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Torcedores relembram o dia que o Fortaleza eliminou o Flamengo e a torcida do Leão tirou onda em Volta Redonda

Com grandes atuações de Pio, Felipe, Everton e Anselmo, o Fortaleza foi melhor nas duas partidas contra o Flamengo e eliminou, sem passar grandes sustos, a equipe carioca da segunda fase da Copa do Brasil, na edição 2016.

Daniel Helvécio
Jornalista com passagens pela Rede Minas, canal GNT e agências de comunição. Apaixonado por futebol, cultura e música, já entrevistou diversos artistas da música brasileira, como Wando, Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. Acredita que o jogo entre quatro linhas é a principal expressão cultural do homem contemporâneo.

Crédito: divulgação Fortaleza FC.

A temporada daquele ano era promissora para os torcedores cariocas. O Flamengo, que vinha desde 2013 realizando uma reformulação administrativa comandada pelo antigo presidente Eduardo Bandeira de Mello para organizar as contas, pagar dívidas e posteriormente aumentar a possibilidade de investimento do clube, tinha como objetivo começar a gastar mais com o time de futebol.

No segundo semestre de 2015 o time do Rio de Janeiro anunciou o atacante peruano Paolo Guerrero, o que, na época, foi considerado um alto investimento pela opinião pública. Já no ano seguinte, com o intuito de qualificar ainda mais o elenco, a diretoria do Flamengo contava com um dos maiores orçamentos anuais do futebol brasileiro (cerca de R$ 419 milhões) e por isso conseguiu contratar nomes disputados no mercado, como o técnico multicampeão Muricy Ramalho, os volantes Cuéllar e Willian Arão, além do meia argentino Mancuello.

O Fortaleza, por sua vez, vinha de uma administração ambiciosa que buscava galgar espaços nas principais competições brasileiras. Tanto que, no segundo semestre daquele ano, a equipe nordestina fez uma boa campanha na Série C e por pouco não subiu de divisão. Foi eliminada pelo Juventude, nas quartas de final. Além do mais, o Fortaleza, em 2016, tinha bons atletas para o contexto de disputas do campeonato estadual, da Copa do Nordeste e da Série C, já que contava com jogadores como o goleiro Ricardo Berna, o lateral direito Felipe, o zagueiro Lima (com passagens pelo Atlético Mineiro e Bétis), os volantes Pio, Dudu Cearense (ex-seleção brasileira sub-23 e futebol russo) e Corrêa (ex-Palmeiras, Atlético e Flamengo), o meia Jean Mota (atualmente no Santos) e o atacante Anselmo.

Primeira partida

O jogo que iniciou o confronto da segunda fase da Copa do Brasil ocorreu na data 4/05/2016. Na oportunidade, o Castelão, estádio do Fortaleza e palco da Copa do Mundo 2014, recebeu um bom público: 36.213 pagantes.

Desde o início da partida, a torcida do Leão fazia uma linda festa e ajudava o time a pressionar o Flamengo. Após algumas jogadas criadas por ambos os times, aos 20 minutos da etapa inicial, o meia Everton, que estava no lado esquerdo, enfiou uma bola milimétrica para o atacante Anselmo dar um toquinho na saída do goleiro Paulo Victor e abrir o placar. Com o gol, a equipe do Fortaleza cada vez mais trocava passes e imprimia velocidade no jogo. Já o Flamengo, com a desvantagem, buscava ser mais incisivo no ataque. Até que, aos 20 minutos do segundo tempo, brilhou a estrela do ídolo da seleção peruana Paolo Guerrero e o empate saiu com um belo gol dentro da grande área, depois do atacante matar a bola no peito e chutar no cantinho.

A euforia da torcida flamenguista, contudo, não durou muito tempo. Sete minutos após o empate, o lateral direito Felipe fez uma grande jogada, de velocidade e habilidade. Ao cortar para o meio, ele passou por cinco jogadores de defesa do Flamengo até soltar uma pancada de esquerda na entrada da área, sem chance alguma para o goleiro rubro negro. Um golaço!

