Levir Culpi relembra sua relação profunda com Minas e as conquistas da Copa do Brasil com Cruzeiro e Galo

No início do mês de maio, o treinador Levir Culpi participou do programa “Bem, Amigos”, do canal SporTV, e polemizou ao dizer que o argentino Jorge Sampaoli, que atualmente dirige o Santos, será o próximo comandante da Seleção Brasileira. A declaração do técnico brasileiro foi uma forma de ironizar a imprensa brasileira, que, na visão do treinador, valoriza mais os técnicos estrangeiros do que os brasileiros.  Levir também questionou o fato de a maioria dos últimos treinadores da seleção brasileira serem gaúchos. “Eles sabem se impor com trabalho e são corporativistas”, disparou.

Daniel Helvécio
Jornalista com passagens pela Rede Minas, canal GNT e agências de comunição. Apaixonado por futebol, cultura e música, já entrevistou diversos artistas da música brasileira, como Wando, Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. Acredita que o jogo entre quatro linhas é a principal expressão cultural do homem contemporâneo.

Crédito: Bruno Cantini

Toda essa polêmica causou uma série de críticas da opinião pública ao profissional. Questões que, de certa forma, interferiram na imagem construída pelo treinador desde quando voltou do Japão, em 2014, para comandar o Atlético. Independentemente disso, não pode ser apagada a bela história do Levir no futebol. Um personagem singular, vencedor, que sempre foi reconhecido por ser um cara franco, legal e honesto.

Levir Culpi costuma dizer que nunca trabalhou na vida e se considera um homem de sorte por fazer o que mais gosta. Desde 2014, o técnico Levir Culpi chamava a atenção pelo humor, pela leveza aparente que encara a vida, pela defesa da empatia (a capacidade de se colocar no lugar do outro) e também pelas opiniões contundentes sobre ética e honestidade. Sempre que pode compara a realidade social e cultural do Brasil com a do Japão, país asiático, de primeiro mundo, reconhecido por investir muito em educação, que o profissional aprendeu a admirar.

Em um país onde é comum os clubes atrasarem salários, Levir é adepto ao cumprimento total do acordo feito entre os clubes e profissionais, mesmo que isso resultasse na não contratação de jogadores consagrados pelo seu time, postura rara entre os grandes treinadores.

Outra característica que marcou a carreira do treinador foi a capacidade de montar equipes ofensivas e que jogavam um futebol bonito, com toque de bola e velocidade. Mas recentemente foi demitido do Atlético por não ter conseguido fazer com que a equipe jogasse um futebol consistente.

Relação com Minas Gerais

Nascido em Curitiba e com passagens como treinador por mais de 20 clubes do Brasil, Japão e Arábia, é incontestável a relação profunda que Levir Culpi construiu com o futebol mineiro. Não por acaso, Minas Gerais é o estado brasileiro onde ele mais atuou. Em três oportunidades foi técnico do Cruzeiro e por cinco vezes treinou o Galo. E nessa história dele com Minas existe um personagem fundamental: a Copa do Brasil.

Levir Culpi é junto com Renato Gaúcho o terceiro treinador com mais títulos do torneio. São duas conquistas: uma com o Cruzeiro (1996) e outra com o Atlético (2014). E mais: Levir é o único treinador a vencer a Copa do Brasil com dois clubes do mesmo estado, que protagonizam uma das maiores rivalidades do país. Um fato inédito na história do torneio que pode ser explicado pelo respeito que o técnico sempre cultivou pelos adversários ao longo de sua carreira, independentemente do clube onde trabalha.

