Torcedoras lança primeira revista exclusiva para o Instagram; veja

Torneio Uber é o cenário desta primeira edição, que aborda a crescente popularidade do futebol feminino no Brasil

Livia Camillo
Colaborador do Torcedores

Crédito: Torcedoras Futebol Feminino

Os EUA venceram a Holanda na decisão da Copa do Mundo de futebol feminino de 2019, mas não foi de nenhum dos países a maior audiência do evento na TV. Com espaço inédito na TV aberta, o Brasil bateu recorde de interesse pela modalidade e mostrou o potencial de um público subvalorizado durante décadas. A popularidade crescente também alavancou o Torneio Uber, em São Paulo, que serviu como base para a primeira edição da revista Torcedoras, vertical de conteúdo feminino do Torcedores.com. O material, exclusivo para Instagram, você conhecerá a seguir. 

Elane dos Santos, primeira mulher a marcar pela seleção brasileira em Copas

Elane dos Santos realizou o sonho de qualquer atleta em Copas do Mundo: marcar o nome na história. Em 1991, na China, a ex-zagueira marcou o primeiro gol do futebol feminino brasileiro em mundiais. No entanto, por não existir qualquer registro, ela esperou 28 anos para receber o devido reconhecimento.

A homenagem aconteceu no dia 29 de agosto de 2019, na abertura do Torneio Uber Internacional de Futebol Feminino, antes da partida entre Brasil e Argentina. No telão do Pacaembu, palco da competição, 11 mil pessoas fitavam o vídeo com a reconstituição do lance. Cristiane, atacante da seleção, foi quem coroou o momento com um abraço apertado e presenteando a ex-capitã da canarinho. Um encontro de gerações.

“Na busca [do Google], quando você pesquisa ‘primeiro gol da seleção brasileira feminina’ aparece a foto de um homem. Então, essa homenagem não é só para mim, é para o futebol feminino. Esse gol merecia ser contado e esclarecido”, disse Elane

Geração de ouro sem medalha

O gol histórico aconteceu no jogo de estreia do Brasil contra o Japão. Após o triunfo por 1 a 0, vieram duas derrotas e a eliminação ainda na fase de grupos. Naquele ano, as norte-americanas foram as campeãs. A partir dali, a chama na modalidade brasileira começou. 

Elane faz parte de um grupo pioneiro, de uma época em que presença da mulher no esporte era um ato de resistência. Não que hoje não exista luta para o gênero feminino neste ambiente. No entanto, foi a geração dela que superou as primeiras barreiras, financeiras e do preconceito,  e abriu portas para que outras pudessem jogar bola. Este é, de longe, o maior orgulho da antiga camisa 6. 

Torcedoras

Capitã da seleção brasileira na Olimpíada de 1996 e nas Copas de 1991, 1995 e 1999, a ex-jogadora saiu com um gostinho amargo pela falta de títulos, mas levou grandes amizades. Dos tempos de campo, vestir a amarelinha sempre foi especial, inclusive pela convivência com as companheiras. Esta é uma das recordações mais saudosas de Elane.

“A gente era como família. Acordava junto, treinava junto, comia junto… quantas vezes eu não pude visitar minha mãe e ficava com elas. Essas amizades a gente leva para a vida toda.”

Depois dos gramados

Elane viu sua vida mudar completamente depois da aposentadoria, em 2005. Mesmo com passagens por clubes como São Paulo, Santos e Corinthians, não foi possível juntar dinheiro. E com as tentativas de permanecer no meio do futebol frustradas, a saída foi fazer o que sabia fora dos gramados: dirigir. 

“Nunca foi por dinheiro. Até porque não tinha como, sempre foi muito difícil. A gente jogava por amor mesmo.” 

“Tirei minha carteira, fiz um teste numa empresa e fiquei lá durante oito anos dirigindo ônibus. Depois que essa empresa faliu, financiei um carro. Eu tive uns problemas na coluna trabalhando no ônibus, mas hoje, no Uber, eu faço o meu horário.” 

Durante quase uma década, a ex-jogadora transportou cerca de 750 pessoas por dia entre os bairros de Santa Cruz e Campo Grande na capital do Rio de Janeiro. No entanto, o trabalho nunca foi problema para ela. O que realmente incomoda, após ter “pendurado as chuteiras”, é pensar que as coisas poderiam ter sido diferentes se houvesse mais apoio para a modalidade.

“É muito importante o apoio, principalmente vindo da mídia. As pessoas não conhecem o futebol feminino, na verdade. Passaram a conhecer quando começou a passar na TV, na mídia. Achavam que o futebol feminino era igual a categoria fraldinha [infantil], que onde a bola está, todas as meninas estão. Não é. O futebol feminino tem tática, tem cadenciamento, tem velocidade, tem inteligência, tem tudo.” 

“Infelizmente o prestígio ainda é do masculino, mas as coisas estão mudando, melhorando.” 

Com tantos percalços no caminho, a primeira mulher a balançar as redes pelo Brasil em Copas chegou a duvidar de sua importância na história. Mas foi graças ao papo com Cristiane, que ela entendeu o significado da palavra “lenda”: “Foi muito gratificante ter conversado com ela. Ficou muito claro que a geração dela tem imenso respeito por nós, que começamos essa história. Esse é o pensamento de todas. Eu fiz tudo o que podia lá atrás, daqui para frente é com elas.”

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