Homossexuais criam times para combater a exclusão no futebol

O trauma de ser escolhido por último no futsal durante as aulas de Educação Física na escola foi um peso carregado por muito tempo pelos homossexuais devido à orientação sexual.

Lucas Mendes
Colaborador do Torcedores

Crédito: Facebook/LiGay

Uma jogada errada era motivo suficiente para justificar xingamentos homofóbicos. Ouvir que “futebol não é coisa de gay” ou “joga que nem macho” revela o preconceito ainda enraizado na sociedade. Contudo, os homossexuais decidiram agora “afrontar” – dar um fim à exclusão no esporte – e resolveram ocupar um espaço majoritariamente de homens heterossexuais.

É o caso do time amador Unicorns Brazil, criado em abril de 2015 por Filipe Marquezin, 32, e Bruno Host, 30, para reunir pessoas da comunidade LGBT que gostam de jogar futebol. O grupo chegou a ficar sem nome por cerca de dois ou três meses, mas o batismo acabou fazendo referência a uma criatura mitológica: o unicórnio. A razão, segundo explica Filipe, há por trás dos Unicorns “toda uma história mística” – “ninguém sabe se é masculino ou feminino, e é uma figura muito ligada aos gays, acabou ficando isso”.

Os “unicórnios”, como chamam uns aos outros, no começo tinha apenas 12 pessoas, que se reuniam uma vez por mês em uma quadra de society, no Ipiranga, zona sul de São Paulo. Hoje, o “time” conta com mais de 50 jogadores – divididos entre treinos recreativos (todas as quartas-feiras) e técnicos, para disputa de campeonatos (às sextas).

O Bulls Football SP é ascendente do Unicorns Brazil, tendo sido criado em janeiro de 2017. Um dos fundadores foi o autônomo Omar Laignier, 35. Quando o time começou a jogar havia entre 16 e 17 pessoas. Com a divulgação pelas redes sociais, hoje os “touros” têm 42 membros. Durante uma conversa entre Omar e outros fundadores, ele disse que o nome da equipe foi escolhido por causa de um ex-jogador, Douglas Batista, cujo apelido era touro. Além de ser um símbolo imponente, eles quiseram “americanizar”. Sendo assim, o grupo passou a ser chamado de Bulls e para reafirmar uma proposta de futebol mais aguerrido.

Seu time maltrata seu coração? 

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LiGay (Liga Nacional de Futebol)

Com um pouco mais de dois anos de existência, os “touros” já levantaram quatro taças, inclusive a Champions LiGay (Liga Nacional de Futebol), que reúne times homossexuais espalhados pelo país. O campeonato foi crescendo gradativamente. A primeira edição foi no Rio de Janeiro, com 8 times, em 2017. No ano seguinte, foi em Porto Alegre (RS), com 12 equipes. Em novembro deste mesmo ano, foram reunidos 16 esquadrões em São Paulo, onde houve um “boom” de procura de inscrições para entrar nos próximos torneios. A quarta edição vai acontecer em Brasília, entre os dias 19 e 20 de abril de 2019. No total, serão 24 equipes participantes – 20 na série A e 4 na série B.

Embora o Bulls seja formado exclusivamente por homossexuais, quem está no comando técnico do time é um heterossexual. O educador físico Richard Uchimura Pascoli, 39, está na segunda passagem na equipe. A primeira foi em janeiro de 2018, mas ele acabou saindo para dirigir outro grupo de jogadores gays. “Eu nunca tive problema quanto a isso, muito pelo contrário, minha educação foi perfeita sobre a diferença de gosto sexual, nunca vi isso como nenhum empecilho, os valores são outros”, contou.

O professor destaca a iniciativa da LiGay para combater a exclusão, mostrar que o esporte foi feito para todos e que a preparação das equipes homossexuais está “no mesmo nível” da competição de atletas heterossexuais. “Tudo começou com a intenção de inclusão mesmo do mundo LGBT no futebol, cada um tem uma história de preconceito. Hoje em dia é importante para mostrar para o público em geral que o futebol é para todos”.

“Há três anos, eu era só um telespectador”

Na última quarta-feira (27), a reportagem acompanhou um dos treinos do Unicorns. O vendedor Murilo Costa, 21, que está no time há duas semanas, explicou que se sente melhor quando joga com homossexuais. “É um ambiente mais tranquilo, você está com quem se sente bem e confortável. Não tem aquela coisa do tipo ‘parece uma bichinha jogando’ ou ‘chuta que nem homem’.”

O autônomo Júlio Zerbinatti, 25, voltou a jogar bola há três anos com o Unicorns. “Antigamente não tinha pessoal para eu jogar”, contou. A última vez que ele jogou bola foi com as meninas do colégio quando tinha 17 anos. Entretanto, ele nunca jogou “com pessoas heterossexuais”, segundo enfatizou. A importância do time na vida dele permitiu que passasse de espectador para praticante do esporte. “Há três anos, eu era somente um telespectador, nunca pude jogar, só assistia. A maioria das pessoas que gostam de assistir ou ir nos estádios, tem vontade de jogar futebol. Só que eu nunca achava pessoas para conseguir jogar bola também.”