Ida à Toca da Raposa

Em janeiro de 1996, Levir chegava para treinar pela primeira vez o Cruzeiro. Na oportunidade, o clube concretizou uma negociação ousada com o São Paulo. Pelas aquisições do lateral esquerdo Serginho e do volante Belletti que jogavam na equipe mineira, o clube paulista mandou em definitivo cinco atletas: Vitor (lateral direito), Gilmar (zagueiro), Donizete (volante), Palhinha (meia) e Ailton (atacante), além de emprestar por uma temporada o lateral esquerdo Ronaldo Luiz. O clube mineiro também adquiriu o meia Uéslei que veio do Flamengo. Com isso, o Cruzeiro montou um elenco competitivo. Além dos reforços, o Cruzeiro do Levir contava também com importantes nomes: Dida, Gelson Baresi, Célio Lúcio, Nonato, Fabinho, Ricardinho, Cleisson, Roberto Gaúcho, Marcelo Ramos, entre outros.

“A gente corria muito pelo Levir. Particularmente, ele me ajudou muito na parte tática e treinava muito comigo finalização. Levir conseguia tirar o máximo que o jogador tinha. Montou um time de toque bola e rápido. Era um cara direto, que dificilmente tinha problema com o nosso grupo. Ele era um cara muito leal. Escutava bastante a gente e dava liberdade para opinar tanto na parte tática e quanto na técnica. Um profissional aberto. Um verdadeiro líder. E isso refletia dentro de campo”, comenta Marcelo Ramos, o centroavante do Cruzeiro na campanha da Copa do Brasil de 1996.

“Eu gosto de abrir o diálogo com os jogadores. Saber até onde eles chegam, saber até onde eles podem me questionar e saber até que ponto posso mudar de ideia. Então, eu gosto de jogadores que não só escutam o técnico, mas que me questionam. Claro, dentro do ambiente necessário e que não seja nada em público para expor ninguém. Eu já cometi algumas gafes. Já falei bobagem com jogador, mas, por exemplo, sempre tomo cuidado para não ofender um atleta na beira do campo”, explica Levir Culpi.

Contrariando a opinião pública

Durante a campanha da Copa do Brasil, no primeiro semestre de 1996, o time mineiro eliminou Juventus-AC, Vasco, Corinthians e Flamengo. Até que na final enfrentou o badaladíssimo Palmeiras.  Comandado por Vanderlei Luxemburgo, o time alviverde era uma máquina e contava com grandes craques, como Cafú, Júnior, Rivaldo, Djalminha, Müller e Luisão. Para se ter ideia, no campeonato paulista do mesmo ano, a equipe paulista marcou 102 gols em 30 partidas disputadas e teve o aproveitamento de 92%. E chegou à final da Copa do Brasil contra o Cruzeiro sem passar grandes sustos, a não ser na disputada semifinal contra o Grêmio de Luiz Felipe Scolari.

Na época, pelos números da temporada e pelo futebol apresentado, o Palmeiras era considerado pela imprensa esportiva o franco favorito na final. Mas dentro de campo o que se viu não foi tanta diferença. A primeira partida do confronto, no Mineirão, o resultado foi 1 x 1. E contrariando a maioria das previsões, e numa noite inspirada de Dida, que operou verdadeiros milagres ao realizar defesas impossíveis, o jogo da final, no Parque Antártica, terminou 2 x 1 para o Cruzeiro. “As duas partidas foram dramáticas. E emoção define o que foi o jogo final. No final lembro das cambalhotas que o presidente Zezé Perrella deu no campo do Parque Antártica. Parecia uma criança”, brinca Levir.

“O que valorizou muito o título do Cruzeiro foi todo mundo já colocar o Palmeiras como campeão. É claro que os jogadores do Palmeiras não desrespeitaram a gente em momento algum, mas o que ficou marcado foi a nossa superação. Sabíamos da capacidade do nosso elenco e do nosso treinador. Foi um título que mudou a história de muita gente em todos os sentidos por causa da valorização e da dificuldade”, relembra Marcelo, autor do gol que deu a Copa do Brasil de 1996 ao Cruzeiro.

