Aira Bonfim: O futebol de várzea que agoniza mas não morre

A várzea não morreu. Como o samba de Nelson Sargento, o futebol do terrão as vezes agoniza, se reinventa, ressuscita e se agarra a algum pedacinho de grama, terreno e entusiastas por aí.

Aira Bonfim
Colunista do Torcedores.com.

Crédito: Antigo campo do lixão no parque Raposo Tavares, Jardim Jaqueline, São Paulo. Foto Cassimano

O querido terrão

De forma autônoma, ou espelhada nos grandes campeonatos nacionais, o futebol amador, varzeano, revela cotidianamente os esforços de centenas de abnegados e abnegadas que dão sentidos próprios para o futebol que quase não produz notícias nos veículos esportivos (hoje em dia!) ou atletas para compor equipes no Cartola FC.

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“Agoniza mas não morre,
Alguém sempre te socorre,
Antes do suspiro derradeiro”

(trecho do samba Agoniza mas não morre)

Antes mesmo das pessoas me reconhecerem como alguém envolvida com a visibilidade do futebol de mulheres no Brasil, foi a várzea de São Paulo, ou melhor, as várzeas, as minhas escolas de iniciação, e que me permitiram conhecer e pensar melhor sobre o futebol no nosso país.

Na época em que iniciei o trabalho como pesquisadora no Museu do Futebol, em 2011, o tema da várzea, era sempre apresentado com um certo carinho e saudosismo. Não a toa, foi um dos lugares prediletos das pesquisas de campo.

A partir naquela época, visitei uma infinidade de campos de futebol espalhados por toda a metrópole paulistana, zonas norte, oeste, e muito leste e sul, e até hoje, a cada calendário esportivo me questiono: quando exatamente a nossa ideia de futebol se perdeu do campinho perto de casa, barato, com música, amigos e principalmente, com churrasco e cerveja?

“Mudaram toda a sua estrutura,
Te impuseram outra cultura,
E você não percebeu”

Aqui nos vale outra reflexão, meus amores: porque o futebol masculino, mainstream, que tanto acompanhamos, assistimos, lemos, discutimos – fielmente e entusiasticamente -, ocupa com tanta veemência o que construímos como significado sobre o é futebol? 

Campo do Cruz da Esperança. Acervo Walmir Mello | Acervo Museu do Futebol

Tão perto, tão longe, com as últimas modificações em torno da experiência de torcer e acompanhar um clube de primeira divisão no Brasil, torcedores, hoje em dia, encontram-se cada vez mais distantes dos gramados e arenas (será que estádio já não era uma palavra suficiente para definir o lugar magistral do futebol?).

Sob as rédeas de um mercado de entretenimento que só cresce, e faz do futebol um objeto refém do amor clubístico, e por isso, cada vez mais adaptado às formas de consumo esportivo, não valeria a reflexão se essa paixão, nos dias de hoje, ainda seria algo tão espontâneo assim?

“inocente, pé-no-chão,
A fidalguia do salão,
Te abraçou, te envolveu”

A várzea é outra coisa da mesma coisa. É jogo, é gente e é compromisso. Com Raphael Piva, amigo e antropólogo que pesquisou os campos da zona norte, aprendi a reconhecer os personagens ‘abnegados’ desse futebol.

Boleiros e boleiras abnegados

Para se acompanhar um jogo varzeano não basta ligar a televisão (ou SporTV Play!), é preciso o mínimo de planejamento, organização e comprometimento de pelo menos 23 pessoas (têm árbitro né!).

É preciso conhecer o responsável pelo campo, transporte da equipe e da máquina de lavar que vai deixar os uniformes minimamente apresentáveis para o festival do fim de semana. É imprescindível o rateio dos juízes, aluguel do campo, troféu, bola e porque não, da carne com samba no final da partida.

Em outras palavras, é inegociável e intransferível viver a experiência do futebol. E apesar das pendengas, o adjetivo “várzea” já não nos cabe na construção das frases há muito tempo. “é uma várzea!” já pega bem mal para falar a verdade…

“Negro, forte, destemido,
Foi duramente perseguido,
Na esquina, no botequim, no terreiro”

Só para existir, o jogo de várzea exige de um coletivo de pessoas lições de associativismo. Jogar, ocupar e resistir. A partir do fenômeno futebol, é possível observar os vestígios de modernização das sociedades e da cultura no país. Se antes tínhamos centenas de campos margeando os rios paulistanos (e por isso o nome “várzea”), hoje temos a manutenção dessa prática em campos de futebol resistentes e distantes das vistas centrais de uma cidade como São Paulo, com pedaços de terrenos valiosos.

Com outras e novas opções de lazer na cidade, o futebol de várzea permanece receptivo à novos entusiastas e batalhadores da preservação dos metros quadrados que, sob as mais variados olho especuladores, surgem sem pedir licença, e insistem em nos dizer o que é mais valioso de se fazer com a terra e o tempo livre dos usuários da metrópole.

Entre as diferentes realidades que cabem na representação do futebol de várzea, para essa ocasião escolhi o Campo de Marte, ou melhor, o Complexo Esportivo do Campo de Marte. Esse caso refere-se a apenas um de tantos outros exemplos existentes em São Paulo, e que através do futebol, tem hoje e ao longo dos anos, memórias e histórias preservadas e passíveis de serem conhecidas desde 1958.

O Planeta Marte

Há apenas 4 quilômetros do centro, no bairro da Casa Verde, o complexo de 50 mil metros quadrados, cercado por floresta atlântica, oferece ao público boleiro 6 campos de futebol. Sim, seis!

É como se existisse um portal no final da Rua Marambaia, 802, onde é possível encontrar um oásis do futebol paulistano. Um lugar onde é permitido, com ou sem dinheiro, jogando ou não, divertir-se! (eu mesma já comemorei o meu aniversário por lá, no campo do Baruel e com auxílio do Bar do Seu Nelson).

Como já disse no texto anterior, nunca é só futebol. O mesmo terreno da zona norte oferece vestígios históricos para se pensar a história do samba rock, de trabalhadores, da formação do bairro negro do Peruche, dos carnavais, das religiões, das lagoas que não existem mais, da maneira de jogar (brigar) futebol e tantas outras coisas mais.

Jogos fantasiados no campo do Cruz da Esperança. Coleção Walmir Mello | Acervo Museu do Futebol

Recentemente o Museu do Futebol, através do seu Centro de Referência do Futebol Brasileiro, lançou um série de três mini documentários sobre o “Planeta Marte” que nos presenteiam com narrativas sobre esse ambiente do futebol de São Paulo.

Trago aqui apenas o teaser, um gostinho de quero mais, e deixo a critério de cada leitor o desejo de continuar acompanhando as entrevistas no canal do museu.

A várzea, assim como o Campo de Marte, ainda irão voltar a protagonizar linhas nos meus textos.

Aliás, fica a dica!

Em breve, muito breve (15/10), esse mesmo complexo da zona norte receberá o maior festival feminino de futebol de várzea com 60 equipes jogando simultaneamente em todos os campos…a iniciativa, de abnegados e abnegadas é digna de livro dos recordes!

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