Lições de vida que a Copa do Mundo feminina nos ensinou

Veja o que o torneio trouxe de ensinamentos

Matheus Adami
Jornalista, editor do Torcedores. Passagens pelos jornais Metro, O Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Marca Brasil, Agora São Paulo, Diário de S. Paulo e Diário do Grande ABC.

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Os tempos são outros – não há quem possa negar. Nesta segunda década do século XXI, todos exigem ser ouvidos e agem de acordo para que isso aconteça. Igualdade para as minorias está em voga.

A diferença é que, em pleno ano de 2019, muitas das mudanças exigidas no século passado começaram a ser postas em prática. Buscamos uma sociedade baseada na igualdade, em direitos plenos para todos os gêneros, raças e orientações sexuais. Quão perto estamos de alcançar este objetivo? Podemos analisar a Copa do mundo feminina de 2019 para esboçar uma resposta.

Por que o aumento do interesse no Brasil?

A Copa do mundo masculina é um dos eventos mais excitantes que existem, não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. A cobertura televisiva é completa e até diversa, os ingressos para as partidas nos estádios são disputados a tapas (e a preços exorbitantes) e os ânimos se exaltam de formas surpreendentes.

O crescente movimento feminista fez com que, naturalmente, as pessoas prestassem mais atenção às mulheres – e elas conseguiram inclusive ganhar espaço profissional no mundo, como é o caso da árbitra muçulmana na Inglaterra. Enquanto o futebol feminino sempre foi deixado de lado no Brasil, de repente as pessoas começavam a comentar, a assistir. Nomes como Marta e Formiga passaram a aparecer com maior destaque em jornais, na internet, em programas de comentários esportivos na televisão.

De repente, nesta Copa, o país soltou rojões pelas moças, torceu com um fervor inédito pelas mulheres, e sofreu da mesma forma com a eliminação da seleção brasileira feminina.

Mas devemos perguntar, ainda assim: este interesse, inclusive por parte dos homens, surgiu por conta do feminismo?

É interessante pensar num cenário em que o futebol brasileiro masculino não estivesse em crise. Num cenário de um Brasil hexacampeão, de um Brasil que nunca tomou 7 traumáticos gols num só jogo de copa. Estaria o país com o mesmo interesse pela seleção feminina num cenário desses?

Afinal, o país não demonstrou nenhum interesse especial por tênis após a aposentadoria de Gustavo Kuerten.

A Copa mais importante da história – e o que isso significa?

A Copa feminina de 2019 foi considerada a mais importante da história. Não é à toa – pela primeira vez as partidas foram televisionadas, tabelas e acompanhamentos ao vivo pela internet foram oferecidos, seleções favoritas foram discutidas.

No entanto, a cobertura foi limitada. Os estádios não lotaram e, em alguns casos, ficaram muito vazios. No Brasil, não foi decretado um estado de feriado nacional nos dias dos jogos. Não foi uma comemoração imensa Marta ter ultrapassado Klose como artilheira da história das copas do mundo. Também não se discute aberta e largamente o fato de Formiga, aos 41 anos de idade, ter já participado de 7 copas – outro recorde.

O futebol feminino encontra-se em seu auge – e seu auge ter tanta limitação midiática, de interesse, torcidas e inclusive dinheiro, diz bastante sobre este auge.

As diferenças

Muitas pessoas alegam que o futebol feminino não tem a mesma emoção que o masculino, ou que falta algo: raça, força, violência, o que seja. Fala-se pouco em algumas grandes diferenças, como por exemplo o fato de mulheres treinadoras terem melhores resultados que os homens – mesmo sendo minoria.

Mesmo com tantos argumentos, fatos, estatísticas e até recordes quebrados, há de se concluir que a maior diferença entre o futebol feminino e o masculino está na disposição da sociedade ao abordá-los. E isso, simbolicamente, ilustra o mundo como um todo, em qualquer área: educação, economia, qualidade de vida e direitos humanos.