Ex-técnica pagou do próprio bolso por equipamentos de futebol feminino do Santos

Emily Lima comprou equipamentos para jogadoras da equipe alvinegra e levou o material quando deixou o clube

Livia Camillo
Colaborador do Torcedores

Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo / Santos FC

Apesar do histórico campeão, as Sereias da Vila, time feminino do Santos, sofrem com a falta de investimento – assim como muitos clubes de futebol feminino do Brasil. A saída de Emily Lima, na última sexta-feira (6), não acarretou apenas na perda do comando técnico, mas também de estrutura. O Torcedores.com apurou que a treinadora tirou dinheiro do próprio bolso para comprar cintas de GPS para o time profissional e levou os equipamentos consigo após o desligamento.

Segundo fontes ligadas ao Santos, Emily comprou um GPS para cada uma das 27 jogadoras do elenco. Os aparelhos são muito utilizados por clubes brasileiros, inclusive nas categorias de base, para monitorar frequência cardíaca, queima de calorias, velocidade e detectar possíveis problemas físicos. A faixa de preço varia de US$ 180 a US$ 3.500. 

As informações coletadas são aplicadas tanto na análise de desempenho quanto nas avaliações físicas, de nutricionistas e do departamento médico. A reportagem entrou em contato com especialistas, que consideram a atuação desses aparelhos de GPS como muito importantes para o futebol moderno. Dentre as utilidades, eles ajudam a evitar desgastes desnecessários de atletas e a prevenir lesões. 

Procurado pela reportagem, o Santos não quis se manifestar sobre o assunto. 

Vila Belmiro interditada

Em entrevista exclusiva ao Torcedores, Emily falou sobre os problemas estruturais que estava enfrentando no Santos. A situação havia sido exposta à diretoria do clube quando a técnica estava perto do período de renovação. Sem chegar em um acordo com a cúpula, ficou acertado que ela só seguiria até o fim do ano, decisão antecipada pela queda no Campeonato Brasileiro para a Ferroviária.

Desde o começo do ano, mesmo após as reformas, as Sereias não puderam jogar na Vila Belmiro, dedicada exclusivamente ao time masculino profissional. A diretoria havia informado que a decisão era para “preservar o gramado”. Portanto, os jogos do feminino passaram a ser mandados para o estádio vizinho, o Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista. 

“As Sereias da Vila foram proibidas de jogar na Vila. Foi proibido de jogar lá, não sei por quem, mas foi proibido. Isso é muito absurdo”, contou Emily. “Tem uma entrevista que ele [o presidente do Santos, José Carlos Peres] fala que eu reclamo do campo e que isso é um problema no Brasil, porque o Maracanã… Aí eu pensei: ‘Se eu tiver um Maracanã para jogar. Nossa, Senhora!’. Eu só pedi o que me foi prometido. Me prometeram e eu fui cobrar”, concluiu. 

Relação desgastada

Emily chegou ao Santos no começo de 2018, no início da gestão de José Carlos Peres. No entanto, a diretoria e a treinadora tiveram desgastes ao longo do tempo. O episódio em que as atletas passaram a noite no saguão de um hotel, antes de uma partida do Brasileiro, estremeceu a relação e gerou desconforto no clima dos bastidores. 

Nas redes sociais, a treinadora não poupou críticas à CBF, responsável por contratar a empresa que realiza a logística das viagens durante o campeonato nacional. Na época, o presidente repreendeu Emily.

“Um erro não se justifica com outro. Aí aconteceu que a nossa técnica acabou fazendo gravações, colocando nas redes, fazendo reclamações. Isso tem de ser tratado de forma pontual, dentro da direção e não extrapolar para a mídia e causar toda essa polêmica que foi causada. Vamos discutir os problemas internamente para que não vire uma polêmica desnecessária. Tudo tem uma solução.” disse Peres por meio de um vídeo gravado para o canal oficial do Santos. 

Saída das Sereias

Outras reclamações feitas pela treinadora também não foram bem aceitas pela gestão. A despedida do clube, no entanto, foi tranquila. Com planos de atuar fora do país na próxima temporada, Emily destacou que a prioridade é concluir a Licença PRO da CBF. 

“Eu não tenho problema nenhum com a diretoria do Santos. Acho que eles ficaram incomodados com as coisas que eu comecei a falar. Chegou um momento que eu precisava falar. E como a gente não tinha essa atenção, da diretoria e da gerência, eu comecei a expor algumas situações. Até o que tinham me prometido, como um campo, né?”, disse a técnica. 

“Felizmente saí de forma amigável. Não tenho nada para falar do presidente. Em resumo, foi bom para o Santos e foi bom para mim. Tenho dois projetos em andamento, mas a minha prioridade é concluir minhas licenças, no fim do ano, para poder trabalhar fora do Brasil”, finalizou. 

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