Dois ídolos tanto do Galo quanto do Cruzeiro contam suas histórias e comentam o confronto mineiro da Copa do Brasil

Com o término da Copa América, estão de volta as partidas do calendário do futebol brasileiro e inicia-se a disputa dos confrontos da Copa do Brasil pelas quartas de final. O Bahia pega o Grêmio, Flamengo enfrenta o Athetico e o Palmeiras joga contra Internacional. Mas no quesito rivalidade o duelo que mais chama a atenção é o clássico mineiro, um dos maiores do país, disputado por Atlético x Cruzeiro.

Daniel Helvécio
Jornalista com passagens pela Rede Minas, canal GNT e agências de comunição. Apaixonado por futebol, cultura e música, já entrevistou diversos artistas da música brasileira, como Wando, Milton Nascimento e Hermeto Pascoal. Acredita que o jogo entre quatro linhas é a principal expressão cultural do homem contemporâneo.

Crédito: Bruno Cantini/CAM/Washington Alves/Cruzeiro/divulgação

Este confronto, cuja rivalidade começou a se acirrar a partir da década de 50, marca o segundo encontro entre os mineiros pela Copa do Brasil. O primeiro aconteceu na final de 2014, quando o Atlético conquistou o torneio após vencer os dois jogos. A primeira partida foi 2 x 0, com gols de Luan e Dátolo, e a segunda por 1 x 0, com Diego Tardelli marcando o gol do título. Além disso, será a quarta vez que Galo e Raposa se enfrentarão em mata-mata por uma competição nacional. As duas primeiras disputas foram pelo Brasileiro, respectivamente em 1987 e 1999. Nas duas oportunidades, o Atlético também levou a melhor.

Para o confronto que começa nesta quinta-feira (11/07), às 20h, no Mineirão, é muito difícil cravar o favorito. No primeiro semestre, o time do Galo, apesar de perder o estadual e ser eliminado na fase de grupos da Libertadores, melhorou o desempenho e a organização depois que o treinador Levir Culpi foi demitido e Rodrigo Santana assumiu o comando. Jogadores importantes, como Chará, Igor Rabello e Elias, cresceram de produção com o novo técnico. Mas a equipe ainda oscila e, principalmente, fora de casa tem dificuldade de propor o jogo, embora tenha feito uma ótima partida contra o Santos, no Pacaembu, pelas oitavas de final da Copa do Brasil, vencendo por 2 x 1.

O Cruzeiro, por sua vez, possui um elenco mais forte que do adversário e tem o trabalho mais duradouro entre os técnicos das equipes brasileiras da Série A. No próximo dia 26, Mano Menezes completará três anos no comando celeste. Outra questão que conta a favor do time do Cruzeiro é o fato do time saber jogar mata-mata, pois é o atual bicampeão do torneio.

Entretanto, dentro de campo a equipe vive um dos piores momentos desde quando o treinador chegou. Um exemplo é a colocação da Raposa na 9ª rodada do Brasileiro: 18º, na zona de rebaixamento, com apenas 8 pontos. Além do mais, fora de campo o clube passa por uma situação delicadíssima com denúncias graves de falsificação de documento, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro contra a atual diretoria.

Para entender um pouco sobre uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro, o Torcedores conversou com dois nomes de peso, Procópio Cardoso e Nelinho, ídolos tanto do Galo quanto do Cruzeiro. E mais: foram atletas e técnicos da dupla mineira. Dois profissionais de personalidade, que não têm medo de emitir opinião, que entendem profundamente o que é cada instituição e, principalmente, têm o respeito das duas torcidas.

O primeiro nome é natural de Salinas, no Norte de Minas. Veio para Belo Horizonte ainda criança, na década de 50, estudar no Colégio Batista, na época interno. Na capital mineira, passou pela divisão de base do Atlético e do Renascença jogando de ponta de lança. Depois, no profissional, Procópio tornou-se zagueiro de muita qualidade e marcou história nos dois principais clubes mineiros, com duas passagens pelo Galo e três passagens pela Raposa, com destaque para a participação no time do Cruzeiro de 1966, campeão da Taça Brasil em cima do Santos de Pelé, e jogando ao lado de craques como Dirceu Lopes, Piazza e Tostão.

A outra passagem marcante do Procópio pelo clube celeste foi a última, já veterano, com 31 anos, quando voltou ao futebol profissional após 5 anos parado, depois de ter tido uma contusão grave no joelho causada pelo Pelé. Como treinador do Atlético, foi campeão da Copa Conmebol em 1992, vencendo o título em cima do Olimpia, do Paraguai.

