Futebol

Atleticano de corpo e alma: 12 viagens pela Copa do Brasil e mais de 40 anos dedicados ao clube e à amizade

Publicado às

Jornalista com passagens pela Rede Minas, canal GNT e agências de comunição. Apaixonado por futebol, cultura e música, já entrevistou diversos artistas da música brasileira, como Wando, Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. Acredita que o jogo entre quatro linhas é a principal expressão cultural do homem contemporâneo.

Foto: Guto, em Mineiros (GO), pendurando sua bandeira.

Crédito: Legenda: arquivo pessoal. Imagem: Guto, em Mineiros (GO), pendurando a sua bandeira.

“O futebol proporcionou as coisas que mais gosto na vida: torcer, viajar, curtir uma cerveja, resenhar e fazer grandes amigos. Com o futebol aprendi a respeitar as pessoas e ser respeitado. E mais: foi por causa do futebol que aprendi matemática, história e geografia, pois, ao viajar para torcer, conheci várias cidades que eu nem sabia que existia”.

Guto de Moura começou sua história como torcedor subvertendo e deixando claro que o amor pelo seu time não tinha fronteira. A primeira ida foi ao Mineirão, após desobedecer a mãe, deixou claro que a sua filosofia de vida seria a liberdade.

Mineiro de Manhuaçu, ele morava na cidade natal, localizada na Zona da Mata, região de Minas próxima ao estado do Rio de Janeiro. Por isso a maioria da população de lá torcia para Botafogo, Vasco, Flamengo ou Fluminense.

“O meu primo Zezé Lopes dizia: o Atlético foi campeão brasileiro em 1971, você é mineiro, torce para o Atlético, não vai torcer para time de fora.  Ele queria que eu fosse no Mineirão para entender o que era o Galo. Mas a minha mãe tinha medo de me deixar ir sozinho para Belo Horizonte, pois eu era muito novo. Então, teve um dia que pulei a janela da minha casa, às 11 da noite, fui para o rodoviária e peguei um ônibus para BH. O meu irmão Emerson Moura, meu grande parceiro, me ajudou. Com 14 anos, sozinho, cheguei em BH e vi o fantástico time do Galo de 76, com Reinaldo, Marcelo, Paulo Isidoro e Danival. Fui em um clássico contra o Cruzeiro que vencemos por 3 x 2. Aí, eu tomei gosto pela coisa”, relembra Guto.

Depois dessa primeira experiência, Guto não parou mais. Anos mais tarde, mudou-se para Belo Horizonte e iniciou uma relação extremamente intensa com o clube mineiro, de inúmeras idas ao campo, viagens Brasil afora, muitas histórias tristes a alegres, amizades, independentemente se a pessoa fosse atleticana ou torcedora adversária. Pela Copa do Brasil, Guto acompanhou o Galo em 12 cidades. Foi a Belém, Manaus, Fortaleza, Ibirama, Criciúma, São Paulo, Porto Alegre, Mineiros (Go), Teresina, Rio de Janeiro, entre outros lugares. Muitas vezes, acompanhado somente pela bandeira da torcida que fazia parte.

“Eu não tinha noção do que desejava e o que propunha para a minha vida. Mas, hoje, sei que eu queria era elevar e representar a torcida e mostrar o sentimento que o atleticano tem. Fazer aquilo que muita gente gostaria de fazer, mas não tinha condição”, comenta Guto.

Entre a década de 80 e o ano de 2001, Guto foi proprietário de uma banca de revista. E isso dava a possibilidade de ele sair de BH, uma vez que tinha uma funcionária de total confiança: “Nunca fui rico, mas sempre trabalhei e tive o meu dinheiro, a minha independência. No momento em que a internet começou a se popularizar, vendi a banca e fui trabalhar como agente de turismo”.

O amigo adversário

A primeira viagem de Guto pela Copa do Brasil foi em 1992 para assistir in loco Galo e Criciúma, clube catarinense que, naquele momento, era o último campeão do torneio. Ele viajou sozinho, de ônibus, acompanhado somente pela bandeira de Os Intocáveis, torcida organizada da qual era integrante.

Só que, dias antes de viajar, Guto foi jogar futebol e machucou o tornozelo direito. Mesmo assim, ele decidiu que iria. Guto trocava mensagens através de cartas com Ranieri Cassetari, torcedor do Criciúma, e na época presidente da Guerrilha Jovem. Não queria perder a oportunidade de ir ao Sul acompanhar o Galo.

Ao chegar lá, Ranieri fez questão de receber Guto na casa dele. Foram juntos ao jogo: “Na verdade, a Guerrilha Jovem me deu proteção no estádio, pois o povão sempre implicava com os visitantes, até pelo fato de ser torcedor do Sudeste e de time de primeira divisão”.

Crédito: arquivo pessoal. Legenda: Guto e os amigos de Criciúma.

