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A chocante relação entre games violentos e sexo

Há muita pesquisa – e controvérsia – sobre os efeitos de se jogar games violentos. Mas, estranhamente, há muito pouco sobre o porquê das pessoas optarem por jogos violentos.

Marcelo Faviere
Marcelo Faviere é formado em Comunicação Social: Jornalismo pela UAM. Fundador dos portais Insônia Pop (2012 a 2015) e Excêntrico Psicopata (2015 a 2016). Analista tático do Futebol na Veia (2016) e SCCP Scouts (2018). Entrou para a equipe de colaboradores do Torcedores em fevereiro de 2018, onde escrevia artigos, notícias e produzia entrevistas com personagens do cenário gamer e de e-Sports (esportes eletrônicos) no Brasil e no mundo. Saiu em dezembro do mesmo ano para adentrar o mundo corporativo. Neste meio tempo participou da equipe de colunistas do site de automobilismo Boletim do Paddock (2018). Atualmente está de volta ao Torcedores.com, onde começou a sua carreira de jornalista de games.

Crédito: Arte: Marcelo Faviere/Pexels

Então, o Torcedores.com decidiu investigar essa questão. O que descobrimos não apenas desafiou o estereótipo de que apenas os homens gostam de jogos violentos, mas também revelou algo mais inesperado: a motivação para jogar games violentos está intimamente ligada ao desejo sexual das pessoas. Mais uma polêmica.

Como já dissera em “Trip“, Paula Romano, ‘os videogames sempre foram alvo de polêmica’. Afinal, chovem acusações de racismo, violência, sexismo ou sexualização de personagens. Vez ou outra aparece algo para levantar o debate sobre o tema. Algo saudável, tendo em vista a liberdade de expressão. No entanto, o que cada vez mais tem se tornado evidente é que a indústria de videogames não se permite ser submetida ao politicamente correto – outro atestado positivo. Isto posto, vamos entender um pouco sobre essa incestuosa relação entre sexo/nudez e games violentos.

Observação: essa matéria tem como objetivo único levantar o debate acerca do tema.

Sexo e games: uma história de amor e ódio

Inicialmente, o sexo e a nudez surgiriam de forma provocativa; em Gotcha (1973), um jogo de fliperama lançado pela Atari Inc., os controles eram formados por duas saliências redondas e rosas, de tal forma que representassem os seios femininos. Deu a maior confusão. Isso teria sido, em parte, uma resposta aos controles tradicionais utilizados à época, associados a sexo devido ao seu formato fálico. Seja como for, o episódio foi o ‘start’ do erotismo nos jogos.

Atualmente, enquanto muitos jogos utilizam imagens ou personagens seminuas, alguns vão além ao mostrar atos sexuais ou nudez seja como motivação de personagens, seja como um “prêmio” ou mesmo como um elemento da jogabilidade. Tais jogos são criados em qualquer parte do mundo e pode ser encontrado em todo tipo de gênero e plataformas. Lançamentos de jogos como esses ocorrem ocasionalmente na Europa e América do Norte, enquanto que no Japão, existe um subgênero para jogos pornográficos, chamado de eroge.

games violentos e a relação com o sexo

Gotcha causou polêmica e iniciou a era do ‘sexo nos games’. (Foto: Atari)

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Assim, nós fomos atrás de algumas pesquisas e artigos científicos que pudessem explicar um pouco sobre a ligação entre jogos e sexo. De início reparamos que praticamente todas as pesquisas que foram realizadas dentro e ao redor de videogames têm sido exclusivamente focadas nos efeitos de jogos violentos, mas estranhamente tem sido feita pouca investigação sobre porque as pessoas gostam deste tipo de jogo.

Pesquisa tenta quebrar estereótipos sobre o mundo gamer

Dessa maneira, quatro pesquisadores australianos fizeram essa conexão e começaram a investigar exatamente por que gostamos de tantos jogos brutais e sangrentos. Ao passo que pesquisavam, os australianos se depararam com novas descobertas a cerca dos gêneros e sua preferência gamer.

É importante salientar que os jogos ainda são repletos de estereótipos – apesar dos estúdios terem conhecimento desta realidade. Muito disso por conta da forte resistência encontrada em boa parte do público gamer a estas mudanças.

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O gênero dos protagonistas dos jogos em destaque na E3 2018. (Foto: Feminist Frequency)

Sendo assim, a dupla científica achava que essa visão dos jogadores era um excelente exemplo de como os estereótipos distorcem nossa percepção das diferenças psicológicas entre os sexos. Para descobrir se o gênero é realmente o melhor determinante do que as pessoas jogam, eles sentiram que tinham que ir além dos estereótipos padronizados da violência nos jogos.

A visão sobre games violentos entre homens e mulheres

Para realizar o trabalho, o cientista evolucionário Michael Kasumovic e Tom Denson, professor associado de psicologia da USW, entrevistaram 500 homens e mulheres estadunidenses adultos que se consideram gamers. Os estudiosos inicialmente pediram que cada candidato indicasse os cinco games que jogaram mais recentemente e explicassem quão violentos acharam que esses títulos eram.

A princípio os homens seriam tidos pela maioria dos leitores como os mais propensos aos jogos violentos. Contudo, os resultados mostravam o contrário.

