Há dez anos, Ronaldo conquistou o último título de uma carreira fenomenal

Em 1º de julho de 2009, data que está prestes a completar 10 anos, Ronaldo conquistou a Copa do Brasil com o Corinthians. Além de ter sido o único título nacional no futebol brasileiro em que o Fenômeno atuou como titular (em 1993, bem no início da carreira, ele estava no grupo do Cruzeiro que venceu a competição), aquela Copa do Brasil de 2009 acabou se tornando o último troféu de sua vitoriosa carreira profissional. Ronaldo marcou três gols naquela campanha, incluindo um no primeiro jogo da decisão diante do Internacional, quando o Corinthians venceu por 2×0. O ex-zagueiro William Machado, que por ter sido o capitão daquele grupo é lembrado por muitos como “William Capita”, recorda a trajetória da terceira Copa do Brasil vencida pelo Timão.

Thiago Ferreira Coelho
Colaborador do Torcedores

Crédito: Ronaldo marcou três gols ao longo daquela Copa do Brasil que seria o último título de sua carreira (Daniel Augusto Jr./Agência Corinthians)

Foi naquela edição da Copa do Brasil em que Ronaldo estreou pelo Corinthians, no dia 4 de março, no Estádio Municipal Juscelino Kubitschek, em Itumbiara, no interior de Goiás. O Timão venceu o Itumbiara por 2×0 e se classificou para a segunda fase. Era grande a expectativa para finalmente ver o Fenômeno em campo por um clube brasileiro, após mais de uma década na Europa. A espera para acompanhar Ronaldo em campo vinha desde que a contratação dele havia sido anunciada, ainda em dezembro de 2008.

A chegada dele ao clube foi uma surpresa até mesmo para o elenco corinthiano, como revela William. “Quando o Ronaldo foi anunciado estávamos todos em férias. Era dezembro de 2008 e eu lembro muito bem que estava fazendo uma viagem pela Europa. Eu estava na Itália, em uma estação de trem, vendo as notícias, e saiu essa notícia que me surpreendeu bastante. E ao mesmo tempo me deixou bem contente, porque já tínhamos jogado juntos na seleção sub-17 e teríamos a oportunidade de um reencontro, 16 anos depois” – disse William.

A CHEGADA

Herói do pentacampeonato da seleção em 2002 e, até aquele momento, maior artilheiro da história das Copas do Mundo (seus 15 gols em mundiais só seriam superados pelo alemão Klose, no fatídico 7×1 que a Alemanha impôs ao Brasil em 2014, no Mineirão onde o próprio Ronaldo já havia brilhado quando jogava pelo Cruzeiro), Ronaldo chegou com um status de estrela mundial do futebol. Isso poderia intimidar os atletas do elenco corinthiano que disputaram e venceram a Série B em 2008, mas não foi o que aconteceu, e Ronaldo foi bem acolhido pelos novos colegas de clube.

“No grupo tinha exatamente essa expectativa de como seria, as pessoas não o conheciam. Mas pela simplicidade dele e pela forma como ele se portava, rapidamente quebrou-se qualquer tipo de barreira que pudesse existir, tamanha a representatividade dele, mundial. E isso foi fundamental para que não houvesse nenhum tipo de receio em conversar com ele, em entender como ele preferia jogar e receber a bola, enfim, essas situações todas que são importantes dentro de um esporte coletivo. Para um entender o outro, precisa de uma abertura. E o Ronaldo fez isso com muita sabedoria, e obviamente foi benéfico para todos. Para o Corinthians, para o elenco e para ele mesmo” – relata William.

SEM FAVORITISMO

A presença de Ronaldo colocava o Corinthians entre os favoritos a conquistar títulos naquele ano? William garante que não: “A gente não se via como favorito, mas a gente também não se colocava como azarão. A gente acreditava que tinha potencial para enfrentar os grandes de igual para igual, mas obviamente a gente tinha muito pé no chão”. No caminho até a decisão, o Corinthians passou por Misto-MS, Athletico Paranaense, Fluminense e Vasco.

Foi contra o Furacão, em Curitiba, no primeiro jogo das oitavas de final, um dos momentos mais marcantes da campanha alvinegra. O Athletico Paranaense vencia por 3×0 até os 41 minutos do segundo tempo, praticamente decidindo o duelo pela vaga. A capacidade de reação do Corinthians, que fez dois gols nos últimos minutos de jogo e conseguiu perder apenas por um gol de diferença, mostrou que o Timão era candidato ao título.