O resultado de 2 x 1 para o Fortaleza prevaleceu até o final. A equipe do Leão marcou bem, fechou os espaços e conseguiu segurar o ímpeto da equipe carioca. Uma vitória que deixou a torcida da equipe nordestina extremamente eufórica e confiante para a segunda partida do confronto, que iria acontecer 14 dias depois do primeiro jogo.

Jogo de volta

“Na época, a gente estava empolgado porque o Flamengo não estava bem, ao contrário do Fortaleza. Só que o nosso time estava na Série C. Tecnicamente, a camisa do time carioca poderia pesar, mas aconteceu o que a gente desejava na primeira partida: o Fortaleza jogando bem e conseguindo um bom resultado”, lembrou Sergionah Chagas, torcedor fanático do Leão, que nasceu no estado do Ceará. Atualmente, ele trabalha como analista de controle externo e há dez anos mora no Rio de Janeiro.

E foi nesse clima de muita confiança que a torcida do Fortaleza foi para a segunda partida do confronto, ocorrida no dia 18/05/2016, no estádio Raulino de Oliveira, na cidade de Volta Redonda. O palco do jogo não foi o Maracanã porque o estádio estava sendo preparado para receber os Jogos Olímpicos, no segundo semestre daquele ano.

José Carlos Girão, conhecido como Zezão, é conselheiro do clube nordestino. Morador da capital cearense e torcedor fanático do Fortaleza, ele também marcou presença em Volta Redonda . Comerciante do ramo imobiliário, Zezão tem o hábito de viajar para acompanhar seu o time do coração e por isso aproveitou a oportunidade para ir de avião com a esposa e a “corriola” (grupo de amigos), entre eles o seu irmão, assistir in loco a partida do Fortaleza contra Flamengo e passear pela cidade do Rio de Janeiro. “Durante três dias depois do jogo, eu fiquei andando pela orla do Rio vestido com a camisa do Fortaleza, e torcedores do Vasco, Fluminense e Botafogo parabenizando o nosso time”, contou Zezão.

Tarcísio Jr, José Carlos Girão, Lima e Zé Carlos Girão Filho.

Crédito: arquivo pessoal. Imagem: Tarcísio Jr, José Carlos Girão, Lima e Zé Carlos Girão Filho.

Zezão é amigo do então presidente do Fortaleza, Jorge Mota. Tanto que foi como convidado para assistir a partida no camarote da diretoria. “O clima estava legal e o tempo era bom para tomar um whisky”, comentou rindo.

Apesar da empolgação da primeira vitória, ao mesmo tempo, havia uma apreensão de como seria o jogo final do confronto.  Logo no início da partida, contudo, os torcedores do Leão ficaram mais confiantes do que quando chegaram ao estádio. Aos três minutos, após uma boa jogada pela esquerda, a bola foi cruzada e o volante Pio entrou pela direita para abrir o placar. Com isso, a pressão contra o Flamengo, que já era grande, aumentou, pois o time carioca precisaria marcar, no mínimo, dois gols para levar a decisão para os pênaltis.

O time do Fortaleza, que estava numa situação confortável, foi controlando o jogo e fazendo o tempo passar. Já o Flamengo não conseguia levar perigo, o que gerava impaciência na sua torcida.

Até que, aos 20 minutos do segundo tempo, mais uma vez com Pio, o nome da partida, o Leão sacramentou a classificação. Mais do que isso: naquele momento se desenhava um dos maiores – talvez o maior – feito do Fortaleza em toda sua história na Copa do Brasil.

