogo de Erik ten Hag, o que se via no lado derrotado era o final de uma era. O Real Madrid chegou à sua quarta derrota seguida jogando no Santiago Bernabéu (pior resultado em 15 anos) e vê boa parte do seu elenco em declínio técnico e físico. A trinca de meio-campo formada por Kroos, Casemiro e Modric já não assusta mais como assustava antigamente e o time parece carente de ídolos. Tanto que a “solução” encontrada pelo treinador merengue foi a aposta em Vinícius Júnior, jogador de enorme talento, mas que ainda peca muito pela falta de maturidade nos lances decisivos. Complicado querer vencer desse jeito.

Apesar das chances desperdiçadas na partida (duas bolas na trave), o Real Madrid viu o sérvio Tadic comandar um verdadeiro recital dentro da sua própria casa. O simbolismo dessa vitória do Ajax é enorme. Ainda mais com a história recente dos dois clubes e o fim de uma era no Santiago Bernabéu.

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