Allan Simon: Força do futebol faz Globo promover mudanças históricas em 2019

Coluna de estreia no Torcedores analisa desafios inéditos e as reações da emissora no futebol nesta temporada

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

Crédito: Reprodução/Globo

A Rede Globo perdeu completamente a sua “zona de conforto” no fim de 2018 quando o assunto é futebol. Após um processo de licitação inédito, a Conmebol mudou a maneira de distribuir os jogos da Libertadores. Passou a permitir apenas um jogo por rodada dos mata-matas para a TV aberta no Brasil.

Na Copa Sul-Americana, um novato serviço de streaming ficou com a exclusividade após ninguém topar pagar o que a entidade pedia. No Brasileirão, dois clubes dificultaram a vida da Globo nas negociações de TV aberta e PPV (e um deles sequer assinou para esta última mídia).

O domínio absoluto da Globo no futebol brasileiro vem desde o começo dos anos 2000, quando a Band abandonou o consórcio que desde 1992 transmitia em parceria o Brasileirão. Pouco a pouco, em um cenário que já vinha se deteriorando com o fim da Rede Manchete e a saída do SBT do mercado de mídia esportiva no fim do século passado, a concorrência foi minguando e se convertendo em um cenário de mando e desmando do Grupo Globo na modalidade.

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Algo que era tão forte que foi capaz de acabar com o Clube dos 13, entidade que desde 1987 negociava em nome dos clubes os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Horários, datas, decisões, tudo passava pelas salas de comando da Globo. Pois, em 2019, isso foi interrompido por uma conjunção de novidades que incluiu a chegada do DAZN ao Brasil, a entrada da Turner nas transmissões do Brasileirão, e o ganho de força do Fox Sports nas escolhas de jogos exclusivos da Libertadores.

A Globo precisava reagir – e reagiu. Se considerar que a temporada 2019 já é marcada pelo fato de a emissora ter ficado cinco rodadas sem os direitos de transmissão do Palmeiras no Brasileirão, ter sido forçada a transmitir os mata-matas do Flamengo na Libertadores para São Paulo porque não poderia mais dividir rede e exibir os jogos do Verdão para os paulistas no mesmo horário, e que os principais duelos do Corinthians na Copa Sul-Americana foram mostrados ao vivo apenas pela internet no DAZN, o aumento da média de audiência no Ibope em São Paulo é um fato histórico e louvável que demonstra a força do futebol.

Até aqui, o futebol de clubes na Globo entre o público paulista marcou média de 24,5 pontos no Ibope, contra 24,2 pontos na temporada inteira do ano passado. Vale lembrar: em 2018, o Corinthians foi vice-campeão da Copa do Brasil, e o Palmeiras chegou mais longe na Libertadores, avançando até as semifinais. Além disso, o Timão também disputou um mata-mata da competição principal da Conmebol. O Verdão foi campeão brasileiro após uma nova arrancada heroica no segundo turno. Tudo conspirou a favor da audiência do esporte na emissora.

Em 2019, os times de SP estão sendo um verdadeiro fracasso nos mata-matas. O São Paulo não passou da primeira fase preliminar da Libertadores, em um vexame histórico diante do Talleres-ARG. Corinthians e Santos nem foram para a Libertadores. O time do Parque São Jorge ainda avançou até a semifinal da Copa Sul-Americana, mas só quem assina o DAZN viu a maioria imensa dos jogos ao vivo. O Peixe, que também poderia ter sido atração forte no serviço de streaming, também passou vergonha ao ser eliminado de cara no torneio pelo River Plate-URU. Na Copa do Brasil, nenhum paulista chegou às semifinais.

Em outros tempos não muito distantes, olhar para uma semifinal de Copa do Brasil formada por Cruzeiro x Internacional e Grêmio x Athletico Paranaense era sinônimo de duas coisas: ou a Globo iria transmitir um filme para São Paulo e Rio de Janeiro, ou iria “puxar” jogos de times dessas praças no Brasileirão para as mesmas datas e horários para dividir a rede. O mesmo aconteceria em uma Libertadores na qual a emissora não teve escolha a não ser ver Grêmio x Palmeiras ficar exclusivo do Fox Sports na TV paga, exibindo apenas Flamengo x Internacional na TV aberta. Mas, não. Os paulistas viram o que todo o Brasil viu. Fim dos paradigmas.

Mais que isso: pela primeira vez, a Globo permitiu que duas afiliadas regionais simplesmente deixassem de exibir as novelas de um dia inteiro para mostrar uma partida de futebol às 19h. Foi o que aconteceu com RBSTV e RPC no duelo de volta entre Grêmio e Athletico Paranaense na Copa do Brasil, formando uma rodada dupla com o Internacional x Cruzeiro que rolou às 21h30 na mesma quarta-feira.

Nada disso derrubou a audiência do futebol na Globo na praça que possui o maior apelo publicitário do país. Os paulistas mostraram que se interessam, sim, por decisões e mata-matas, não na mesma intensidade de grandes clássicos que envolvem Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos, mas com audiência consideravelmente boa.

Outro paradigma que caiu: “A Globo não transmite jogos do Santos”. No Brasileirão 2019, que está passando agora da metade, já foram cinco partidas do Peixe exibidas para a região metropolitana de São Paulo, maior número desde 2012, quando o time tinha o apelo da marca “Neymar” em campo. Mesmo menor que os rivais da capitais, a média de audiência do time da Vila Belmiro não decepciona: são 22 pontos no Ibope.

A Globo também mostrou em 2019 que tem poder de reagir com força à concorrência usando todas as armas ao seu dispor. Enfrentou a Turner abrindo o sinal gratuito na TV aberta de vários jogos que eram exclusivos da rival na TV por assinatura, chegando inclusive a fazer isso na internet, como em partidas do Athletico Paranaense contra Fortaleza e Flamengo no primeiro turno. No último domingo (29), a emissora transmitiu para São Paulo o mesmo Internacional x Palmeiras que era um dos pratos principais da TNT no cardápio do Brasileirão.

Na guerra do futebol, a Globo foi obrigada a fazer concessões e aceitar a força do futebol, bem como a nova era do streaming no esporte. Mas também mostrou que está viva e atenta, mudando o que for necessário para não deixar o reinado acabar, pelo menos por enquanto.

Allan Simon é jornalista esportivo desde 2011, tendo passado por redações como o R7, Abril.com, UOL Esporte e Torcedores. Participou das coberturas de duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, dois Pans, e diversos outros momentos históricos do esporte brasileiro nesta década. Criador do Prêmio Torcedores de Mídia Esportiva. Atualmente comanda o Blog do Allan Simon, é colaborador do UOL e colunista do Torcedores.

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