Gol e a comemoração no camarote

Quase sempre, o momento de maior êxtase de uma partida de futebol é o gol. Só que a voz potente de Zezão e o jeito alegre dele, no momento do segundo gol, irritou a torcida flamenguista que estava perto do camarote do Fortaleza. “Na hora do nosso segundo gol, eu comemorei e gritava que ninguém segura esse Leão. A torcida do Flamengo ficou nervosa comigo. O pessoal ficou olhando pra trás, onde a gente estava. Ficaram me provocando. Gritando contra o Fortaleza. Mandando calar a boca. Levamos tudo na esculhambação. Mas depois ficou tudo bem”, relembra Zezão. Que completou: “Foi só uma brincadeira que acabou tudo bem”.

Arquibancada e a mídia do eixo

Sergionah, por sua vez, foi de arquibancada. Chegou a Volta Redonda junto com uma turma de 15 torcedores ávidos por assistirem o time do coração, sem a garantia de que conseguiria os ingressos. A maioria dos integrantes da torcida morava no Rio de Janeiro por motivos de trabalho e assistir o Flamengo no estado do Rio de Janeiro era quase uma chance única.

Sergionah e a turma

Crédito: arquivo pessoal. Sergionah e sua turma.

Teve uma questão colacada por Sergionah que talvez tenha sido um combustível a mais para que ele fosse ao jogo, além, é claro, do amor incondicional pelo Leão.  “No dia seguinte após a primeira partida, no Castelão, eu fiz questão de ir até às bancas de revistas para comprar os jornais que falavam sobre o jogo. Poucas notas falavam do Fortaleza. Era muito pouco. A maioria das notícias afirmava que o Flamengo perdeu para o Fortaleza. Ninguém focava no Fortaleza”, questionou Sergionah. “Estou há dez anos no Rio de Janeiro e percebo que a mídia daqui não dá tanto valor aos times do Nordeste, independentemente do clube. E nós estamos falando de uma região de torcedores apaixonados que, com todas as dificuldades, sempre lotam os estádios”, reclamou o torcedor.

 Tiração de onda com o 47 e o bate-papo com o cão amigo

Após o segundo gol do Fortaleza, que consolidava a classificação do time nordestino, as brincadeiras começaram. É claro que os torcedores do Fortaleza não iam perder a oportunidade.

“Lá, na arquibancada do estádio, apareceu um cachorro. Gustavo, meu grande amigo e parceiro de torcida do Fortaleza aqui no Rio, começou a brincar com o bicho e até tirou uma foto. Ele falou que o jogo estava tão tranquilo que ia deixar de assistir o jogo para ficar conversando com o cão. Foi uma grande zoação e até hoje a gente comenta essa história”, relembrou Sergionah.

Gustavo com o seu amigo de arquibancada

Crédito: arquivo pessoal. Imagem: Gustavo com o seu amigo de arquibancada.

“E teve outra brincadeira com o nosso maior rival: o Ceará. O vendedor que atendia a gente usava um colete com o número 47. Aí, a gente lembrou o gol emblemático do Cassiano, nosso ex-atacante, marcado aos 47 minutos do segundo tempo, na final do campeonato cearense, de 2015, contra o Ceará, que nos deu o título. A gente sempre brinca com o 47”, contou Sergionah.

O 47 da arquibancada

Crédito: arquivo pessoal. Imagem: o 47 da arquibancada.

Sentimento que une

No final do jogo, o Flamengo diminuiu o placar com o meia Alan Patrick em cobrança de falta, mas não havia mais tempo para a reação. O jogo terminou com a vitória do Fortaleza por 2 x 1. Torcedores do Leão foram embora em festa com a classificação contundente. Sergionah, após cerca de três horas de viagem, chegou em casa às 4h30, no Rio de Janeiro, e às 5h30 teve que sair para ir trabalho. “Foi um esforço que valeu muito a pena. Até hoje temos histórias para contar”, afirmou o torcedor. Já Zezão voltou ao Rio de Janeiro para ficar passeando com a esposa. E, independentemente das realidades, de assistir a partida na arquibancada ou no camarote, o que se percebeu entre os torcedores do Fortaleza foi o sentimento de orgulho pela classificação e a lembrança de uma noite divertida e inesquecível. Coisas do futebol.