Com gol de título e comemoração-saci, ex-volante cita ano da “reviravolta” no Inter e lamenta: “Só queria ter ficado”

Reportagem do Torcedores.com conversou com o ex-volante Flavio, peça importante e central no time titular do Inter de 2003. Time que, segundo ele, representou a virada de chave que o clube, à época, tanto precisava.

Eduardo Caspary
Jornalista formado pela PUCRS em agosto de 2014. Dupla Gre-Nal.

Crédito: Foto: Reprodução/Facebook - Flavio Luis

Com um pé só, Flavio sai pulando com sorriso de orelha a orelha após estufar as redes do XV de Novembro. Ao imitar o saci justo no gol que representou o bicampeonato gaúcho em 2003, sob olhar atento de mais de 40 mil pessoas no Beira-Rio, o volante brindava a torcida do Inter com a lembrança do mascote e mostrava que futebol não faltaria para criar uma longa trajetória vitoriosa no clube.

Só que não foi bem assim. Até hoje, o ex-jogador lamenta não ter ficado mais tempo no Beira-Rio e se frustra por lembrar o quanto a falta de acerto entre Palmeiras e o seu empresário da época, Juan Figer, atrasou a própria carreira. Seu desejo, exposto de forma veemente em entrevista exclusiva ao Torcedores.com, era um só: ficar no Inter em 2004 e, quem sabe, replicar mais vezes o saci em comemorações de gols.

Reportagem da RBSTV contou como foi o título gaúcho do Inter sobre o XV:

Quer saber quem chega e quem sai dos clubes do Brasil e do mundo?

 

Como estava emprestado pelo clube paulista, em uma época que o colorado raramente tinha condições de comprar jogadores, Flavio viveu só 2003 em Porto Alegre.

Mas nunca mais esqueceu.

Em um longo e sincero bate-papo com a reportagem, Flavio voltou no tempo e reviveu a temporada de 2003 sob os mais variados aspectos: a convivência com jovens talentos como Daniel Carvalho e Nilmar, a adaptação ao jeito “durão” de Muricy Ramalho, a quebra do tabu de quatro anos e 13 Gre-Nais sem vencer e a certeza de que foi aquele grupo, há exatos 16 anos, que pavimentou o caminho para os grandes títulos que viriam logo em seguida.

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Torcedores.com: Flavio, qual a sua principal lembrança do Inter e como foi a emoção de ter feito o gol do título gaúcho de 2003?

Flavio: Na verdade, eu tenho duas lembranças muito boas vinculadas ao Internacional. O gol do título do Gauchão, claro, contra o XV de Novembro, que nos deu aquele título no Beira-Rio, o bicampeonato. Mas também eu lembro com carinho de um gol que eu fiz contra o Coritiba, no Couto Pereira, de falta, pelo Brasileirão daquele ano. Lembro bem porque caiu bem no aniversário do Inter e vencemos por 1×0. São essas duas boas lembranças que eu guardo de 2003 daquele time que formamos.

Em termos de emoção, não tem explicação você fazer um gol numa final. Um clube tão grande como o Inter, entendeu? Você fica marcado na história. Foi uma emoção enorme que eu guardo e vou guardar para sempre. A felicidade de ter feito esse gol do título, do bicampeonato gaúcho, foi enorme. Inclusive até a comemoração minha nesse gol foi imitando o saci, que é o mascote do clube. É emocionante ter seu nome gravado na história de um clube como o Inter.

T: Aquele time tinha muitos garotos como Diego, Daniel Carvalho, Nilmar… como era a convivência com eles?

F: Diego, Daniel, Nilmar, Ismael… e tinha tantos outros de muita qualidade. O próprio Edinho que subiu, o Sobis que estava no processo de transição pro profissional. A convivência que eu tinha com eles era a melhor possível. Cleiton Xavier também, um garoto na época. As melhores lembranças que eu tenho é que eu participava até das brincadeiras com esses garotos. Concentrava com eles, participava das brincadeiras de video-game, etc, sempre com os garotos. Felicidade enorme para mim ter participado do processo deles de amadurecimento, de crescimento no clube e ver que depois eles conseguiram triunfar também em outros grandes clubes, além da sequência que tiveram no Inter.

T: Você se deu bem com o técnico da época, o Muricy Ramalho? Ele já tinha aquele jeito de “durão”?

F: Com o Muricy, na realidade, eu tive alguns probleminhas no início, sim. Aconteceu de eu chegar no clube só depois da pré-temporada que já havia sido feita naquele início de ano, então eu não estava tão bem fisicamente. Mas logo depois eu vi que o perfil do Muricy se encaixaria no meu estilo de jogo e ele gostava. Eu era um volante de muita qualidade, modéstia à parte. Mas eu gostava de chegar à frente e como ele jogava com três zagueiros, eu tinha essa facilidade para ajudar os meias e os atacantes. Por isso eu consegui fazer muitos gols em 2003. Então a minha convivência com ele era boa e até hoje é assim. Foi um dos melhores técnicos da minha carreira.

