De erros de arbitragem às falhas de planejamento: tentamos entender por que o Botafogo ainda não venceu a Copa do Brasil

A derrota diante do Juventude, na terceira fase da Copa do Brasil deste ano, trouxe para o torcedor do Botafogo a recordação de um dos grandes traumas na história do clube: 20 anos antes, quando os dois times fizeram a final da competição, os gaúchos venceram em Caxias do Sul e seguraram um empate em 0x0 no Maracanã para ficar com o título. Foi a última partida com público superior a 100 mil no Maracanã, e também a única vez em que o time da Estrela Solitária chegou à decisão. Mas aquela não foi a única eliminação traumática no torneio. Por que o Botafogo ainda não venceu a Copa do Brasil? Pessoas que conhecem o clube tentam dar a resposta.

Thiago Ferreira Coelho
Colaborador do Torcedores
Juventude eliminou o Botafogo na Copa do Brasil deste ano

Crédito: Assim como em 1999, a campanha botafoguense na Copa do Brasil deste ano terminou diante do Juventude. (Foto: Arthur Dallegrave/E.C. Juventude)

ARBITRAGEM

Erros de arbitragem estão entre as possíveis explicações para a ausência da Copa do Brasil na galeria de títulos do alvinegro. Jornalista do Lance!, e por três anos setorista do Botafogo, Felippe Rocha lembra que o Glorioso foi prejudicado em duas oportunidades que a taça esteve perto de ser alcançada. A primeira delas foi em 1999, com dois gols alvinegros mal anulados na primeira partida contra o Juventude. “O jogo terminou 2×1 pro Juventude e era pra ter terminado 3×2 [para o Botafogo]”, recorda o jornalista. E mesmo vencendo o Figueirense por 3×1 na segunda partida da semifinal de 2007, novamente a arbitragem influenciou o desfecho da participação botafoguense.

“Foi o famoso jogo da Ana Paula, a bandeirinha. O Botafogo tinha perdido o primeiro jogo por 2×0, para um bom time do Figueirense. Mas o Botafogo fez 4 gols só no primeiro tempo [dois deles, anulados equivocadamente] e provavelmente conseguiria a classificação. Claro que o Botafogo também não poderia tomar gol, e levou um gol no segundo tempo, um frango do Júlio César. Nesses dois momentos mais agudos, em que esteve bem perto, houve erros capitais. Mas uma certa incompetência também” – comenta Felippe.

O Botafogo chegou até a semifinal da Copa do Brasil de 2007, mas caiu para o Figueirense com influência da arbitragem

Os gols anulados pela arbitragem fizeram falta ao Botafogo na semifinal de 2007, contra o Figueirense (Reprodução/YouTube)

PERDA DE ARRECADAÇÃO

Mas não só de eliminações com erros de arbitragem se construiu a história de traumas do Botafogo na competição. Ao longo dos anos, também houve eliminações precoces para times de menor expressão. Como foi no ano passado, ainda na primeira fase, contra o Aparecidense. Ou em 2004, contra o Gama. Ou em 2006, contra o Ipatinga. Ou em 2009, contra o Americano. Além do vexame, nessas e algumas outras ocasiões, essas derrotas trazem outros prejuízos ao clube. Inclusive financeiros, com perda de renda da premiação aos clubes que avançam de fase.

“Quando você perde renda, você perde a possibilidade de encorpar seu elenco, e você acumula problemas ao longo dos anos. Para um clube tão endividado, isso perde as chances de conseguir a premiação e a visibilidade que eventualmente vai permitir ter um patrocínio robusto. E isso é um problema que é um resultado do presente pagando o passado, continuamente” – destaca Felippe.

PLANEJAMENTO

O zagueiro Alex Bruno esteve em campo naquele duelo de 2007 contra o Figueirense e avalia que o Botafogo teria se classificado, se não fossem os gols anulados pela assistente Ana Paula de Oliveira. Ainda assim, quando questionado sobre o que tem faltado para o Fogão vencer a Copa do Brasil, ele cita outro motivo: “O principal é uma boa gestão, dar tempo para o pessoal trabalhar, tanto comissão quanto jogadores. Montar um elenco forte e ter uma boa estrutura, acho que isso tudo influência no resultado final”.

Com um título de Copa do Brasil em seu currículo, conquistado em 2004 pelo Santo André (que naquele ano surpreendeu o Flamengo e venceu a final no Maracanã), Alex minimiza a importância do histórico de decepções no torneio como fator de pressão para os atletas. “O grupo é outro, o treinador é outro. Muda muita coisa. Acredito que ainda não foi montado um grupo preparado para ser campeão. O nosso estava muito bom em 2007, mas infelizmente aconteceu aquilo ali, de a bandeirinha anular dois gols nossos. Mesmo se fosse o mesmo grupo, se o time vai passando de fase, ele ganha confiança e vai mudando a postura” – disse o ex-zagueiro do Fogão.

HÁ COISAS QUE SÓ ACONTECEM COM O BOTAFOGO?

Quem tem opinião semelhante à de Alex Bruno é Valdir Espinosa, que treinou o Botafogo em 1989, quando o time foi campeão Carioca e pôs fim a um jejum de 21 anos sem títulos. Ainda que, a cada eliminação traumática, volte à cabeça do botafoguense o mantra que diz “há coisas que só acontecem com o Botafogo”, Espinosa avalia que os jogadores estão preparados para não se deixarem influenciar por esse tipo de pressão: “Isso é uma história que o torcedor vive, alguns criam esse tipo de situação. Mas são alguns torcedores. O jogador não pode, de maneira alguma, se deixar levar por isso. Claro que o assunto pode vir de fora pra dentro. Mas da mesma forma que chega, ele tem que sair. E hoje o jogador já entende isso, entende que esse aspecto não traz a vitória”.

Espinosa também destaca a necessidade de um bom planejamento fora de campo, pensando em conquistar títulos. “O campo é onde todo mundo tem o olhar fixo, porque é ali onde a partida se decide, é ali que se conquista o campeonato. Mas tudo inicia fora de campo, na formação, na filosofia, no trabalho. Depois sim, é para ir ao campo e lutar pela conquista. Eu sempre digo que a taça não vem até nós, a taça está lá na frente. Seja qual taça for: de regional, de campeonato Brasileiro, Libertadores ou Mundial. A taça está lá na frente, nós é que temos que ir em direção a ela e pegá-la. Esse trabalho deve ser feito, e não é de uma hora para a outra que as coisas acontecem. Volto a dizer que a decisão é dentro de campo, a visão do torcedor está voltada para dentro de campo, mas tudo se inicia do lado de fora. Com direção, comissão técnica, uma filosofia e outros aspectos importantes para montar uma equipe campeã, e para que essa equipe vá até a taça e conquiste-a” – analisou o ex-treinador do alvinegro.

E não pode haver pressa, para Espinosa. Ele pondera que o bom planejamento precisa de tempo para amadurecer, e esperar a conquista de títulos em médio ou longo prazo: “O Botafogo precisa olhar para trás, ver se a lição foi aprendida, e olhar para o futuro. Mas não olhar esse futuro como uma coisa imediata. E também não precisa esperar por 2035, porque aí também já é demais”.

Valdir Espinosa comandou o Botafogo no título estadual de 89, quando o Fogão saiu da fila de 21 anos sem títulos

Valdir Espinosa (ao lado de Mauro Galvão e a taça do Carioca de 89) destaca importância do planejamento (Reprodução/Blog do Valdir Espinosa)

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