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Ana Thaís Matos relembra início da carreira, machismo e a evolução do futebol feminino no Brasil

Ana Thaís Matos é figura carimbada nos principais programas do SporTV e não cansa de fazer história. Em entrevista à “Revista Trip, do UOL”, a jornalista falou sobre machismo, feminismo e a repercussão da Copa da França no Brasil

Andressa Fischer
Gaúcha, 22 anos | Escrevo sobre vôlei, futebol feminino e dupla Gre-Nal.

Crédito: Foto: Reprodução/Twitter

Na Copa da França, Ana Thaís Matos foi uma das principais porta-vozes do futebol feminino no Brasil, cobrando um olhar maior dos clubes e das federações para a modalidade. Para a comentarista, o torneio mundial colocou o FF no radar da grande mídia.

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“No Brasil, nunca mais iremos falar de futebol feminino como antes. A narrativa agora é outra. Há mais gente cobrando nas redes sociais, na TV e os campeonatos no país estão melhorando, com série A e B. O futebol feminino entrou de fato no radar dos eventos e das coberturas midiáticas”, disse.

Primeira mulher a comentar um jogo de futebol na TV Globo, Ana Thaís conta que para dar uma maior credibilidade ao que passava nas suas informações, e para aumentar o engajamento dos torcedores com a seleção, procurou se familiarizar com as histórias das jogadoras convocadas.

“E descobri o passado da menina que foi criada pela tia e sofreu violência em casa, da que morou quatro anos na Dinamarca com filho e marido… Então, eu me via naquele campo de futebol, na pele daquelas meninas, com aquela camisa. Fora as outras atletas que defenderam a seleção e jogaram comigo. A partida estava terminando e, fisicamente, elas já não estavam suportando, porque a preparação pela CBF não foi ideal”, afirmou.

A jornalista celebrou o passo dado após a competição, mas não negou as carências ainda existentes e que sobram entre os homens.

“Em um volume inferior ao masculino, mas é um passo importante, como é também ter mais mulheres praticando e mais investimentos financeiros das confederações e marcas. Estas têm que ser mais ativas, cobrar de clubes e federações discursos que chancelem seus posicionamentos, usados no marketing”, afirmou.

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“A cobrança da Marta após o fim do jogo que eliminou o Brasil desse Mundial, quando ela exigiu mais suor das atletas em prol do futebol feminino brasileiro, ficou marcada. Pegou mal com algumas companheiras, mas o que fez a Marta chegar naquele discurso? É mais importante a gente entender do que apontar o dedo e falar se ela está certa ou errada”, continuou.

Até o ano passado, Ana Thaís Matos atuava como repórter de campo na rádio Globo/CBN, em que estava desde 2012. Formada pela PUC-SP em 2011, a comentarista comentou sobre o início da carreira em uma redação de jornal, em que teve os primeiros contatos com disparates encontrados no meio esportivo entre homens e mulheres.

“O meu primeiro estágio foi em uma redação de jornal e foi muito difícil. Ali, vi o que iria encarar pela frente em relação ao preconceito com mulheres falando de futebol. Um dos editores não me deixava escrever textos sobre os jogos. Quando entrei, éramos quatro estagiárias mulheres. No fim do ano, só havia eu”, lembrou.

Ela afirma que sempre se baseia em fatos e informações antes de dar a sua opinião, porém como mulher teve que aprender a lidar com os “haters”, que a todo comentário que fazia, tentavam a desestabilizar dizendo que ela não entendia nada sobre o futebol, o que ela já havia vivido no primeiro contato dela com o jornalismo.

“Era um ambiente nocivo, mas foi a minha primeira escola do jornalismo e talvez a mais importante. Fiz alguns ótimos amigos, mas não foi nada fácil. É muito difícil desistir de um sonho por causa de um terceiro e vi muitas meninas abandonarem o barco. Sempre fui do conflito. O instinto me ensinou que para conseguir alguma coisa é preciso bater o pé. E isso, claro, gera incômodo. Várias vezes questionei escolhas quando percebia que era boicotada“, completou.

Ana Thaís Matos desenvolveu crises de pânico e de ansiedade por causa do preconceito

As mulheres que adentram no meio esportivo tendem a ter de esforçarem mais que os homens para ter o mesmo trabalho reconhecido, e muitas vezes, apesar do esforço, não é o que acontece.

A classe masculina dos jornalistas é muito forte, um valoriza o trabalho do outro, é incrível. Nós, mulheres, devemos fazer o mesmo… A gente convive, então, com a cobrança de não errar, de não estar abaixo das expectativas. Muitas são ironizadas, desautorizadas no dia a dia. Estamos ali tecendo um comentário, mas sabemos que os questionamentos têm, também, a intenção de checar se entendemos e gostamos mesmo de futebol. E competimos com os caras, que não passam por isso”, disse.

Por causa das críticas, ela conta que desenvolveu crises de pânico e de ansiedade, mas que com o tempo, passou a criar uma espécie de barreira para o que repercutia sobre o seu trabalho. E deu certo, foi escalada para comentar a partida entre Santos x Athletico Paranaense na TV aberta, se tornando a primeira mulher a atingir tal feito na Globo.

“Já tive crises de ansiedade, pânico, por causa de rede social. Eu era muito agressiva naquele ambiente e, hoje, não tenho mais estômago pra isso. Aí, parei de procurar menções ao meu nome. Criei uma capa de proteção e, quando fico sabendo o que dizem de mim, não me sinto mais diminuída. É um terreno delas, e não meu”, falou.

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