Três anos após implementação, torcida única em SP causa pouco efeito nos estádios

A determinação da torcida única irá completar três anos em vigor no próximo mês. Desde abril de 2016, os clássicos da cidade de São Paulo estão sendo realizados com uma torcida, somente o mandante do jogo pode contar com o apoio dos seus torcedores nas arquibancadas.

Lucas Mendes
Colaborador do Torcedores

Crédito: Anatorg

A torcida única foi adotada pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) em conjunto com a Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP), Federação Paulista de Futebol (FPF) e Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), depois que o torcedor José Sinval Batista, 53 anos, morreu vítima de bala perdida em um confronto entre torcedores da principal organizada do Corinthians e Palmeiras no dia 3 de abril em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.

Em 2017, a Rede Minha Sampa lançou uma petição online contra o veto. O abaixo-assinado virtual diz que a decisão “ofende os princípios do esporte, prejudica os torcedores pacíficos e não resolve a questão”.

A medida não agradou os jogadores, é o que revela uma pesquisa promovida pelo UOL em 2018 com 106 atletas de clubes que disputaram a série A. De acordo com o levantamento, 79,3% são contra a torcida única, 16% apoiam e 4,7% se abstiveram.

Dados do 2° Batalhão de Choque da PM

Segundo os relatórios operacionais do 2° Batalhão de Choque da Polícia Militar, responsável pela segurança de grandes eventos, inclusive de partidas, nos 44 clássicos antes da medida, entre os dias 22/04/2015 a 03/04/16, tiveram 16 confrontos entre torcidas.

Após a implementação da torcida única, no 1° período, 04/04/16 a 30/04/2017, o número de conflitos caiu para 8, uma redução de 50%. No 2° período, a partir de 24/04/2016 a 08/04/2018, os enfrentamentos caíram para 5, uma queda de 68,25% comparado ao período com duas torcidas.

De acordo com a corporação, o número de espectadores também aumentou de 1.073.838 saltou para 1.425.779, resultando em um crescimento de 33%. O efetivo policial interno diminuiu em 34%, enquanto o efetivo policial externo caiu 23%. Antes havia 14.178 policiais, após a proibição o número baixou para 10.042.

As escoltas de caravana de torcedores tiveram um abate de 57%. Antes da medida foram realizados 157 acompanhamentos, depois da implementação foram feitos 68.

“É um grande atestado da incompetência”

O vice-presidente do IBDD (Instituto Brasileiro de Direito Desportivo), Gustavo Lopes Pires de Souza, 38 anos, fez um mestrado sobre as causas, consequências e soluções da violência nos estádios de futebol que foi apresentado em 2012 na Universidade de Lerida, na Espanha. A torcida única “é um grande atestado da incompetência do poder público e dos organizadores de eventos esportivos no que diz respeito ao combate à violência. O estado não consegue se organizar para combater a violência”, afirmou.

Para o vice-presidente, a bebida alcoólica foi utilizada para justificar a violência nos estádios, a partir disso a torcida única foi implementada por meio de uma interpretação equivocada do MP-SP no Estatuto do Torcedor, Art. 13-A, no parágrafo II: “não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência”.

“Não existe uma lei que proíba o acesso a um espetáculo público, cujo requisito é simplesmente comprar o ingresso, logo a proibição de ambas as torcidas no estádio não encontra qualquer guarita ou fundamento legal seja constitucional ou no Estatuto do Torcedor”.

Com base na pesquisa de mestrado, o advogado afirmou que a torcida única não afasta a violência e trata-se de um fenômeno que envolve diversos fatores: “emoção do esporte, frustrações cotidianas, diferenças sociais, falta de educação adequada dos torcedores, ausência de medidas educativas, punitivas e coercitivas”.

Segundo Lopes, o ambiente influencia o comportamento do torcedor, inclusive relacionou a teoria das janelas quebradas no combate à violência nos estádios. A teoria foi feita por psicólogos que deixaram dois carros idênticos abandonados em dois bairros distintos de Nova York. O automóvel que ficou em um bairro periférico foi danificado rapidamente, enquanto o que estava no bairro nobre não foi deteriorado, só foi destruído depois que os pesquisadores quebraram as janelas do veículo.

“Quando o cidadão vê um automóvel com janela quebrada, um local degradado, depreciado, ele sente a ausência de estado e de vigilância, isso fomenta a violência. Quando você está em um lugar limpo, cheiroso, entende-se que aquele lugar é bem cuidado e ele está menos tendente a cometer violência”.

