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Times nordestinos na Copa do Brasil, a história contada a partir dos dialetos regionais

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Colaborador do Torcedores

Foto: Ceará na Copa do Brasil de 1994.

Crédito: Foto: Chico Guedes/A Gazeta

A Copa do Brasil é a competição mais amostrada do país. Um amuntuado de equipes. São mais de oitenta, parece um amancebo. Criada para permitir que clubes que se parecem miudim enfrentem os parrudos. O objetivo é colocar o caneco em riba e ficar estribado.  Isso é o que faz o campeonato ser um dos mais arroxados.

O Nordeste pode não ter muitas conquistas neste torneio, mas já aprontou cada arapuca para times esticados… Todos os estados da região tiveram representantes na Copa do Brasil ao longo dos 30 anos do evento esportivo. Ao todo, foram 84 clubes do Nordeste que já participaram do campeonato. Quase metade, 41, conseguiu avançar no mata-mata. Doze chegaram as quartas de final, quatro à semifinal, três à final e um arribou a taça.

A Copa do Brasil tem quase trinta anos e desde o início os cabras da peste mostraram a que vieram. Na primeira edição, em 1989, o Sport chegou a final, perdeu para o Grêmio, mas mostrou que os times nordestinos iam deixar muitos clubes aperreados.

Os da terra de Jorge Amado, por exemplo, já prepararam uns barris dobrados para alguns clubes. Esse foi o caso do gaiato Botafogo, que em 2012, perdeu para o Vitória. O Leão ficou no 1×1 em casa e saiu atrás no segundo jogo. Parecia de rosca, mas superou o Alvinegro Carioca no Engenhão, por 2×1.

Um ano antes, o Fogão perdeu o jogo de ida por 1×0 para River Plate, de Carmópolis-SE.  Em 2016, ainda pela primeira fase, outro time da terra do cantor Balthazar, o Confiança, meio encabulado com um a menos, deu um arrodeio no Flamengo, de Muricy Ramalho, e venceu por 1×0.

Sem mencionar os times da terra de Djavan, que ficam com a gota serena quando disputam a Copa do Brasil. O CSA, em 1992, peitou com o Vasco na competição. No jogo de ida, empate em 3×3; na volta, o time alagoano venceu por 1×0, em São Januário e deixou Edmundo e Roberto Dinamite brocos.  Anos depois, em 2009, o CSA levou peixe assado para comer nas praias de Maceió, arribô Neymar e patotinha, em plena Vila Belmiro, às vésperas da decisão do Campeonato Paulista.

Já o Palmeiras, treinado por Vanderlei Luxemburgo, se lenhou em 2002 para o ASA de Arapiraca, cidade conhecida como a “terra do fumo”. O clube arapiraquense venceu o jogo de ida por 1×0 e perdeu o de volta no Parque Antártica por 2×1. Como naquela época gol fora de casa contava como critério de desempate, foi o ASA quem avançou na competição.

O único nordestino que conseguiu a façanha de ser campeão da Copa do Brasil foi o Sport de Recife, em 2008, depois de uma paleta. E foi uma conquista arretada, 2×0 no meio dos espinhaços do Corinthians, que na época jogava a série B. O time da terra de Lenine tinha perdido o jogo de ida no Morumbi por 3×1. Mas o Timão, avexado, no segundo duelo, tomou dois gols, aos 34 e 36 do primeiro tempo. Ou seja, no intervalo de dois minutos, Carlinhos Bala e Luciano Henrique garantiram o primeiro título fora do eixo Sul-Sudeste. E aí foi aquela zuada na terra do bolo de rolo.

Os times de Pernambuco, conterrâneos de Luiz Gonzaga, já aprontaram muita presepada pra riba desses times cheios de pantim. Em 2003, o Sport mandou para baixa da égua o Atlético-MG e o Fluminense. Já o Santa Cruz, mandou o Cruzeiro em 1997 e o Botafogo em 2010 para a caixa prego.

Assim também fez o Treze, da Paraíba, terra de Zé Ramalho e Geraldo Vandré, quando em 2005 chegou as quartas de final e só foi eliminado pelo Fluminense. Abilolado com a situação, o time carioca só conseguiu vencer nos pênaltis.

Os clubes do Rio Grande do Norte também não ficam atrás, os cariocas que o digam. Alguns torcedores do Vasco até hoje não pronunciam as primeiras letras do alfabeto. Em 2014, o time carioca abriu o gás quando perdeu para o ABC de Natal.

Já os torcedores do Fluminense têm um siricutico com os times da terra de Giliard. Em 2014, o América-RN deixou os jogadores do clube carioca todos lesados com o placar afolozado que construíram: 5×2. O Fluminense havia ganhado o jogo de ida na casa do adversário por 3×0 e ficou todo emperiquetado no jogo de volta. Oxe, no fim os jogadores estavam tudo ariado com a penca de gols que tomaram.