Muricy Ramalho trabalhou de 2003 a 2005 no Inter, com uma pequena saída ao São Caetano em 2004 – Foto: Site oficial – Inter

T: No início daquele ano, no Gauchão, dentro do Olímpico, vocês quebraram um jejum de quatro anos e 13 clássicos sem vitórias do Inter em Gre-Nais. Você iniciou como titular aquele jogo. O que lembra daquela tarde?

F: Me lembro muito bem, até porque foi o meu primeiro Gre-Nal. O Grêmio vinha de uma grande sequência de vitórias sobre o Inter. A gente sabe bem como é a rivalidade no Sul. Mesmo quem estava chegando naquele ano, como eu, já tinha a pressão de ter que quebrar esse tabu. Eu lembro bem. Fizemos um primeiro tempo não tão bom nesse jogo, mas era um dia que o Daniel Carvalho estava muito feliz. Inspirado. Ele fez um lindo gol. Foi muita pressão em cima do nosso time, vínhamos daquele 2002 que o Inter brigou para não cair e ainda tinha o fato de estar há tanto tempo sem ganhar do Grêmio. Fomos para esse jogo muito pressionados. Mas nossa torcida compareceu em peso no Olímpico e em cima da qualidade do elenco que foi formado, quebramos o tabu. Fui substituído, até porque como eu falei, cheguei depois da pré-temporada e não estava bem fisicamente. Entrou o Cleiton Xavier no meu lugar. Mas foi importante, porque após essa partida a torcida começou a nos apoiar ainda mais e ver que o time tinha tudo para dar alegrias no ano.

T: No Rio Grande do Sul, muitos dizem que aquele time de 2003 “iniciou” todo o processo para fazer o Inter ganhar a Libertadores e o Mundial em 2006. Você concorda?

F: Se a gente for lembrar, em 2002 o Inter teve aquele jogo que ficou marcado contra o Paysandu pela briga para não cair. Último jogo do Brasileirão. Então, eu acredito muito que essa recuperação se deve ao fato de o Inter ter apostado em muitos jovens jogadores mesclando com outros mais experientes. Apostando na base e depois até vendendo alguns deles, dando maior estabilidade financeira para o clube. Eu acredito muito que esse ano de 2003 fez o Inter voltar a brigar. Havia muitos anos que o clube não chegava e nesse ano fomos até a última rodada lutando para entrar na Libertadores. Não conseguimos entrar, mas foi mantida a base para o ano seguinte de 2004 e a partir daí começou a briga constante por títulos e por Libertadores. Aquele grupo iniciou a volta por cima do gigante que é o Inter. Concordo plenamente que o time de 2003 iniciou a reviravolta do Inter no cenário brasileiro e também mundial.

Nota da redação: comandado por Muricy Ramalho, o Inter foi campeão gaúcho em 2003 e brigou até a última rodada do Brasileirão – o primeiro do sistema de pontos corridos – para entrar na Libertadores de 2004, mas uma derrota por 5×0 para o São Caetano, fora de casa, na última partida, deixou o clube de fora do torneio continental.

T: Por que você acabou não ficando no Inter em 2004?

F: A minha maior vontade era ter ficado no Inter, cara. Eu briguei com o empresário, que era o Juan Figer, na época. Porque o Fernando Carvalho, que era o nosso presidente, já tinha falado pra mim que queria que eu permanecesse. Eu era do Palmeiras e estava emprestado, então não dependia só de mim. Dependia do Figer, dependia do Palmeiras… mas a minha intenção sempre foi ficar no clube. Queria dar sequência. Fui prejudicado até em termos de carreira por não ter ficado no Inter. Fiz um ano maravilhoso em 2003, sendo um dos artilheiros do time, com sequência boa. Voltei para o Palmeiras, não por vontade de minha. Olhando pra trás, eu repito pra você, a minha maior vontade era ter ficado no Internacional. Inclusive no ano seguinte acabei brigando no Palmeiras, porque eu não queria ficar. Eu deveria ter feito mais história no Inter, até porque meu 2003 foi maravilhoso. Se tivessem me deixado ter essa sequência, eu teria ficado marcado na história do clube.

Volante Flavio comemora gol de pênalti contra o Cruzeiro no Beira-Rio, em 2003, pelo Brasileirão – Foto: Arquivo – Pinterest

T: Para finalizar, você ainda tem acompanhado o Inter atual? Acredita que possa vir um grande título esse ano?

F: Sempre que possível eu assisto aos jogos do Inter, até porque hoje eu trabalho como empresário de atletas e isso me obriga a estar sempre acompanhando. Não que seja só por isso. Eu tenho mesmo um carinho enorme pelo Inter. Por tudo que fiz parte naquele ano. Quando posso, acompanho. Gostaria muito de um dia poder voltar ao Beira-Rio, quem sabe assistir algum jogo. Poder levar minha família, a minha filha não chegou a pegar essa parte da minha carreira no Inter. Poder mostrar pra ela que eu fiz parte do crescimento do clube. E eu acredito muito que esse ano o Inter vai brigar por um título de grande expressão. Vejo que o time aprendeu muito com a queda para a segunda divisão e vem, hoje, da mesma forma como o Corinthians aprendeu quando caiu em 2007. E quando voltou, ganhou tudo e até o Mundial. Vejo o Inter nesse caminho, brigando quem sabe por uma Libertadores ou conquistar um desses títulos importantes.

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