Zerbinatti, sobrenome italiano, falou que nunca jogou com meninos heterossexuais por causa das ofensas e por ser um jogo mais brigado. “O estilo de futebol deles é diferente, é mais agressivo, não aceitam as pessoas que não sabem jogar bola. Aqui, nós jogamos de quarta-feira para descontração. Se perder a bola não vão xingar. No futebol de heterossexuais tem essa pegada mais forte, é palavrão, xingamento. Só de saber que você está jogando no público que não é seu, ser um homossexual já é uma visão diferente em cima de você”, finalizou.

“Gay joga bola, sim, senhor”

Questionado sobre os avanços e a falta de representatividade no meio profissional, o fundador do Unicorns disse que eles conseguiram mostrar para a comunidade LGBT que “gay joga bola, sim, senhor”.

“A gente não ‘atingiu’ os heterossexuais como queríamos. Mas o principal ponto é que mostramos para os gays que eles podem jogar bola, não precisam ter vergonha”. A presença de homossexuais dentro do futebol “só vai ser bem aceita quando tiver um gay famoso jogando bola. Os ídolos do futebol são ídolos de muita gente, talvez com isso a sociedade consiga aceitar um pouco mais”, concluiu Filipe.

Segundo Omar, do Bulls Football SP, o machismo no futebol ainda vai demorar para acabar principalmente por causa das torcidas, motivo pelo qual os jogadores não declaram ser homossexuais porque serão rechaçados nas partidas. “O futebol sempre vai ser machista mais por causa da torcida. Existe pouca evolução. O jogador, existem muitos, não vai falar a identidade porque senão vai ser taxado dentro do jogo. Toda vez que o goleiro do São Paulo bate o tiro de meta, eles gritam: ‘bicha’. Imagina um cara se declarar gay?”, indagou.

A perspectiva de quem trabalha na imprensa sobre a homossexualidade

O jornalista Juca Kfouri, 69, perguntado sobre o posicionamento diante da homossexualidade no esporte, disse: “[Tenho] a mesma [posição] em relação a heterossexualidade. Faz parte da natureza”. O assunto ainda é um tabu nos veículos de comunicação. O colunista da Folha de S. Paulo informou que isso ocorre porque “a imprensa é conservadora ou sensacionalista quando trata do tema”.

Os atletas não costumam reconhecer a orientação sexual, no caso, os homossexuais pelo medo de sofrerem consequências que prejudiquem a carreira, inclusive, o também cientista social relacionou com o fato do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, condenar o relacionamento gay. “Os que não são têm natural receio da reação. O atual presidente da República é capaz de condená-los”.

Para fechar, questionado sobre o motivo de as torcidas serem resistentes em reconhecer a homossexualidade no futebol, Kfouri disse que isso acontece “pelo mesmo motivo que as leva a não reconhecer [a presença de homossexuais] nelas mesmas”, concluiu.

O que os torcedores comuns e organizados pensam

Quem frequenta o estádio de futebol sabe que quando o goleiro bate o tiro de meta, parte da torcida grita: “bicha”. Quatro torcedores que não quiseram ser identificados foram questionados a respeito da homossexualidade no futebol, os gritos homofóbicos e qual seria o recebimento deles e da torcida se um atleta assumisse a homossexualidade.

“Dentro do campo está mais na questão de querer realmente em zoar e importunar o adversário. Se tornou uma ‘tradição’ brasileira, acho que dificilmente vai conseguir mudar isso a curto prazo dentro do estádio. Se você não gosta, você tem a obrigação de respeitar o próximo. Pelos outros torcedores, eu não posso falar, mas cada um tem a sua vida, faz o que quer. Para mim, não seria nenhum problema um jogador ou quem quer que seja assumir a sua orientação.”

“Eu acho que cada um tem que se sentir melhor a onde quiser independentemente da sua orientação sexual. Se a pessoa é homossexual e se sentir bem, ela tem que estar ali. Se é heterossexual, tem que estar ali também. Indiferente. Eu ia receber normal, profissional é profissional, vida pessoal é pessoal, cada um tem a sua orientação sexual. Aí não sei, têm muitas pessoas que são preconceituosas. Infelizmente, nosso Brasil é assim, as pessoas são muito preconceituosas.”

“Deve ter jogador que é, tá ligado? Essas ideias de homossexualidade é a rotina de cada um. Cada um sabe o que faz da vida. Quem é heterossexual, cuidado para não virar homossexual, que é ‘dum’ passo para o outro, entendeu? Porque o mundo não é só aqui. Pode ver a torcida do Bayer têm bandeiras coloridas, é um mundo que com outros pensamentos. No mesmo pensamento que os caras têm ‘vamos matar todos os homossexuais’, a homofobia, não é? A torcida diz que estão transformando homens, vê um bagulho desse, tratam esse cara que nem gato e sapato. E quando você trata a pessoa com pancada, com virilidade, tá ligado? O cara pode se tornar um psicopata ou qualquer outra coisa. Eu acho que no Brasil e América do Sul, a homofobia é muito forte mesmo. O jogador, não, porque são idolatrados e ninguém sabe o que eles fazem. Não iam apoiar. Não ia ter recepção, mas os caras iam ter que aceitar o cara lá, tio. Não tem dessa.”