Foram muitos outros jogos épicos de times nordestinos na Copa do Brasil, como o do Vasco de Romário que caiu em São Januário no ano de 2005 para o Baraúnas-RN, que contava com o atacante Cícero Ramalho que tava com a bixiga lixa naquele dia e fez o cruz-maltino pegar o beco.

Não foram poucas as equipes que caparam o gato da Copa do Brasil por causa de clubes da região Nordeste. O Internacional, por exemplo, quando espia que em seu trajeto está um time cearence fica broco. Foram três eliminações para times da terra de Chico Anísio. Em 1994 e 2014 para o Ceará e em 2001 para o Fortaleza. Mas, não é só o Internacional que se pela de medo quando ouve a expressão “Ei, Macho!”. Flamengo, Palmeiras, Fluminense e Atlético-MG também já caíram nas arapucas dos times da terra de Raimundo Fagner.

Inclusive, no ano de 1994, o Ceará chegou à decisão da Copa do Brasil contra o Grêmio, de Felipão. Na casa do Vozão, o placar ficou em 0x0. No jogo de volta, no Olímpico, o time gaúcho fez 1×0 no primeiro tempo. Até os dias atuais os torcedores do Ceará ficam arretados e fazem arenga por conta do pênalti sofrido por Sérgio Alves e não marcado pelo árbitro Roberto Godói.

Alguns times não avançaram muito na competição, mas fizeram disputas históricas, como os conterrâneos de Alcione e Zeca Baleiro. O Sampaio Corrêa, de São Luiz do Maranhão, em 1989, venceu o jogo de ida contra o Corinthians que ficou abestalhado com a derrota por 3×2.

Os times nordestinos ficam com a mulesta quando pegam esses times tabacudos. O galo de Minas é um exemplo. O Atlético- MG fica todo malamaido. Além de já ter se lascado quando topou com o Ceará em 2005, lascou-se também quando encontrou o Bahia em 1999 e o Sport em 2003. Talvez sejam os times nordestinos vingando-se da maior goleada construída na Copa do Brasil, quando em 1991 o Atlético-MG buliu com o Caiçara e deixou o time do Piauí ariado com o placar de 11×0.

Oxente! A Copa do Brasil não seria a mesma sem a participação desses cabras da peste, que, com a garra e a confiança, características desse povo, enfrentam Golias com a coragem de Lampião e a fé de Padre Cícero. Muitas vezes esses Davis vencem essas batalhas e, mesmo quando são derrotados, nada consegue apagar a marcante trajetória dos nordestinos na Copa do Brasil.

Dicionário nordestino:

Abestalhado – bobo

Abilolado – sem juízo

Abrir o gás – ir embora

Afolozado – largo, folgado

Amancebo – coisa ou pessoas que ficam muito próximas fisicamente

Amostrada – gente ou coisa que de chamar a atenção

Amuntuado – aglomerado

Aperreados – preocupados

Arapuca – armadilha

Arenga – briga

Arretado – bravo, com raiva

Ariado – perdido, confuso

Arribou – levantou

Arribô – tirar

Arrodeio – dá a volta em alguém ou em algum lugar

Arroxados – melhor, valente

Avexado – apressado

Baixa da égua – ir para longe

Barril dobrado – muito legal; ou, a depender do contexto, problema em dobro

Bixiga Lixa – estava inspirado

Broco – bobo, atordoado

Bulir – mexer

Caixa Prego – lugar distante

Caneco – copo, taça, ou equivalente

Capar o gato – ir embora

Ei, Macho – expressão usada frequentemente em Fortaleza- CE

Emperiquetado- arrumado

Encabulado – tímido

Espia – olhar

Esticados – pessoas que se acham melhores que outras

Estribado – Rico

Gaiato – brincalhão, engraçado

Gota serena – pessoa com raiva

Lascado – se deu mal

Lesado- confuso

Malamaido – sem jeito

Meio dos espinhaços – onde causa mais dor

Miudim – pequeno

Mulesta – inspiração, determinação

Oxe – expressão usada para indicar espanto

Oxente – estranheza ou espanto

Paleta – longa caminhada

Pantim – manias, frescuras

Parrudo – grande

Peitar- esbarrar

Pegar o beco – ir embora

Pelar de medo – ter muito medo

Presepada – palhaçada

Riba – em cima

Rosca – situação vagarosa

Se Lenhar – Se dar mal.

Siricutico – passar mal

Tabacudos – pessoas que se acham melhores do que outras

Zuada – barulho