Já o Nelinho nasceu no Rio de Janeiro e chegou para jogar no Cruzeiro, com 23 anos, vindo do Remo. De atleta desconhecido, tornou-se um dos maiores laterais do futebol mundial. Jogador de duas Copas do Mundo (74-78) e dono de um chute mortal, na maioria das listas de cronistas e torcedores é considerado o maior lateral direito de todos os tempos do Cruzeiro. Era um dos destaques do time de 1976, campeão da Taça Libertadores.

Em 1982, se transferiu do Cruzeiro para o Atlético e mais uma vez foi ídolo de outro grande clube mineiro, com muitos gols de chutes fora da área. Foi destaque do Hexacampeonato Mineiro conquistado em 1983 e vira e mexe também entra nas várias seleções como o melhor lateral de todos os tempos do Galo. No início da década de 90, tentou a carreira de técnico nos dois clubes mineiros, mas não teve sucesso.

Agora, seguem as entrevistas sobre um pouco da história de cada um no futebol mineiro e o atual momento dos dois clubes mineiros. Confira:

Procópio Cardoso

Torcedores: É um privilégio você ter construído uma história bonita tanto no Atlético quanto no Cruzeiro?

Procópio: Foi mais que um privilégio. Eu morava de Salinas, no Norte de Minas. Meu pai era promotor público e tinha sido assassinado. Então, o meu avô me mandou para Belo Horizonte para estudar no Colégio Batista. Isso foi em 1950, quando o Estádio Independência estava sendo feito para a Copa do Mundo no Brasil. Comecei a jogar no Colégio, assistia jogos com o meu tio que morava aqui e aí comecei a me interessar.

Com 13 anos, após um jogo do Colégio Batista contra o Atlético, pelo juvenil, me chamaram para jogar lá. Eu não treinava por causa da escola. Só ia aos jogos do Atlético. Era muito desgastante porque eu ia andando do bairro Floresta até o bairro de Lourdes. Fiz isso durante dois ou três meses, mas resolvei saí. A coisa boa era que eu via de perto Zé do Monte, Kafunga, Afonso e Vavá. E depois de um tempo fui jogar no Renascença, que, na época, era um clube importante da cidade.

T: Como você foi para o Cruzeiro?

P: No Renascença eu era ponta de lança. Eu era alto e rápido. E quando precisava eu ajudava na defesa. Teve um dia que precisava de zagueiro para completar o treino do profissional do Renascença, que era treinado pelo Gerson dos Santos, grande zagueiro do Cruzeiro, do Botafogo e da Seleção Brasileira, que tinha parado a carreira de jogador para ser treinador. Isso já na categoria profissional. No primeiro treino do Gerson não tinha zagueiro para completar o time reserva. Aí, o meu técnico da base me indicou para treinar e perguntou se eu queria. Claro que aceitei.

A partir daí, eu treinei todos os dias com o Gerson e ele me ensinou tudo para ser zagueiro. No campeonato seguinte, o Gerson foi para o Cruzeiro. Veja bem, eu não estou afirmando, mas eu desconfio que quem me indicou para jogar no Cruzeiro foi ele, que nunca me disse nada sobre o assunto. Demorei a jogar por causa de uma contusão.

T: E a sua ida para o Atlético?

P: Foi em 1962. Eu tinha sido emprestado pelo São Paulo e tinha voltado para Belo Horizonte para me casar. E a gente foi campeão contra o Cruzeiro. Foi uma melhor de três. Foi uma fase ótima. Mais tarde treinei o Atlético durante seis oportunidades.

T: Você se destacou no Cruzeiro e era integrante do time do time campeão da Taça Brasil de 1966 em cima do Santos de Pelé. Mas em 68 teve um lance que marcou a sua carreira causada pelo Rei do Futebol. Como foi?

P: O Santos era o maior time do mundo, mas não ganhava do Cruzeiro. Não sei se isso irritava o Pelé. A contusão foi uma ruptura total de ligamento e tendões após uma entrada do Pelé em mim. A minha rótula veio parar na minha virilha. E o Morumbi todo escutou o barulho. Foi uma entrada covarde. Todos os médicos diziam que eu não voltaria a andar direito. Fiz tratamento por três anos e meio no Hospital Arapiara. Detalhe: durante esse tempo que machucado fiquei sem contrato, sem poder trabalhar, vendi tudo que eu tinha, pois eu já tinha esposa e dois filhos.

Voltei a jogar no Cruzeiro após 5 anos, um mês e treze dias. A volta foi contra o Vasco, no Maracanã lotado. Eu marquei o Roberto Dinamite. Dei uma bola debaixo das pernas dele no primeiro lance. Deu tudo certo. Recebi o prêmio de melhor em campo dado pelo João Saldanha. Muitos me ajudaram, mas em especial o Perfumo e o Zé Carlos. Não esqueço. Acabei jogando mais dois anos no Cruzeiro até ir para o Vitória, antes de encerrar a minha carreira.

