Torcedor com doença rara relembra títulos do Cruzeiro na Copa do Brasil

– Mãe, você não acha que o meu sangue está meio azulado?

Elisa Marinho
Colaborador do Torcedores
João Pedro com o goleiro Fábio

Crédito: Arquivo pessoal

Essa foi a pergunta que João Pedro fez quando precisou tirar sangue para realizar exames. Mas, não era o azul da nobreza que interessava a João. Era o azul do time que aprendera a amar desde que veio ao mundo, o Cruzeiro.

Nascido em Contagem-MG, João Pedro Augusto Oliveira e Silva é o quarto filho de Silvana de Oliveira e Silvio Aparecido da Silva. Embora tenha sido uma gestação tranquila, João chegou ao mundo de forma prematura, aos oito meses, por conta de uma hipertensão gestacional.

Quando o bebê foi tirado de seu ventre, Silvana notou uma movimentação diferente na sala de parto. O médico que realizou a cesárea mandou que chamassem imediatamente uma pediatra. Até então, não permitiram que Silvana visse o filho, o que só aconteceu no entardecer daquele 13 de outubro de 1999.  João ficou 22 dias internado e foi diagnosticado com Epidermólise Bolhosa, uma doença rara que tem como principal característica a formação de bolhas e lesões na pele.

Mas esta não é a história de João, o menino com uma doença rara. Esta é uma história de amor.  Um amor que afaga, que traz felicidade e ressignifica a existência. É a história de um dos mais apaixonados cruzeirenses.

Torcedores: Quando o João Pedro está com o Cruzeiro, qual o sentimento que você vê?

Silvana de Oliveira, mãe de João Pedro: Alegria. E a alegria do meu filho é a minha alegria. É claro que quando ele está assistindo ao jogo a gente não pode dá nem um pio, nem passar perto. Quando ele vai para o Mineirão, fica tão ansioso que nem come. Pode estar todo machucado, com dor, não liga. Senta nas cadeiras duras e não pede nem água.

Não é o tratamento caro, a cirurgia que já realizou, ou os três médicos que precisa visitar por mês que impedem João de viver esse amor infinito. Infinito como o azul do céu, do mar, do Cruzeiro. Não há nada que impeça João de estar ao lado do seu time do coração, nem mesmo um acidente.

João Pedro: Estava indo com meus irmãos ver Cruzeiro e Santos, pelo Campeonato Brasileiro. Meu irmão foi olhar para o lado para ver se vinha carro, aí o carro da frente freou e batemos. Já estava pertinho do Mineirão. Mas, a gente não deixou de ver o jogo.

Torcedores: Mas, alguém se machucou?

João Pedro: Eu, mas só ralei o braço.

Torcedores: E você foi mesmo assim para o jogo?

João Pedro: Para mim, machucão é normal. Não vai ser um machucado que vai me impedir de fazer uma coisa que eu quero.

Assim é o amor de João Pedro pelo Cruzeiro. Aos 19 anos, é um jovem de poucas palavras, mas que não as poupa quando precisa falar do seu time do coração. Guarda as mais variadas lembranças, em especial sobre a Copa do Brasil. E não é para menos. O Cruzeiro foi o único a ganhar seis títulos na competição. Nos últimos dois anos, inclusive, derrotou as equipes de maiores torcidas do país. Embora nunca tenha ido a um jogo do campeonato, que acompanha apenas pela televisão, não demora a responder perguntas sobre a competição mais democrática do Brasil.

Torcedores: Quando o Cruzeiro enfrentou o Corinthians no ano passado, você teve medo que o time não conseguisse bater o adversário, em Itaquera?

João Pedro: O único medo com relação ao Corinthians era o juiz, tanto que deram pênalti que não existiu para eles.

Torcedores: E a final contra o Flamengo, em 2017?

João Pedro: Ah, o Flamengo é freguês e freguês a gente trata direitinho.

Torcedores: Mas porque você acha então que o Cruzeiro não conseguiu fazer um gol no último jogo da final contra o clube carioca?

João Pedro: Ah, porque o Mano é retranqueiro e, dependendo do jogo, isso é ruim.

Torcedores: Qual o jogo que mais lhe marcou, na Copa do Brasil?

João Pedro: Em 2017, semifinal Cruzeiro e Grêmio. No jogo de ida, nós perdemos por 1×0. No de volta, no Mineirão, ganhamos pelo mesmo placar. A partida foi para os pênaltis e nós vencemos. Esse jogo levou o Cruzeiro para a final contra o Flamengo.

Torcedores: E o gol mais bonito?

João Pedro: O gol do Everton Ribeiro, em 2013. Eram oitavas de final da Copa do Brasil. Foi o Flamengo quem passou, mas o Everton Ribeiro marcou um golaço no jogo de ida.

Mas nem só de glórias é contada a história do Cruzeiro na Copa do Brasil. Há fatos que João prefere não recordar. Um deles é a final de 2014 contra o maior rival, Atlético-MG. Naquele ano, o Galo faturou o seu primeiro título da competição em cima do principal adversário.

Torcedores: Você lembra de quanto o Cruzeiro perdeu, João?

João Pedro: Não sei, não gosto de lembrar. Mas foi sorte deles, o time estava muito cansado do Brasileirão.

Torcedores: E esse ano, será que o Cruzeiro leva o Tri da Copa do Brasil? O time parece estar muito focado na Libertadores.

João Pedro: Dá para ganhar os dois. Se os jogadores jogarem como no ano passado, é meio caminho andado. Não tem como deixar de lado a Copa do Brasil.

Torcedores: A Copa do Brasil tem um diferencial: permite o intercâmbio entre times dos grandes centros com clubes de menor visibilidade. Você gosta desses jogos?

João Pedro: A gente assiste, mas às vezes é meio chato. Os jogadores parecem que entram sem vontade de jogar. Não contra um time menor, mas quando o jogo é longe. A gente entende porque eles entram sem vontade. Como agora o Cruzeiro só entra nas oitavas de final, então não tem muito isso.

Torcedores: Qual o seu sonho João?

João Pedro: Ah, meu sonho era conhecer o Fábio.

Torcedores: E já conheceu?

João Pedro: Sim, no ano passado, em dezembro. Um amigo do meu irmão conseguiu e eu fui lá tirar uma foto com ele. Foi bem legal.

João é diferente. Não, não por sua doença rara. É diferente pelo amor que sente pelo Cruzeiro. Sentimento que o faz superar acidentes, doença, mal tempo e lhe deixa mais feliz. Isso o torna forte. Felicidade que supera qualquer dor, provando que nunca foi e nunca será só futebol.