Aira Bonfim: conheça a origem de uma das palavras mais importantes do futebol

Você sabia que foram as mulheres as responsáveis pelo nascimento da palavra “torcer”? Nada melhor do estrear a coluna Torcedoras com a possibilidade de compartilhar as origens históricas desse termo!

Aira Bonfim
Colaborador do Torcedores

Crédito: Desenhos de JB

Pretendo dividir com vocês nos próximos meses, de maneira acessível e aos sábados, conteúdos históricos e por vezes até antropológicos, sobre o futebol no Brasil.

Como mulher cisgênero, pesquisadora e historiadora do esporte, estou longe de oferecer certezas, mas me proponho a ampliar os sentidos e conhecimentos sobre o que sabemos sobre os nossos tantos futebóis. 

De volta ao assunto “torcer”, gostaria de dizer que a festa e a alegria nas arquibancadas dos estádios brasileiros se originou com o substantivo feminino TORCEDORA!

Sim meus amores, foi a excitação das mocinhas do início do século XX que mobilizou os cronistas esportivos da época a inventarem um nome para aquelas que agitavam, chingavam, gritavam e torciam seus lenços e fitas durante uma partida de futebol: T-O-R-C-E-D-O-R-A-S. 

“As palmas e os gritinhos agudos das torcedoras impacientes, as exclamações do torcedores vermelhos, o enthusiasmo extraordinário, em fim.”  (Jornal do Commercio, 30/05/1916)

Torcedoras durante partida entre São Christóvão e Botafogo há 100 anos atrás. Revista Careta, 17/05/1919 | Biblioteca Nacional

Apesar de certa desconfiança que ainda recai sobre as mulheres quando o assunto é futebol, gostaria de compartilhar por aqui que, tais afirmações sobre a participação delas no jogo não foram inventadas por mim, mas são frutos de pesquisas históricas baseadas em fontes como jornais e fotos da época, além de uma extensa produção acadêmica que já está mais habituada nos últimos anos a essa informação.

Apesar da exacerbação dos atributos “masculinos de potência e virilidade” reivindicados por torcidas e torcedores nas arenas e campos de futebol do mundo todo ao longo de décadas, paradoxalmente o ato de torcer nasceu de gestualidades dos corpos de moças e senhoras bem arrumadas nos estádios.

“No Brasil, concorrem muitas mulheres, gentis senhoritas, notando-se na assistência, quasi o mesmo número de representantes do bello sexo do que do outro. A representação feminina é constituída pelo mais distincto público da sociedade carioca. As “torcedoras” se vestem das côres de sua predilecção.  Levam grandes laços nos chapeos e nas sombrinhas fitas e matizes com as cores de seu club favorito. (…) Por occasião das partidas, applaudem, saudam, accenam e dirigem o jogo, ordenando para um center-forward que reparta o jogo ou a um back que faça uma retirada. São, as vezes, sinceras” (Jornal do Commercio, 08/03/1917)

Além de mulheres não serem estimuladas a praticar o futebol nos idos de 1900, período de grande destaque da imprensa sobre o tal esporte considerado civilizado, violento e masculino, aos poucos, com a necessidade de aumentar as arrecadações das partidas, perde-se o costume de sócios frequentarem jogos de futebol  com isenção de pagamento de entrada, com isso, de levarem suas famílias às praças esportivas. Ou seja, o futebol, aos poucos, se masculinizava e colocava de escanteio do espetáculo mães, senhoritas e crianças… 

Apesar das adversidades de um esporte que com o passar dos anos se forjou cada vez mais por e para homens, mulheres nunca deixaram de torcer e reivindicar o dito “esporte nacional e popular” de volta para elas. Além de um estrutura desfavorável para a presença feminina, foi necessário – e ainda o é – desmistificar uma ideia culturalmente construída de que mulher e futebol não combinam (e aqui vale lembrar aos garotos, que nós, moçoilas, fomos proibidas por lei de praticar futebol no Brasil entre 1941 a 1979…). Imaginem vocês, boys, sem a pelada do fim de semana porque alguém disse que aquele esporte era incompatível com o seu corpo??

Torcedoras durante a Taça Rio-São Paulo em 1916. Revista Careta, 30/09/1916 | Biblioteca Nacional

Os mesmos corpos que inventaram as primeiras formas de torcer, continuam, infelizmente, pedindo licença para ocupar as arquibancadas, as chapas de torcidas organizadas, as tremulações de bandeiras, as salas de patrimônios e instrumentos de torcedores e as oportunidades de trabalhos no ambiente do futebol. 

Mas não se preocupem, pois de ‘resiliência’ – que de acordo com o dicionário refere-se a pessoas com a capacidade de se adaptar à má sorte ou às mudanças – nos fazemos mais fortes, menos acomodadas e cheias de espírito de mudanças!

E convenhamos, o futebol de hoje está afoito por mudanças que incluam cada vez mais pessoas e que mobilizem um esporte cada vez mais plural, transparente e menos corruptível.

Vale lembrar a cerimônia de premiação da última semana do prêmio oferecido pela FIFA, o The Best FIFA Football Awards, que destacou não só uma torcedora e mãe palmeirense de um filho cego, como evidenciou jogadoras como a norte-americana e gay Megan Rapinoe, que fez muito pelo futebol, dentro e fora das quatro linhas em 2019. Não é futebol alguns diriam…

E antes que reclamem sobre um suposto mimimi do meu texto, gostaria de lembrá-los que mulheres não foram os únicos grupos sociais impedidos de aproveitar do delicioso futebol. Ao estudarmos as primeiras legislações das ligas de clubes do Brasil, vale ressaltar que negros, mestiços e trabalhadores braçais foram impedidos de jogar e frequentar os clubes das elites esportivas da época, ou seja, para 99% da nossa população não era permitido acessar o futebol. Ainda nos dias de hoje, discute-se, por exemplo, se atletas transgêneros podem ou não figurar campeonatos nacionais… 

Então meu bem, aos sermos majoritariamente excluídos do esporte mais conhecido do país há menos de 100 anos atrás, os fatos históricos nos colocam do mesmo lado desta batalha. Afinal, para parafrasear a amiga e jornalista Lu Castro: conquistas femininas nunca são concessão, mas resultado de muitas lutas. 

Avante e nos encontramos em palavras no próximo sábado!

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