Para ele, existem três formas de combater a violência nos estádios de futebol para substituir a torcida única, entre elas: melhorar a qualidade dos estádios, medidas efetivas e campanhas educativas. “Eu defendo que deveria ser aplicado uma vez por mês nas escolas, o dia das torcidas, para que as crianças possam ir com as camisas dos seus times e que os professores possam mostrar que independentemente da paixão pelo clube, eles são iguais, eles são amigos”.

“Foi uma ação eleitoreira”

O presidente da Anatorg (Associação das Torcidas Organizadas), Alex Sandro Gomes, 41 anos, disse que a medida foi sancionada para promoção de cargos porque foi implementada em um ano de eleições no Brasil. “Essa medida foi tomada há três anos, se fizermos o cálculo foi um ano eleitoral. As pessoas que participaram desta ação descabida contra o futebol, torcedor comum e organizado, estão no Supremo, foram promovidos em seus cargos. Foi uma ação totalmente eleitoreira, foi uma ação para se auto promover”.

O presidente relembrou um caso em que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Alexandre de Moraes, na época, secretário da SSP-SP, foi até a sede da principal torcida organizada do Corinthians para acompanhar uma operação da Polícia Civil para cumprir mandados e ordenou que a quadra fosse fechada por um muro na entrada principal, após encontrar facas, canivetes e cerca de 63 mil reais sem comprovação de origem ou destino.

“Você já viu um secretário de segurança pública perder o tempo dele para ir na sede de uma torcida organizada? Neste caso, eles foram nos Gaviões da Fiel com todo aparato de imprensa, com o promotor, fechando a sede de uma instituição e colocando todos os associados num balaio só como criminoso, bandido. Ou seja, foi uma ação totalmente eleitoreira, logo após, ele virou ministro da Justiça, posteriormente, foi alçado ao Supremo”, reforçou.

Hoje, a Anatorg é composta por 247 torcidas organizadas, que estão presentes em 21 estados brasileiros. Questionado sobre o que está sendo feito para a medida ser abolida, Gomes informou que a associação “tem provocado uma série de debates em várias assembleias legislativas do país. Agora com a nova legislatura que toma posse no dia 15 deste mês na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), estamos fazendo uma documentação para que haja uma audiência pública para debater um projeto contra essa medida absurda em que o torcedor organizado ou comum não pode prestigiar o time de coração diante de um clássico sobre o discurso de que jogos com torcidas mistas provocam violência”, concluiu.

“É uma medida cosmética, ineficiente e de palanque”

O professor do departamento de história da USP (Universidade de São Paulo), Flávio de Campos, 56 anos, que coordena o laboratório do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) da USP, criticou a medida como “cosmética”, “ineficiente” e de “palanque”, além de explicar que as brigas entre as torcidas organizadas costumam ocorrer fora dos estádios.

“É uma medida cosmética e ineficiente. Ela não resolve o problema da violência e de eventuais confrontos entre torcidas. Só desloca. Quando implementamos a torcida única, os enfrentamentos vão acontecer de uma forma dispersa e fragmentada em diversas regiões de São Paulo no dia da partida ou no dia anterior. Aí você não tem nem condições de controlar. É uma medida de palanque. Aparentemente está se fazendo alguma coisa, se dá alguma satisfação, na verdade, não está se fazendo nada no sentido de realmente coibir a violência e o confronto entre torcedores”.

Segundo o docente, as torcidas organizadas estão disponíveis para se comprometer em “participar de um processo de encaminhamento e organização das partidas de futebol em São Paulo”. Em caso de “eventuais deslizes e descumprimentos, aí sim pode haver algum tipo de punição às torcidas organizadas como o impedimento de eles entrarem nos estádios com seus estandartes, suas camisas, suas faixas etc”.

De acordo com o coordenador, a saída para voltar a ter duas torcidas nos estádios depende do diálogo, respeito e comprometimento das organizadas. “Eu acredito profundamente no diálogo, o respeito às torcidas organizadas e tenho certeza que há uma disposição positiva delas em São Paulo em participar desse tipo de conversa e comprometimento para voltar a ter a festa nas arquibancadas”, finalizou.

MP-SP e clubes

Até o fechamento desta matéria, não tivemos o retorno do Ministério Público de São Paulo, assim como do Corinthians, Santos e São Paulo. Em nota, o Palmeiras informou que “é um clube legalista e cumpre as determinações impostas pela Lei. A entidade não tem partido da decisão e o assunto pertence exclusivamente ao Ministério Público”.

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