T: Você, que passou pelos dois clubes , consegue definir a identidade de jogo do Atlético e a identidade de jogo do Cruzeiro? Há diferença?

P: O Atlético tem uma mística que é fácil perceber, embora uma parte da torcida tenha mudado. Antigamente ninguém vaiava e sempre acreditava, mas hoje tem uma parte da torcida que é muito chata. Já o Cruzeiro sempre foi um time mais refinado e de toque de bola, com jogadores como Tostão, Evaldo, Natal e Dirceu Lopes.

T: E sobre o confronto entre Atlético x Cruzeiro pela Copa do Brasil? O que se pode esperar?

P: Tecnicamente o Cruzeiro é melhor. Mas o Atlético tem a chance de aproveitar o momento do rival, que é terrível. Eu nunca vi isso no Cruzeiro. Eu sempre falei que um dia a Lava Jato ia chegar ao futebol. Começou pelo Cruzeiro. Além do mais, uma situação como essa influencia dentro do vestiário. Mas isso também pode ser usado pelo treinador do Cruzeiro como uma onda a favor, motivando o elenco. Por isso eu acho que o Atlético leva certa vantagem. Mas não adianta. Atlético e Cruzeiro não se ganha jogando atrás, com medo e sem chutar no gol. Precisa conhecer, armar estratégia e ir para cima.

T: Nos dois times, quem são os personagens que podem desiquilibrar e decidir um jogo desse?

P: Às vezes, a gente tem a impressão que o Chará não quer nada. Aí, de repente, ele vai lá e decide. Também gosto da habilidade e do chute do Cazares. E o Alerrandro está com apetite. Já o Cruzeiro vai precisa ter atitude. É isso que o time vai precisar para reverter esse momento e vencer o confronto. Não vou citar jogadores.

T: A rivalidade entre Galo e Raposa é a maior do Brasil?

P: Eu falo com competência sobre esse assunto porque fui técnico do Grêmio, do Internacional, do Atlético-PR, e joguei no São Paulo e Palmeiras. Também joguei e fui técnico no Fluminense. Joguei no Vitória e fui técnico do Bahia. Então, participei dos maiores clássicos do Brasil. Não há em nenhum lugar uma rivalidade como Atlético x Cruzeiro, mas o mineiro não sabe explorar essa rivalidade.

T: Para fechar, dois jogos inesquecíveis, um com a camisa do Galo e outro com a camisa do Cruzeiro:

P: Pelo Cruzeiro foi o primeiro clássico que joguei. Foi no Horto, em 1959, e foi 2 x 1 para nós. O Cruzeiro não ganhava do Atlético e foi o primeiro jogo da final. Foi muito marcante, pois me deu projeção por eu ter marcado o Ubaldo, grande jogador do Atlético. E o clássico pelo Atlético que eu cito foi um jogo em 1962. Na época, eu tinha acabado de chegar emprestado do São Paulo. Eu vim emprestado do clube paulista para eu me casar em Belo Horizonte. Na oportunidade, eu não tinha treinado direito, mas jogamos bem e ganhamos.

Nelinho

Torcedores: Além de ter qualidade técnica, o que um jogador precisa fazer para se destacar e de ser ídolo de um clube como o Cruzeiro?

Nelinho: Qualquer jogador para se tornar ídolo de um clube grande precisa ter ao lado jogadores altamente capacitados. Ninguém consegue nada sozinho. Eu mesmo sou um exemplo disso. Quando joguei no Bonsucesso e Remo e não tinha companheiros considerados craques eu era um bom jogador. Mas quando eu cheguei no Cruzeiro e joguei ao lado de nomes como Dirceu Lopes, Piazza, Zé Carlos, Perfume, Eduardo, Palhinha, Batata e Joãozinho aí facilitou. O time que era bom fica ganhando e os jogadores que estão se sobressaindo no momento são bem avaliados. Então, é importante que, para ser um grande ídolo, o grande jogador faça parte de grandes equipes, se não, não funciona.

T: Personalidade também é fundamental, né?

N: Tem que ter muita personalidade. Veja bem, se você sai de um clube pequeno e vai jogador em um clube grande e jogar no meio de jogadores consagrados, se você não se impor e não tiver uma personalidade forte, ficará em segundo plano. Lembro que, em certo momento, eu estava sendo muito criticado por apoiar demais, mas eu produzia. Eu dizia: eu jogo assim, o meu futebol é esse e não vou modifica-lo, então me cobre. Se vira. O Cruzeiro me contratou porque eu apoiava muito e não porque eu marcava.