“Infelizmente, [teria uma recusa muito grande], isso não é exclusividade do Palmeiras, é de todos os clubes. Não haveria uma recepção calorosa. Eu não falei o meu nome, não me identifiquei porque o futebol apesar de ter avanços progressistas é o reflexo da sociedade, é um meio muito homofóbico. Um torcedor homossexual, eu falo isso com o coração partido, ele não é bem-vindo. Eu não consigo entender essa reação diante da orientação sexual de uma pessoa. Se você falar em futebol em geral, para o torcedor acaba sendo mais difícil. Para o jogador, apesar de ser difícil, ele consegue ter um pouco mais de espaço para expor isso. Para mim, falando de Palmeiras, a história do Palestra Itália foi completamente inclusiva abrindo espaço e inserindo a camada mais baixa no futebol. Eu acredito que todo alviverde que exprime preconceito de gênero, classe ou cor, ele está cuspindo na própria história. Eu não faço nenhum tipo de diferenciação com relação a etnia, orientação sexual ou classe social, a história do Palestra dá boas-vindas a todos.”

“A homossexualidade é algo rechaçado”

O historiador Maurício Rodrigues Pinto, 36, defendeu o mestrado cujo tema é: “Pelo direito de torcer: das torcidas gays aos movimentos de torcedores contrários ao machismo e à homofobia no futebol” na USP (Universidade de São Paulo), em 2018. A pesquisa estudou as torcidas gays no final da década de 1970, como a Coligay (torcida do Grêmio) e a Fla-Gay (do Flamengo), além de movimentos contemporâneos contrários à homofobia que participam de debates afetivamente no Facebook, como por exemplo a Galo Queer (torcida do Atlético Mineiro), Bambi Tricolor (do São Paulo), Palmeiras Livre e o Movimento Toda Poderosa Corinthiana (coletivo de torcedoras do Corinthians).

Para o pesquisador, no futebol “a homossexualidade é algo rechaçado, busca-se negar por conta de um ideal heteronormativo exacerbado e também uma cultura de machismo acentuada e extrapolada. A participação de pessoas que não tenham um comportamento considerado ‘adequado’ faz com que se sintam excluídas nos jogos de futebol. O outro ou o rival muitas vezes vai ser hostilizado ou diminuído a partir de ideias, referências e atributos ligados à homossexualidade”.

“É um ambiente historicamente apropriado por homens”

A resistência em aceitar a população LGBT nos estádios, o discurso de que o futebol gira em torno do sexo masculino, a falta de ações e a ausência de representatividade no meio profissional, são quatro pontos listados pelo historiador. “Eu não diria que é só as torcidas, é geral, são os times, jogadores, dirigentes, a mídia, existe uma resistência em reconhecer que homossexuais, bissexuais e transgêneros possam fazer parte desse universo. É um ambiente historicamente apropriado por homens, pensado para ser consumido por um público masculino, há uma reiteração de discursos que naturalizou a ideia de que o futebol é um jogo para macho. Existem poucas iniciativas para que esses torcedores encontrem nos estádios de futebol um espaço acolhedor e seguro. Não tem praticamente repórteres esportivos, dirigentes, técnicos e jogadores que sejam LGBT, isso ajuda a reforçar alguns estereótipos no sentido de que homossexuais não vão gostar de futebol.”

“O estádio não é acolhedor”

Os eventos esportivos não são seguros para grupos LGBT se deslocarem aos estádios em conjunto, mas não significa que estão ausentes das arquibancadas, só passam despercebidos por causa do anonimato comportamental. “O estádio não é acolhedor para essas pessoas se expressarem quem são.  Muitos vão aos estádios, são até participantes de torcidas organizadas, são frequentadores assíduos, mas existe um controle daquele universo. Não significa que não estejam nesses ambientes, assim como provavelmente existem jogadores homossexuais que optam em não declarar publicamente porque isso pode criar uma série de problemas e constrangimentos ao longo da sua carreira”, aponta o pesquisador.

Os movimentos da internet e a mídia

Os movimentos da internet contribuíram “ainda de que forma pontual” em gerar debates para fazer que o tema tivesse novas abordagens pela mídia. “Por exemplo, um jogador fazer alguma brincadeira de caráter homofóbico era normal, às vezes isso era estampado na capa dos jornais, dava-se destaque para esse comentário. Agora, é um comentário machista, acredito que esteja tendo uma mudança neste sentido”.

Para finalizar, o historiador disse que “a representatividade é importante por um lado porque isso pode romper com estereótipos, assim como a torcida Coligay fez no passado. É necessário também que haja uma iniciativa pensando-se em estruturas, a maneira como pensamos a educação de meninos e meninas na esfera da família, isso sim proporciona uma transformação a longa escala”, finalizou Maurício Rodrigues Pinto.

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