A partida terminou 1 x 0 para o Criciúma e a ideia do atleticano era voltar em seguida para BH. Mas quando estava saindo do campo, ele começou a sentir um cansaço fora de comum, uma febre forte e o pé direito inchou. “Passei um aperto. Peguei flebite (um tipo de inflamação). Não tinha condições de voltar para Belo Horizonte. Então, fiquei três dias na casa do Ranieri, com o pai dele cuidando de mim até eu melhorar. Por isso que digo: a minha amizade é pessoal, não olho as paixões clubistas”, afirmou Guto.

Idas ao Norte do Brasil

O ano era 1997. O destino foi Belém do Pará para ver Remo x Atlético, pela primeira fase da Copa do Brasil. “Lembro como se fosse hoje. O placar do jogo foi 3 x 3, com três gols do Euller”, contou o torcedor.

Guto também viajou sozinho, acompanhado somente pela bandeira de Os Intocáveis, torcida organizada que ele fazia parte. Foi de ônibus, percorreu cerca de 2.500 mil KM, numa viagem que durou dois dias e meio: “Na época, eu não tinha condições financeiras de ir de avião”.

“O costume, a culinária e o ritmo de vida era muito diferente de Minas. Isso me chamou a atenção. E fui muito bem recebido pela torcida do Remo e do Paysandu. Teve gente que disse que eu era louco de ficar com a torcida do Remo. Falavam que era perigoso porque o time é da cor azul igual o nosso rival. Eu só falei: vem comigo. Teve uma turma que foi de avião e passou aperto lá. Eu não”, contou Guto. E completou: “Sempre fui com o coração desarmado e disposto a fazer amigos. Eu sempre levava adesivo e boné da torcida. Dava também de presente um queijo mineiro. Além disso, eles achavam bacana eu sair de BH, ir até Belém, numa saga”.

Outra viagem solitária e de ônibus feita por Guto foi em 2008 para a capital de Tocantins. Na oportunidade, o Galo venceu por 7 x 0 o time do Palmas, no estádio Nilton Santos. Nessa época, ele era integrante da torcida Uniformizada. “Eu pendurei uma faixa enorme da nossa torcida no estádio”.

Antes de ir, o torcedor trocou correspondência com outro torcedor do Galo que morava em Palmas, um comerciante, dono de uma churrascaria. “O nome dele é Elmo Norte. A gente não se conhecia pessoalmente, mas ele fez questão de me buscar na rodoviária. Queria que eu ficasse hospedado na casa dele. Fiquei sem graça e disse não. Falei que não ficaria na casa lá, com a família toda. Aí, ele me hospedou numa casa vazia, da tia dele. Inclusive, até devo uma camisa para o filho do Elmo que deve ter hoje 12 anos. Lembro que choveu muito e abri a faixa na casa inteira, de fora a fora”.

Crédito: arquivo pessoal. Imagem: a faixa da Uniformizada no estádio em Palmas.

2008 era o ano do centenário do Galo. Mas dentro de campo o time era limitado e não representava as expectativas da torcida e a importância da data, apesar da vitória expressiva na ida a Palmas. “Mesmo assim, foi muito bonito. Eu e a torcida roemos muito osso até o time voltar a vencer títulos. Eu gostava de ver o Atlético, de ver o jogo, e não importava se o nosso time era aquém. Independentemente de qualquer coisa, era o nosso clube”.

Percalços

Devido à relação intensa do torcedor com o Galo, em 2008, período de muitas celebrações, Guto foi personagem de reportagens, fato que, segundo o torcedor, acabou gerando ciúme, inclusive de dirigentes do clube da época. “Durante um tempo virei uma pessoa não grata dentro do clube. Por outro lado, teve gente de torcida organizada que dizia que o clube me ajudava, me dava coisa. Aí, eu respondia: te mostro o meu extrato bancário para você que não ganho nada. Por isso, que eu sempre falei na sede do Galo: o meu lugar é na arquibancada, balançando bandeira e vendo o Galo ganhar ou perder”.

O tão sonhado caneco

Em 2014, o time de Guto foi campeão da Copa do Brasil. A campanha foi épica, com viradas improváveis e um título em cima do maior rival, o Cruzeiro. Nas quartas e semifinal, respectivamente contra Corinthians e Flamengo, o Galo perdeu a primeira partida do confronto por 2 x 0, iniciou o segundo jogo perdendo por 1 x 0, e virou o placar para 4 x  1. Tudo na base do “Eu Acredito”, grito da torcida alvinegra que simbolizou a campanha de 2014.

Sempre acompanhado de um crucifixo da sorte e várias miniaturas de Galinhos, Guto diz que ficou louco durante a campanha. “Eu estava vivendo aquilo e não queria saber do amanhã. Como dizia o James Dean (grande ator americano), meu ídolo, e mais tarde o Renato Russo: viva sem pensar no amanhã. O título foi o ápice do ápice. O sabor foi muito grande”, relembra Guto.

Momento atual

Hoje, ele continua indo ao campo nos jogos em BH. Mas as viagens diminuíram por causa da agenda de trabalho. Guto continua sendo um personagem muito conhecido na torcida do Atlético, porém o que não diminuiu é o amor pelo clube. E seu lema na arquibancada, enquanto torcedor, e na vida permanece sendo: “A nossa arma é a amizade”.