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Relembre o Clube 15 de Novembro de Mano Menezes, ‘quase finalista’ da Copa do Brasil

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Jornalista formado na Universidade Federal de Santa Maria (2018), 22 anos, e fanático pelo futebol bem jogado para além das quatro linhas. Twitter: @luisfernanfilho/Insta: @luisfrrs

Crédito: Reprodução/Youtube

Grêmio, Internacional e Juventude são os clubes gaúchos que, na história da Copa do Brasil, puderam conquistar o tão sonhado troféu que já perdura a mais três décadas no país. No entanto, a edição de 2004 reservou uma das histórias mais empolgantes do torneio: o Clube 15 de Novembro- ou também de Campo Bom. Liderado na época pelo técnico novato Mano Menezes, o time destacou-se como semifinalista da competição.

A equipe proveniente do Vale dos Sinos- situada na região metropolitana de Porto Alegre- ainda engatinhava no cenário da elite do futebol gaúcho nos primeiros anos deste século. Antes disso, o clube costumava participar dos campeonatos estaduais amadores do estado, por onde havia conquistado inúmeros títulos- 16 no total. Porém, entre os anos de 2002 e 2004, o 15 de Novembro presenteou a torcida e surpreendeu a todos com dois vice-campeonatos seguidos do Campeonato Gaúcho. Ambos para o Internacional.

A ótima campanha em 2003, contudo, possibilitou ao clube uma vaga histórica na Copa do Brasil do ano seguinte. A temporada de 2004 era vista como próspera, pois, a equipe e cidade levavam no peito o orgulho de ser de Campo Bom, cidade essa que até então não figurava entre as principais do futebol gaúcho. O clube fundado por operários de uma indústria de calçados da cidade, em 1911, ainda como Sport Club 15 de Novembro, começava a ganhar força com o investimento dos patrocinadores da região e o crescente número de torcedores.

Prazer, somos o Clube 15 de Novembro

Enfim, o clube de Campo Bom participava pela primeira vez de uma edição da Copa do Brasil. Jogar este tipo de torneio para uma equipe do interior gaúcho não deixava de ser histórico. Afinal, boa parte deles convive com seis meses de calendário oficial, sem muitas perspectivas de atuar no segundo semestre da temporada.

Logo na estreia da competição, o Estádio Sady Schmidt pintou-se com as cores do “15”, no empate diante da tradicional Portuguesa Santista, por 1 a 1. O atacante Dauri, que seria o destaque na campanha, estufou as redes do adversário. Em situação desfavorável na partida de volta, o clube arrancou um empate de 2 a 2 fora de casa e avançou.

A segunda fase da competição marcaria para sempre a vitória mais emblemática da equipe em competições nacionais. O adversário seria o Vasco da Gama, campeão nacional e internacional. Após mais um empate no jogo de ida em Campo Bom, por 1 a 1, o 15 decidiu a classificação no temido São Januário.

Os cruzmaltinos comandados na época pelo técnico Geninho, além do goleiro Fábio-atualmente no Cruzeiro- e Valdir Bigode, sucumbiram ao rival de menor expressão. Com uma partida memorável de Dauri, autor de dois dos três gols no jogo, e bela atuação de Perdigão- aquele que viria a jogar no Vasco e Internacional-, o 3 a 0 tornou-se realidade naquela noite de sete de Abril.

Para o torcedor e ex-assessor do 15, o jornalista Cassios Schaab, aquela classificação diante dos cariocas é inesquecível. “As lembranças da Copa do Brasil são as maiores que eu tenho. Na época, eu e um amigo olhamos juntos o jogo contra o Vasco e nós chorávamos abraçados no momento dos gols”, lembra. A vitória fora de casa fez com que toda a cidade, no dia seguinte, fosse receber os jogadores e comissão técnica que voltavam do Rio de Janeiro.

