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Há 15 anos, o São Gabriel fazia história diante do Palmeiras na Copa do Brasil: “O jogo da nossa vida”

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Jornalista formado na Universidade Federal de Santa Maria (2018), 22 anos, e fanático pelo futebol bem jogado para além das quatro linhas. Twitter: @luisfernanfilho/Insta: @luisfrrs

Crédito: REPRODUÇÃO/TV Record

17 de março de 2004 é uma data lembrada com carinho pelos torcedores de uma pequena cidade do interior gaúcho chamada São Gabriel. Foi nesse dia que aconteceu mais uma das epopeias do futebol brasileiro que somente a Copa do Brasil pode proporcionar. A edição do torneio guardou o capítulo mais potente na história da comunidade situada no centro-oeste do Rio Grande do Sul, a partir do triunfo gabrielense sobre o poderoso Palmeiras pelo placar de 2 a 1, pelo jogo de ida da segunda fase da competição mais democrática do país.

Uma cidade de, aproximadamente, 70 mil habitantes diante da ‘selva’ paulista de concreto e aço, com a estimativa populacional de 10 milhões de pessoas naquela época. E não há exagero algum nessa comparação. Esse sentimento norteou o confronto entre os gabrielenses e palmeirenses, na noite de quarta-feira, no Estádio Sílvio de Faria Corrêa.

A cidade pulsava diante da possibilidade em derrotar um dos gigantes do futebol brasileiro que não vivia os seus melhores momentos na história. Havia descido à segunda divisão nacional na época, mas contava no elenco com peças como o goleiro Marcos, os meias Diego Souza, Magrão e o jovem atacante Vágner Love.

No entanto, esta não será uma crônica sobre os personagens recém-citados. Muito menos acerca de uma suposta vitória palmeirense. Os ritos da Copa do Brasil, para quem os conhecem bem, baseiam-se em contos reais que extrapolam a exatidão dos números e estatísticas.

NO MEIO DO CAMINHO, O GOLEADOR DO SÃO GABRIEL 

O personagem da inabalável vitória gabrielense sobre os paulistas era o já conhecido dos torcedores- o atacante Alê Menezes. Artilheiro nos clubes em que passou no interior gaúcho, o jogador acumulava o status de ídolo da torcida local desde a primeira vez, em 2001, quando ajudou o São Gabriel a subir para a elite gaúcha sobre o seu maior rival, o Internacional de Santa Maria. De fato, só faltou avisar o Palmeiras sobre o faro de gol que o camisa nove guardava sobre as chuteiras.

Afinal, o clube gaúcho havia derrotado na primeira fase do torneio o Figueirense, em Santa Catarina, e demonstrava até então o poderio necessário para alçar voos mais altos. Para isso, a cidade gaúcha fez dos seus domínios o verdadeiro ‘inferno’ nos dias que antecederam a partida.

Alê Menezes comemorando o gol diante do Palmeiras. REPRODUÇÃO

 

“O clima na cidade era um dos melhores possíveis. Depois que eliminamos o Figueirense no Orlando Scarpeli, a cidade e a imprensa gaúcha começaram a comentar bastante. A semana que antecedeu o jogo foi algo que eu nunca tinha vivenciado na minha carreira”, destacou o atacante.

De acordo com o Alê, “na cidade não se falava outra coisa: o São Gabriel iria enfrentar o todo poderoso Palmeiras”, sentimento impulsionado principalmente pela massa dos torcedores fiéis ao time. Em síntese, toda a comunidade parecia estar dentro do estádio quando a bola rolou para o enfrentamento entre as duas equipes, mesmo que os dados oficiais marcassem pouco mais de sete mil torcedores no território acanhado dos gabrielenses. As bandeiras e os sinalizadores da torcida mandante ilustravam o cenário perfeito de um triunfo de David sobre o Golias.

Entre todos aqueles que acreditavam na vitória do São Gabriel sobre os palmeirenses, certamente o técnico Jorge Anadon, do time gabrielense, apostava as fichas mais altas na equipe. Tanto que, segundo Alê, descartou qualquer marcação especial em cima dos famosos adversários. “O Anadon foi um cara fantástico, porque ele não dava moral para os nossos adversários. Mesmo ele sabendo que o time que tinha em mãos era inferior para jogar contra o Figueirense e o Palmeiras, ele nos dava muita moral”, lembrou o atacante titular daquela equipe.

Além de tudo, o atleta elogiou a capacidade do treinador de encorajar a equipe diante da situação inédita: “No dia do jogo, ele não nos deu nenhuma instrução especial e muito menos teve marcação especial em nenhum jogador.o, afirmou.

INTENSIDADE E GARRA NO CAMPO DE BATALHA

O juíz apitou e, logo aos três minutos da partida, o protagonista da batalha deu as cartas. Alê Menezes, em bola cruzada, abriu o placar diante dos palmeirenses num cenário insano dentro do Silvio de Faria. Com o oportunismo que era a sua principal característica, ampliou o marcador ainda no primeiro tempo e estabelecia sob os olhos do país inteiro uma das maiores ‘zebras’ da competição. Menos para os que presenciaram fisicamente àqueles dois tentos inéditos do clube gaúcho em cima do Palmeiras.

A partida já alcançava os 44 minutos da segunda etapa, quando o Palmeiras descontou com o gol contra do zagueiro Darzoni, após uma partida repleta de cartões amarelos e expulsão por parte dos mandantes na tentativa de assegurar o placar. Ainda assim, a torcida da casa sofreu até o último lance do jogo em meio ao pênalti cobrado por Magrão, aos 52 minutos, e defendido pelo goleiro Altieri. A defesa garantiu o triunfo dos gaúchos diante do Palmeiras na batalha épica registrada nos pampas.

Era uma batalha que se findava depois dos longos dias de expectativa na cidade. As vozes e as cores esfumaçadas sobrevoavam a linda noite de quarta-feira minutos após a partida, em São Gabriel, pouco importando qual seria o placar no jogo de volta da segunda fase em solo paulista.

Para Alê Menezes, o protagonista imortal daquela partida, ficou na memória a atuação de gala que se repetiria outras vezes nos gramados gaúchos, mas que, excepcionalmente naquele dia, jamais sairia da memória dos torcedores gabrielenses.

LANCES DE SÃO GABRIEL 2 X 1 PALMEIRAS (COPA DO BRASIL-2004)

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