Além da preparação durante a temporada, segundo alguns jogadores do Cruzeiro, teve um fato na preleção do último jogo protagonizado pelo capitão Nonato que foi significativo para que o título viesse. “A gente teve uma conversa no Hotel. Teve a palestra do Levir, uma fala do Zezé, presidente, e depois eu falei. Fui perguntando jogador por jogador. Dida, você se julga pior que o Velloso? Vitor, lateral direito, você é pior que o Cafú? Então, no final eu disse: vamos jogar porque o jogo é decisivo dentro de campo. E, na realidade, se analisarmos friamente, o favoritismo do Palmeiras era mais pela campanha que fez no Campeonato Paulista. Em termos individuais, comparando peça a peça, o nível não era muito diferente”, conta Nonato.

Quarta passagem pelo alvinegro

Levir Culpi está na história do Atlético como o terceiro técnico com mais jogos pelo clube. Atrás apenas de Telê Santana e Procópio Cardoso, o treinador curitibano tem 320 partidas pelo clube mineiro. Mais que um número expressivo, fez ótimos trabalhos, como nos títulos estaduais de 1995 e 2007, na conquista da Série B de 2006 e nas idas até as semifinais das edições do Campeonato Brasileiro de 1994 e 2001.

Em abril de 2014, o presidente do Galo era Alexandre Kalil, que viu em Levir o profissional capaz de retomar o caminho vencedor trilhado pelo técnico Cuca e que o treinador Paulo Autuori, que esteve somente quatro meses no cargo, não conseguiu manter. Levir, depois de sete anos no futebol japonês, iniciava a sua quarta passagem pelo Galo e chegando com a missão de treinar a base do elenco campeão da Libertadores 2013 com Ronaldinho, Diego Tardelli, Jô, Réver, Leonardo Silva, Victor, Marcos Rocha, Josué, Pierre, Leandro Donizete, entre outros grandes jogadores.

O começo do trabalho foi conflituoso. Logo de cara, Levir bateu de frente com Ronaldinho e Tardelli, cobrando publicamente melhor rendimento dos atletas que naquela temporada estavam devendo futebol. Ronaldinho, apesar do o título da Recopa Sul-Americana, acabou indo embora em julho. Já o Tardelli continuou no clube, recuperou o bom futebol e foi um dos protagonistas de 2014.

Dentro de campo também aconteceram mudanças. Alguns atletas importantes chegaram: Douglas Santos (lateral esquerdo), Rafael Carioca (volante) e Maicosuel (meia). Além disso, Dátolo (meia), Luan (meia) e Jemerson (zagueiro), até então reservas, se transformaram em peças fundamentais do time titular montado pelo técnico alvinegro.

Um dos líderes do elenco, o goleiro Victor relembra a forma como o treinador alvinegro privilegiava o ataque: “Uma das características mais marcantes foi a ousadia que a nossa equipe jogava. Em algumas situações praticamente jogávamos sem nenhum volante de marcação, com o Dátolo de primeiro volante. Isso demonstra a ousadia e o espírito ofensivo que o Levir tem. Treinador de time grande precisa ter essa coragem. E o Levir montava um time ofensivo, mas sem desguarnecer defensivamente, com equilíbrio, e, às vezes, jogando com seis jogadores de ataque”.

O raio caiu duas vezes no mesmo lugar

O Galo iniciou a campanha na Copa do Brasil contra o Palmeiras pelas oitavas de final. O confronto foi fácil para o time mineiro. Duas vitórias incontestáveis. A primeira por 1 x 0, em São Paulo, e a segunda por 2 x 0, em Belo Horizonte.

Até que vieram as quartas e semifinal protagonizadas por histórias que praticamente se repetiram. A primeira disputa foi contra Corinthians. A primeira partida ficou 2 x 0 para o time paulista. Mas o jogo de volta foi uma virada totalmente inesperada. Aos 4 minutos, o Corinthians aumentou a vantagem para 3 gols de diferença. Com isso, o Galo precisava fazer quatro gols. A partir daí iniciou-se uma reviravolta espetacular.  Com muita garra, o Atlético fez aquilo que provavelmente só os mais fanáticos acreditavam. A partir dos 23 minutos do primeiro tempo o 4 x 1 começou a ser construído. Primeiro com Luan, depois com o Guilherme por duas vezes e Edcarlos fechando o placar e dando a classificação para o Galo. Uma virada rara e inesquecível.

