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O surfe feminino brasileiro precisa de ajuda

As mulheres que se aventuram nas ondas têm que batalhar para serem vistas como atletas, e não apenas como corpos bonitos expostos no mar.

Aline Taveira
Colaboradora do Torcedores.com.

Crédito: Camila Cássia treinando uma de suas pupilas Foto: Reprodução/Instagram

O surfe feminino brasileiro enfrenta um período sombrio há algum tempo. O esporte como um todo que nunca esteve tão em alta no país e no cenário mundial, com tanto espaço no mercado e investimentos de grandes empresas, mas parece que esse movimento não chega ao universo feminino.

Muitos homens também sofrem com a falta de patrocínio e de apoio. Porém, ainda são maioria nos casos de sucesso.

A surfista campeã brasileira de 2018, Camila Cassia, de 28 anos, afirma em entrevista ao Torcedores que ser mulher no surfe é não apenas ser imaginada dentro de um biquíni fio dental. “É muitas vezes ser desrespeitada por homens no mar, ou até mesmo ter que ouvir como cantada ‘pode ir nessa onda gatinha, eu deixo’. É ser rabeada e ainda ouvir de ‘alguns’ que mulher não tem prioridade”. Ela surfa desde os 13 anos e vive de perto essa realidade desde então.

“Ser mulher no surf é mostrar que quem tem prioridade é quem ta no pico, é igualdade, é saber respeitar e exigir respeito. É provar que nós não somos o “sexo frágil” e somos capazes de fazer o que qualquer homem faz!”, conclui ela.

Crise no Brasil?

Afirmar uma crise no surfe brasileiro pode soar estranho, vide todo o sucesso que os atletas que defendem a bandeira verde e amarela trazem. Filipe Toledo, Medina, e até a recém-acolhida pelos brasileiros Tatiana West-Webb estão no topo, mas são a prova de que a chamada “Brazilian Storm” só acontece lá fora.

Segundo a BBC, muitas não conseguem ter o esporte como o seu único sustento e, mesmo assim, as que desejam continuar no esporte enfrentam uma série de dificuldades: desde falta de incentivo na base, escassez de campeonatos nacionais e falta de patrocínio para as atletas, até o machismo que ainda persiste nas areias e nas campanhas publicitárias.

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O Brasil possui, no momento, três representantes na elite do Surf: Silvana Lima, que conseguiu pela primeira vez um patrocínio máster esse ano, Tatiana Weston-Webb, que se naturalizou brasileira e a jovem Tainá Hinckel.

Em 2018, na categoria feminina, das 25 competidoras, três eram brasileiras, a maior participação no torneio desde 2010. Atualmente, são duas entre as 20 primeiras colocadas. Do lado dos homens, esse número salta para seis.

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Há oito anos, as brasileiras representavam cerca de 17% das competidoras nas etapas qualificatórias do mundial (WQS). Sem incentivo nacional algum, o número diminuiu para 2% em 2015. Apesar disso, a curva voltou a ser ascendente e em 2018 o Brasil representava 5% da competição.

Mostrar a que veio

Julia Santos, de 23 anos, tem uma estratégia para momentos em picos cheios de homens que não a conhecem: “Eu espero sobrar uma onda e dou meu máximo, aí a galera começa a te respeitar mais, o cenário já muda”. Ela afirma em entrevista ao Torcedores que, ás vezes, ao entrar em um mar cheio de homens, é vista como haole, como são chamados os recém-chegados nos picos. “Fica meio difícil, você tem que parar de remar porque eles estão remando mais forte. Eu gosto muito quando chega uma mina que surfa muito e cala a boca de todo mundo”, conclui.

Julia Santos
Reprodução/Instagram

Segundo a colunista Marina Werneck, do Hardcore, “Em tempos de empoderamento feminino, levante de bandeiras e causas para a frente, chegou a hora de deixar vaidades, complexos e radicalismos de lado para saber manusear todas as ferramentas possíveis a favor do agora e, dessa forma, abrir o leque para horizontes mais amplos.”  Além disso, o surfe feminino tem um papel importantíssimo em movimentar o mercado do segmento, gerando oportunidade de negócios.

Saiba maisEntenda o surf e as manobras que deixam todo mundo de queixo caído

A WSL anunciou recentemente a equiparação de prêmios para homens e mulheres nos campeonatos. “Esta é a mais recente de uma série de ações que a Liga se comprometeu trabalhar para nossas atletas do sexo feminino, desde competir na mesma qualidade de ondas que os homens, até melhores locações e mais apoio e investimento no surfe feminino”, afirma a CEO da WSL, Sophie Goldschmidt, na divulgação.

Para apoiar ainda mais seu compromisso com o surfe feminino, a WSL também anunciou três iniciativas que serão lançadas em 2019: uma campanha de marketing global para destacar o circuito feminino, além de aumentar a visualização dos eventos e o envolvimento dos fãs, um programa local de envolvimento da comunidade para meninas em todo o mundo, com clínicas instrucionais com atletas da WSL em cada etapa feminina do Championship Tour para inspirar novas gerações a abraçar o surfe e uma série de conteúdos mensais sobre as mulheres pioneiras do surfe, celebrando-as nos canais da WSL.

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