Allan Simon: Tirar jogos da TV aberta é caminho errado para bombar PPV

Crise econômica, renda em baixa e preços cobrados explicam muito mais dificuldade em vender o Premiere

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

No começo deste mês, o jornalista Rodrigo Mattos publicou em seu blog no UOL Esporte uma apuração sobre os planos da Globo para o futebol em 2020. A ideia da emissora seria reduzir a quantidade de jogos transmitidos na TV aberta, tendo como uma das motivações a estratégia para aumentar a venda de pacotes do PPV (pay-per-view).

Haveria até uma redução no preço das cotas vendidas aos anunciantes do pacote “Futebol 2020” na Globo, e a queda seria de 95 para 85 jogos exibidos durante o ano. Ok. Posto isso, acredito que a emissora segue um caminho errado para forçar a venda do Premiere aos torcedores.

Prova disso é que as vendas em 2019 já não estão sendo como o esperado, o que provocou um alerta dos clubes, conforme noticiado pela Folha de S.Paulo em setembro. E a estratégia da Globo não é nova. Há tempos a emissora vem deixando clássicos e outros jogos importantes como exclusivos do Premiere.

Mas, pelo jeito, ninguém encontrou uma fórmula para corrigir o real problema por trás disso: a falta de emprego, a renda apertada e a crise econômica do Brasil. Enquanto os índices de desemprego permanecerem altos, fica difícil imaginar que o trabalhador brasileiro tenha condições de pagar, por exemplo, o Premiere Play, que custa R$ 79 por mês e dispensa a necessidade de ser cliente de TV por assinatura.

Dispensa essa necessidade, mas não o fato de precisar de uma boa conexão de internet para dar conta das transmissões em streaming feitas na plataforma. Ou seja, o gasto mínimo sempre acaba beirando nos R$ 200, o que dá 20% do salário mínimo atual.

Como explicar, por exemplo, que a arrecadação do Premiere em 2019 ainda esteja abaixo do esperado se a emissora deixou jogos tão importantes, como Flamengo 0 x 0 São Paulo, São Paulo 1 x 0 Corinthians, São Paulo 1 x 1 Palmeiras, Flamengo 1 x 0 Santos, e tantos outros exclusivos do PPV este ano? Por acaso a “forçada de barra” adiantou?

Em levantamento feito por mim recentemente, pude comprovar a mudança de estratégia da Globo nos jogos em São Paulo. O Corinthians, por exemplo, historicamente o time de maior audiência entre o público paulista, vem despencando na quantidade de partidas transmitidas em TV aberta nessa região.

Foram 20 em 2014, 19 em 2015 (ano de título), 17 em 2016, 15 em 2017 (ano de outro título), e apenas 10 no ano passado. Neste ano, em 25 rodadas, são sete partidas até agora do time alvinegro na Globo SP. Repito a pergunta: adiantou? Aumentou o PPV no nível esperado?

Em meio a tudo isso, os olhares do mercado se voltam contra a pirataria que vem crescendo no mercado ilegal de distribuição de sinal de TV paga. Uma prática que precisa ser combatida pelas autoridades, pois é criminosa, mas que tem representado uma consequência do abuso nos valores cobrados pelos serviços, sobretudo o de PPV, que chega a custar mais de R$ 100 nas principais operadoras (lembrando, sai por 79 reais no streaming).

Em 2020, a Globo corre o risco de que seu público sequer perceba a queda de jogos transmitidos em TV aberta. Além de estar acostumando aos poucos o torcedor brasileiro com a prática de ter partidas menos importantes no SporTV, por exemplo, a emissora já mata o hábito de ver clássicos no domingo à tarde em família pela televisão gratuita.

Aos poucos, a Globo vai criando um distanciamento que fará com que pouca gente se dê conta dos 10 duelos a menos que deverão ir ao ar no ano que vem. Pior: com Eurocopa, que reunirá os craques que realmente chamam a atenção dos jovens hoje, e até com a Copa América, que poderá ter jogadores importantes em campo mais uma vez, a maioria desse corte de transmissões do Brasileirão deve se posicionar entre junho e julho, quando a própria emissora deverá dar espaço ao futebol de seleções.

A final da Euro, por exemplo, vai ser disputada às 16h (horário de Brasília) de um domingo, dia 12 de julho. Ainda não há definição, mas é provável que a decisão da Copa América seja, ou no mesmo dia em horário diferente, ou no sábado, dia 11. Com Brasileirão rolando, é bom lembrar.

Alguém vai assinar PPV só porque, em fins de semana de jogos de seleções na mesma TV aberta, poderá não haverá transmissões do Campeonato Brasileiro? Ou vai aceitar e tocar o barco com o que estiver na mão, já que dinheiro segue não dando em árvore, e o Brasil não tem ainda perspectivas de melhoras a curto prazo na economia?

Ah, e não devemos esquecer. Logo depois do combo Copa América-Eurocopa, em julho, chegam as Olimpíadas de Tóquio, um evento muito importante que concentrará competições do começo da noite ao início da manhã pelo horário de Brasília. Tudo isso com Brasileirão rolando. O torcedor poderá nem sentir falta desses 10 jogos na Globo em 2020. Agora, tentem reduzir o preço. Aí o milagre da multiplicação de assinaturas provavelmente acontecerá.

Allan Simon é jornalista esportivo desde 2011, tendo passado por redações como o R7, Abril.com, UOL Esporte e Torcedores. Participou das coberturas de duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, dois Pans, e diversos outros momentos históricos do esporte brasileiro nesta década. Criador do Prêmio Torcedores de Mídia Esportiva. Atualmente comanda o Blog do Allan Simon, é colaborador do UOL e colunista do Torcedores. 

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