As fases seguintes, especialmente a terceira e quarta da Copa do Brasil, tiveram um nível de dificuldade pouco menor, relativamente, com o time de Campo Bom vencendo as duas partidas- ida e volta- diante do Americano (RJ) e o Palmas (TO). Após vencer quatro equipes no caminho, duas delas muito tradicionais na elite do futebol brasileiro, o 15 mostrou a todo o Brasil que não era uma simples ‘zebra’.

15 de Novembro: o ‘quase finalista’

A semifinal destinava ao time gaúcho mais um encontro difícil: o Santo André (SP). A equipe do ABC Paulista, até então, também era encarada como grata surpresa na Copa do Brasil. Antes do penúltimo passo para a tão sonhada final, o Ramalhão havia eliminado grandes clubes do país como Atlético-MG, Guarani-SP e o multicampeão Palmeiras.

Dentro de campo, o jogo de ida estava marcado para o Estádio Pacaembu, solo rival. E numa noite fria, o 15 saiu perdendo com o gol de pênalti de Barbiéri ainda no primeiro tempo. No entanto, Bebeto (duas vezes), Dauri e Patrício viraram o duelo para 4 a 1, e ainda deu tempo de Tássio e Osmar encostarem no placar. 4 a 3 e boa vantagem dos gaúchos, apesar dos últimos dois gols sofridos na capital paulista.

Incendiados pela possibilidade da vaga inédita na final da Copa do Brasil, todos os caminhos levavam os torcedores de Campo Bom para o Olímpico- estádio do Grêmio- onde aconteceria o jogo de volta. A classificação parecia certa quando Tiago Belmonte, aos 9 minutos do primeiro tempo, abriu o placar enquanto a torcida ia ao delírio. Mas Sandro Gaúcho, duas vezes, e Makanaki decretaram o triunfo do Santo André- que viria a ser campeão inédito do torneio naquele ano.

A derrota foi um balde de água fria no elenco que contava com nomes como o goleiro Marcelo Pitol, o lateral Patrício, Perdigão e o goleador daquela edição com oito gols, o atacante Dauri. A lembrança do jogo diante dos paulistas, de acordo com o jornalista Cassios, “foi muito dura”. Porém, reconhece a bela campanha do time e lembra da importante vitória por três a zero contra o Vasco, “que projetou demais o time e a cidade”, afirma.

O atual Diretor de Futebol, Márcio Fernandes, também relembra com bons olhos a campanha na Copa do Brasil, reconhecendo os benefícios que trouxe para o contexto local. “A campanha foi motivo de orgulho para o povo Campobonense que tinha pouco mais de 70 mil habitantes, foram grandes batalhas que deixa saudade em nossos corações”, lembra.

A reconstrução do Clube 15 de Novembro

Após três vice-campeonatos no Campeonato Gaúcho, o Clube 15 de Novembro fechou as portas para o futebol profissional, em 2008. Somente cinco anos depois, o time de Campo Bom voltou à Segundona Gaúcha, mas logo encerrou as atividades profissionais novamente.

Apesar das recordações da Copa do Brasil, o momento da instituição é de reconstrução. Atualmente, o time se esforça em atuar nas categorias de base, por onde pretende desenvolver suas futuras gerações.

“Em 2017 e 2018 tivemos a participação no Campeonato Gaúcho com a Categoria Sub-17, foi uma experiência fantástica para nossa geração de diretores que não somos do meio futebolístico. Sentimos o peso do compromisso e seriedade, percebemos que futebol não se faz só com amor, precisamos de investimento”- reiterou o diretor do clube.

Com relação ao futuro do futebol em Campo Bom, Márcio admite o fato do 15 estar numa situação desfavorável para uma volta ao futebol profissional. “Hoje temos humildade em reconhecer que não temos condição e nem a pretensão de retornar com um time profissional, ao menos em médio a longo prazo, mas também não posso dizer que jamais iremos voltar. Quem sabe um dia.”, afirma.

O caminho, de fato, não será fácil para os dirigentes do clube e comunidade, mas certamente o objetivo de voltarem aos melhores dias, vitórias e glórias no cenário estadual e nacional ainda está vivo dentro de cada torcedor campobonense.

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