Revivendo um trauma: o título “ganho” que o Corinthians deixou escapar

A Copa do Brasil de 2001 seria do Corinthians. Eu sentia. Eu sabia. Estava muito na cara que o título seria alvinegro. O primeiro indício do bicampeonato era o adversário: novamente o Grêmio, mesmo rival que derrotamos em 1995, no primeiro título da competição. Outra razão para acreditar no troféu, e uma mais pessoal desta vez, é que a final seria na semana do meu aniversário. Eu completaria 19 anos, e a taça da Copa do Brasil seria o meu presente.

Thiago Ferreira Coelho
Colaborador do Torcedores

Crédito: Grêmio surpreendeu o Corinthians no Morumbi em 2001, e ficou com a Copa do Brasil (Foto: Arquivo/Grêmio)

Minha certeza de vitória era tão grande que eu estava disposto a perder aula para ver aquela final. Em 2001 eu era calouro do curso de Jornalismo na Universidade Federal de Viçosa, mas naqueles dias de junho eu estava na casa dos meus pais, em Governador Valadares. Já se vão quase 18 anos, e não me lembro se eu estava de férias, ou se a Universidade estava em greve. Mas as aulas voltariam na segunda-feira e a grande final era na véspera – contrariando a tradição da Copa do Brasil, geralmente decidida em quartas-feiras.

Para estar em Viçosa na segunda-feira de manhã, eu precisaria estar na estrada no domingo à tarde. Na semana do meu aniversário, eu deixaria de ver uma final em que o Corinthians certamente seria campeão? Sem chances de isso acontecer. Sob o pretexto de passar meu aniversário em casa, meus pais não viram problema se eu perdesse algumas aulas.

RAZÕES PARA O OTIMISMO

O otimismo era justificável. O Corinthians tinha acabado de ganhar mais um Paulistão, contra o Botafogo-SP, após eliminar o Santos na semifinal com aquele gol milagroso que o Ricardinho marcou nos acréscimos. Também tínhamos o Marcelinho, acostumado a levantar troféus com a camisa que ele aprendeu a amar e a chamar de segunda pele. O veterano Müller, tetracampeão mundial em 1994, reforçava nosso ataque.

E no banco de reservas nós contávamos com aquele que era o melhor treinador brasileiro da época: Vanderlei Luxemburgo, muito mais experiente e vencedor que o novato técnico do Grêmio, um sujeito ainda desconhecido de muita gente, que atendia pelo apelido de Tite. Claro, pensava eu, que o multicampeão Luxemburgo superaria o desafiante.

Eu não estava sozinho no meu entusiasmo. A crença no título era grande também entre os atletas do Corinthians, como o atacante Ewerthon confirmaria, anos mais tarde, em uma entrevista ao UOL: “Pela equipe que o Corinthians tinha, os jogadores que nós tínhamos, nós estávamos convictos de que íamos ganhar o título”.

A disputa quase foi liquidada já no jogo de ida, no Olímpico. Com gols de Marcelinho e Müller, o Corinthians abriu uma vantagem de 2×0, e dominava a partida até uns 20 minutos do segundo tempo. Muito gremista deve ter jogado a toalha ali. Muito corintiano, sendo eu um deles, deve ter pensado: “acabou, não perde mais”. Mas foi ali, por volta de uns 20 minutos do segundo tempo, que o Grêmio reagiu. Em cinco minutos, o ex-corintiano Luiz Mario marcou dois gols.

O empate em 2×2, fora de casa, ainda era um excelente resultado: no Morumbi, o Corinthians jogaria diante da torcida e bastaria um novo empate – sem gols, ou mesmo por 1×1 – pra ser bicampeão da Copa do Brasil. Venceríamos, eu sabia. Seria meu presente de aniversário. E daí que eu perderia algumas aulas? Pra ver o Corinthians ser campeão, valeria a pena.

POLÊMICAS AO LONGO DA SEMANA

O Luxemburgo possivelmente estava tão convicto quanto eu. Tanto que a equipe mal treinou na semana antes da decisão. “Na semana (do segundo jogo), ele não deu treino. Treinador tem que dar o treino, tem que passar o que nós vamos fazer em campo, a tática, o esquema que ele quer implantar pro jogo. O Luxemburgo era um treinador que falava muito do adversário, a gente entrava dentro de campo sabendo de tudo do adversário; nesse jogo, ele não falou nada” – disse o ex-zagueiro João Carlos, na mesma matéria do UOL.

O goleiro Maurício também relatou a falta de treinos para a final: “Ele não deu treino para nós. Todo final de campeonato em que a gente disputava títulos, a gente viajava para Atibaia, concentrávamos dois ou três dias antes, ou ficava uma semana na concentração para disputar o título. Naquela semana, o Vanderlei não quis nem concentrar. Nós concentramos no sábado mesmo, em São Paulo. Acho que nós perdemos ali. O comportamento do Vanderlei foi totalmente diferente aquela semana”.

A concentração na véspera da partida também foi problemática. Desconfiado de que atletas alvinegros estavam recebendo mulheres no hotel, Luxemburgo cobrou satisfações dos jogadores em uma reunião que avançou pela madrugada. O episódio azedou de vez o clima entre Luxemburgo e Marcelinho.

A DECEPÇÃO

Problemas de bastidores à parte, o grau de entusiasmo ainda era altíssimo. Tínhamos construído uma boa vantagem na partida de ida. Bastava não perder a partida em casa, diante da torcida corintiana. Não perderíamos. O Grêmio fez 1×0 no finalzinho do primeiro tempo, gol do zagueiro Marinho.

Eu ainda tinha confiança que empataríamos a partida e ficaríamos com o título, mas essa confiança foi abalada logo aos dois minutos do segundo tempo, quando Zinho fez o segundo gol do Grêmio. Eu já estava quase jogando a toalha quando Ewerthon descontou, aos 30 minutos da etapa final. Se empatássemos, o título seria decidido na disputa de pênaltis.

Bastava mais um gol naquele jogo, e ele veio. Mas veio para o Grêmio, que também tinha um Marcelinho. Aos 42 minutos, Marcelinho Paraíba deu números finais à partida e à competição. O Grêmio era tetracampeão da Copa do Brasil.

Eu ainda comemoraria meu aniversário naquela semana, no dia 21. Mas meu presente ficou para o Zinho, que completou 34 anos na final daquele dia 17 e foi eleito o melhor jogador em campo. Se para mim, que vi o jogo pela televisão, a frustração já era grande, imagina para quem disputou o jogo. “Futebol é assim: quando cai numa tarde que não é boa… Infelizmente perdemos um título aí. E eu sempre cito para todo mundo que foi o título mais fácil que eu perdi na minha carreira” – lamentou Ewerthon.

O bicampeonato da Copa do Brasil, que deveria ter acontecido ali, viria no ano seguinte. E anos mais tarde, Tite me devolveria com juros a alegria que ele me tirou em junho de 2001: pelo Corinthians, o treinador foi campeão de praticamente tudo que disputou, do Estadual ao Mundial, passando pela inédita Libertadores.

Eu ainda descobriria que o primeiro título do Corinthians na Copa do Brasil, em 1995, também em uma final contra o Grêmio, veio no dia do meu aniversário. Algo que me passou batido na época, quando eu tinha 13 anos. Por muito tempo, a lembrança futebolística relacionada ao meu aniversário foi a memória de uma derrota que não poderia ter acontecido. Mas aconteceu. E por causa disso eu deixei de achar graça em fazer aniversário.

Esse gremista já sabia o que eu era incapaz de imaginar: Grêmio campeão da Copa do Brasil de 2001 (Reprodução/YouTube)

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