Embora os homens realmente tenham demonstrado gostar mais de jogos cheios de violência do que as mulheres, Kasumovic e Denson revelam que a diferença entre os sexos não foi tão grande quanto os estereótipos costumam sugerir. Logo abaixo você pode conferir o que eles observaram:

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Arte: Marcelo Faviere

Talvez a ‘luta por igualdade de gênero’ esteja tomando conta do mundo gamer, bem como ocorrera no futebol feminino.

Quebrando estereótipos

Após os resultados acima, os cientistas fizeram perguntas para medir o interesse de cada participante por relações sexuais (sexo) e pediram que os voluntários avaliassem seu valor como parceiro(a). Estas foram as perguntas:

  • Qual o grau de importância do sexo na sua vida?
  • Qual a frequência com que faz sexo?
  • Você aprova o sexo casual? Se sim, já fez?
  • Você seria um bom parceiro(a)?

Os resultados:

O que descobrimos é que o desejo sexual está relacionado ao ato de jogar games violentos. Tanto os homens quanto as mulheres que disseram ser mais interessados por sexo costumam se divertir mais com títulos do tipo. Mas o mais interessante foi o que vimos quando olhamos para o ‘valor como parceiro”, explicaram os pesquisadores no estudo.

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Mesmo que os cientistas não tenham encontrado qualquer relação entre a quantidade de games violentos que os homens jogam e a forma como pensam de si mesmos como namorados em potencial, o mesmo não pode ser dito das mulheres. Segundo Kasumovic e Denson, a relação entre os dois fatores foi forte no sexo feminino, com as participantes que curtem títulos violentos claramente se considerando “partidos melhores” do que as que preferem outros tipos de jogos.

A fim de confirmar o veredito, os cientistas repetiram a pesquisa com outros 500 participantes e aproveitaram para pedir que os voluntários avaliassem o quanto as jogatinas fazem com que se sintam fortes, atraentes e sensuais.

Parece que as mulheres eram levadas aos games porque isso melhorava a percepção de si mesmas como parceiras românticas de alta qualidade”, afirmam os estudiosos.

Como a evolução humana explica a relação entre games violentos e o sexo

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Charge sobre a “evolução humana e os games”. (Foto: Two Player Comics)

De acordo com os estudiosos, o achado faz sentido do ponto de vista evolutivo, já que, assim como qualquer animal, as pessoas que conseguiam competir melhor para conseguir suprimentos e parceiros acabavam tendo mais filhos. Dessa forma, aqueles que desejam ter acesso a uma variedade maior de pretendentes precisam ser competitivas o suficiente para ter acesso a eles.

Como acontece no mundo animal, na época de nossos ancestrais, aqueles que eram mais bem-sucedidos em competir, garantir recursos naturais e proteger seus parceiros faziam mais sexo“.

O mesmo se dá para mulheres que tentam se provar ‘bons partidos’ aos companheiros:

Então, os jogos violentos podem estar ativando alguma inclinação ancestral para comportamentos competitivos que servem para provarem seus próprios valores como companheiras”, desenvolve o estudo.

Como os games do tipo costumam proporcionar uma arena virtual que permite que homens e mulheres possam competir de igual para igual, Kasumovic e Denson nomearam seu achado de “hipótese da prática de dominância”.

Por que o mundo gamer é tóxico com mulheres?

Um outro estudo, divulgado pelo Washington Post, e realizado pelo mesmo Michael Kasumovic e Jeffrey Kuznekoff, analisou como homens tratavam mulheres durante 163 partidas de Halo 3.

Observando os jogos, eles perceberam que homens costumam ser cordiais entre eles. Homens que são bons no jogo inclusive tendem a elogiar outros jogadores, sendo eles homens ou mulheres. Alguns jogadores, geralmente os “noobs” (ruins), fazem frequentemente comentários ofensivos para jogadoras do sexo feminino. Em outras palavras, estes seriam literalmente perdedores (sentido norte-americano).

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Reprodução: Luiza Meira/Medium

Por fim, estes foram os resultados constatados na pesquisa:

  • A maioria das pesquisas não explora os motivos para o sucesso dos jogos violentos.
  • Homens e mulheres que jogam títulos mais violentos tem maior interesse sexual.
  • As mulheres que jogam games violentos se sentem mais sexy e atrativas do que as outras.
  • Homens com atitudes tóxicas com mulheres tendem a ser noobs.

Agora diga pra gente o que achou dos resultados.

Referências:

HARRYSON, Elwér S M et al. (2013) Patterns of gender equality at workplaces and psychological distress. PloS one 8: e53246. pmid:23326404

Disponível em: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0053246 Acesso em: 27 jun. 2019.

KASUMOVIC, Michael M et al. Why do people play violent video games? Demographic, status-related, and mating-related correlates in men and women. Science Direct, Australia, 18 jun. 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0191886915003992. Acesso em: 27 jun. 2019.

KASUMOVIC, Michael M, Kuznekoff JH (2015)  Insights into Sexism: Male Status and Performance Moderates Female-Directed Hostile and Amicable Behaviour. PLOS ONE 10(7): e0131613. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0131613    Acesso em: 27 jun. 2019.

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