“No primeiro jogo eu estava lesionado mas fui para lá, viajei com time pois era grande a seriedade com que a gente encarava aquele jogo. A gente começou perdendo de 3×0, por muito pouco a gente não era eliminado pelo Athletico Paranaense, mas o time teve um poder de reação muito grande e conseguiu buscar o 3×2. A gente perdeu, mas diminuiu bem a diferença para poder chegar ao Pacaembu e conseguir a classificação. Mas ali foi o momento muito emblemático, de conseguir buscar essa redução no placar” – lembra-se William. Na partida de volta, o Corinthians venceu por 2×0 no Pacaembu, com dois gols de Ronaldo que garantiram a classificação à fase seguinte.

“PÕE NO DVD”

A decisão do título, contra o Internacional, reacendeu uma rivalidade surgida em 2005, quando alvinegros e colorados polarizaram a disputa pelo troféu do Brasileirão. O título ficou com o Corinthians, sob protestos dos gaúchos que reclamaram a não marcação de um pênalti em Tinga no confronto direto entre as duas equipes. Aquele campeonato também ficou marcado pela descoberta de um esquema de manipulação de resultados e a anulação de 11 jogos que precisaram ser disputados novamente.

Quando Corinthians e Inter confirmaram a classificação à final da Copa do Brasil de 2009, o então vice-presidente de futebol colorado, Fernando Carvalho, encaminhou à CBF um DVD com a compilação de erros de arbitragem a favor dos alvinegros. Até hoje a torcida corinthiana se lembra do episódio, e a frase “põe no DVD” é repetida a cada vez que o Corinthians vence os gaúchos. Se hoje a torcida alvinegra se lembra do episódio em tom de brincadeira, à época o gesto do dirigente do Inter não repercutiu bem no elenco do Timão.

William afirma que a atitude do ex-vice-presente do Internacional desmereceu a capacidade do Corinthians de chegar à decisão. O Capita pondera ainda que erros de arbitragem acontecem com todas as equipes; eventualmente favorecendo, mas, em outros momentos, prejudicando. “Aquele elenco em nada tinha a ver com o episódio e o campeonato de 2005. A gente não tinha nada a ver com aquela situação e a gente entrou mais disposto a mostrar que a gente tinha capacidade de vencer pela nossa qualidade, como aconteceu de fato naquela conquista. Erros acontecem, ainda com o VAR vão acontecer, mas a gente não levou que era uma situação benéfica para o Corinthians, assim como em 2008 a gente perdeu e tem lances que a gente pode também falar que prejudicaram o Corinthians” – declarou o ex-zagueiro.

Empate em 2x2 com o Inter no Beira-Rio garante o título da Copa do Brasil para o Corinthians

TOCHA HUMANA

Dentro de campo, o Corinthians venceu o Inter por 2×0 na primeira partida. O empate em 2×2 no jogo de volta garantiu o terceiro título da Copa do Brasil para a equipe paulista. Foi o segundo troféu que William levantou em 2009, cerca de dois meses antes o Paulistão já tinha sido conquistado de forma invicta.

Em chamas!

O título estadual rendeu ao Capita o apelido de “Tocha Humana”, pois durante a cerimônia de premiação, enquanto o zagueiro erguia a taça, o troféu pegou fogo: “Foi um acidente que aconteceu felizmente sem maiores vítimas, em que pese a taça ter caído no meu pé e quebrado meu dedo mindinho. Fiquei 15 dias sem puder atuar, mas foi um mal menor e felizmente não aconteceu nada muito mais sério, e a brincadeira acabou acontecendo por causa disso”.

CENTENÁRIO

As taças de 2009 aumentaram a expectativa para o ano seguinte, quando o Corinthians celebrou 100 anos de existência. Mesmo com as boas campanhas no Brasileirão e na Libertadores, o Centenário alvinegro ficou marcado pela ausência de títulos. William anunciou a aposentadoria dos gramados ao final do Brasileirão.

Embora admita a decepção por não ter sido campeão no último ano dentro dos gramados, o ex-zagueiro ressalta o orgulho que tem de toda a sua carreira como atleta: “Eu olhei toda minha trajetória no futebol e fui uma pessoa privilegiada e abençoada, por ter chegado a uma equipe grande, o Grêmio, aos 29 anos. É raro ter o sucesso que tive lá, e depois o sucesso que tive no Corinthians é mais raro ainda”.

Os títulos do Paulistão e da Copa do Brasil seriam os únicos de Ronaldo com a camisa do Corinthians, e as duas últimas conquistas de uma carreira que também inclui duas Copas do Mundo e três Bolas de Ouro de melhor jogador do mundo. A reportagem do Torcedores tentou ouvir o Fenômeno, mas sua assessoria não respondeu os pedidos de entrevista.

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