“Esse momento (o gol) não foi sorte. Primeiro foi a mão de Deus e depois o meu ombro. Eu tentei fazer o movimento para cabecear. A bola passou, bateu na cabeça do Guerrero, voltou novamente e resvalou no meu ombro. Ainda acompanhei. Esperei o rebote, mas a bola bateu na trave e entrou”, descreve Edcarlos, que naquela noite foi capitão do Galo.

Já a semifinal contra o Flamengo foi outro confronto de pura superação, quase idêntico às quartas. 2 x 0 para o Flamengo na primeira partida. E o segundo jogo foi novamente uma virada do Galo por 4 x 1. Mais uma noite incrível que marcou o torcedor alvinegro.  “Foi um êxtase. Estado de embriaguez total. Lembro-me que, dentro do campo, no final do jogo, as pessoas corriam e abraçavam o primeiro que encontravam”, neste momento da entrevista, Levir fica com os olhos cheios de lágrima. “É emotivo e não consigo lembrar sem curtir. Inexplicável. Só quem estava ali sentiu aquele momento. Foi muito bom. E fico pensando: será que vou viver tudo isso outra vez”? E o treinador brinca: “Eu não sei até quando vai isso. Já passei dos 60 anos. Necessito de paz. Não preciso de tanta emoção assim. Por isso eu agradeço aos Deus do Futebol por ter tido a oportunidade de participar desses jogos. É um negócio emocionante e fez valer a pena”.

Final mineira

Na última fase, o Galo encarou nada mais nada menos que o maior rival, o Cruzeiro que, na época, estava sendo campeão brasileiro. Para este confronto, o técnico Levir fez um trabalho específico ao priorizar as finais, colocando jogadores reservas nos jogos do Brasileiro realizados paralelamente.

A primeira partida foi a construção de uma vantagem significativa para uma final. O Galo venceu por 2 x 0, com gols de Luan e Dátolo. Com isso, uma derrota por 1 x 0 ou 3 x 1 (pelo fato do gol fora de casa) no último jogo daria o caneco inédito para o Atlético.

Durante a preparação da equipe alvinegra, no vestiário do Mineirão, Levir foi incisivo com o elenco alvinegro: “Tem que sair para o jogo, ter personalidade, aparecer para receber a bola, não ter medo”. E o treinador acrescentou: “Sem faltinha. Vamos ficar em pé. Não vamos entrar na provocação. Vamos no jogo. Não tem campo molhado, não tem campo escorregadio. Isso é para os dois times”. No final da partida, depois da vitória de 1 x 0 e o título merecidamente conquistado, Levir decretou: “Esse foi um dos títulos mais justos que eu já vi”.

“O que eu destacaria foi a confiança que ele teve na equipe. Nós fomos campeões da Copa do Brasil sem sequer concentrarmos um jogo em casa. Inclusive na final. Nos jogos em casa a gente sempre se apresentava no dia da partida, no CT, às 11 horas da manhã para o almoço. Então, a confiança que ele tinha na equipe e essa mentalidade do profissionalismo foi algo que marcou bastante, deu certo, e todos entenderam a responsabilidade. Dentro de campo isso se reverteu em uma conquista”, relembra Victor.

“Eu e a minha família ficamos muito próximos com Minas Gerais. E hoje temos compadre, comadre e afilhado aqui em Belo Horizonte e sempre fazendo amigos. São oito vezes que vim para cá. Então, eu sou muito grato. Sou um privilegiado, pois não é fácil chegar até aqui”, comenta.