T: E sua ida para o Atlético, como se deu?

N: Quando o Cruzeiro resolveu me vender, o clube tinha a certeza que eu não era o mesmo jogador de outros tempos e que estavam mandando para o Atlético um líder negativo para perturbar o ambiente do rival. Eu sei por que, tempos depois, escutei isso de um dirigente envolvido na negociação. Consideravam-me esse tipo de líder porque eu exigia o pagamento dos salários atrasados e reivindicava coisas para os funcionários do clube, que não eram jogadores, como a lavandeira e o cara que tratava do campo. Chega um ponto que isso incomoda o patrão, como incomodou. Foi esse o motivo principal da minha saída do Cruzeiro.

Além disso, fui vendido por um preço muito barato, num tipo de negociação inédita, na qual um jogador do Cruzeiro é vendido para o Atlético. Ou seja, um valor para o Atlético não recusar a contratação. Aí, quando acertei a minha ida eu tinha a consciência que a responsabilidade era muito grande. Para mim, era como o início da minha carreira. O fato de ter ido para um rival do Cruzeiro me deu mais vontade. E dar sequência ao lado de jogadores como Éder Aleixo, Luisinho, Cerezo, Paulo Isidoro e João Leite era mais fácil. Eu sempre lembro que, se eu fosse para um time inferior, talvez eu tivesse encerrado a minha carreira mais cedo.

T: Você, que passou pelos dois clubes, consegue definir a identidade de jogo do Atlético e a identidade de jogo do Cruzeiro? Há diferença?

N: Quando eu cheguei a Belo Horizonte me diziam que o Cruzeiro era um time de toque de bola e o Atlético era mais raça. Então, foi criado esse estigma em relação aos dois clubes que permanece até hoje. Mas isso não é verdade. Quando eu estive no Atlético, e um pouco antes de eu ir para lá, era um time altamente habilidoso e técnico, com Reinaldo, Cerezo, e esses caras todos. O Cruzeiro também era técnico com Tostão e Dirceu Lopes, nas décadas de 60 e 70. São períodos. E isso depende dos jogadores da época.

Hoje o Atlético não é tão técnico como antigamente, mas era na época do Ronaldinho Gaúcho. Tradicionalmente, se fala que o Atlético tem mais raça. Mas eu nunca detectei essa falta de raça no Cruzeiro ou no América. Às vezes o jogador não consegue produzir, mas disposição não falta.

T: E sobre o confronto entre Atlético x Cruzeiro pela Copa do Brasil? O que se pode esperar?

N: Hoje, o melhor time tecnicamente e no papel é o Cruzeiro. O melhor time em termos de pontuação no Campeonato Brasileiro é o Atlético. Mas isso não quer dizer absolutamente nada, pois, na hora que começa o jogo, pesa a rivalidade e tudo pode acontecer. É um jogo no qual as duas equipes sabem que quem ganhar segue com muita moral.

T: Essa crise administrativa que o Cruzeiro está vivendo, com denúncias graves contra a atual diretoria, influencia negativamente a equipe celeste?

N: Essa é uma coisa que o jogador não entra muito porque não tem como ficar avaliando. A polícia e a justiça estão no meio. E na hora que pegar os caras, julgar, condenar, ou não (condenar), vamos poder comentar o fato consumado. Enquanto isso só tem denúncias. Os jogadores sabem disso e não vão se influenciarem por esses fatos negativos. É assim que funciona.

T: A rivalidade entre Galo e Raposa é a maior do Brasil?

N: Não. Eu acho que é uma das maiores. Mas tem Internacional e Grêmio, Flamengo e Vasco, Fluminense e Vasco, Palmeiras e São Paulo, Corinthians e Santos… São tantas rivalidades. Lá, no Nordeste, também tem Fortaleza e Ceará. No Norte tem Remo e Paysandu. Só quem já passou por esses lugares e vivenciou pode comparar. Aqui no Sudeste temos a mania de achar que aqui estão as grandes rivalidades, mas vai lá no Norte e no Nordeste para saber o que é rivalidade.

T: Para fechar, dois jogos inesquecíveis, um com a camisa do Galo e outro com a camisa do Cruzeiro:

N: Pelo Cruzeiro foi a vitória, em 77, jogo que o Revetria e Joãozinho fizeram os gols do título do Campeonato Mineiro de 76. E pelo Galo foi o jogo do primeiro título em 1982, que eu tinha que provar muitas coisas e consegui dar a volta por cima. Então, foi um título importante também.