Papo Tático: Alguns pitacos sobre a atuação da Seleção Feminina e o início de trabalho de Pia Sundhage

Brasil venceu a Inglaterra pela primeira vez na história com dois gols de Debinha; equipe segue invicta sob o comando da treinadora sueca

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Daniela Porcelli / CBF

É bem verdade que o trabalho de Pia Sundhage à frente da Seleção Brasileira de Futebol Feminino ainda está no começo e qualquer julgamento pode soar precipitado e até leviano. Mesmo assim, ao analisaramos as atuações da equipe nas três primeiras partidas sob o comando da sueca, já é possível ver algumas mudanças. A primeira vitória do Brasil sobre a Inglaterra na história não é simbólica apenas pelo resultado em si, mas pelo crescimento do jogo coletivo e pela proposta clara de jogo de Pia para a nossa equipe feminina. Destaque para as boas atuações de Luana, Debinha e Tamires.

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Pia Sundhage manteve o 4-4-2 das partidas do Torneio Internacional de Futebol Feminino de São Paulo patra esse jogo contra a Inglaterra. A grande novidade era a entrada de Marta, que fazia sua primeira partida sob o comando da treinadora sueca na Seleção Brasileira. No entanto, o escrete canarinho sofreu no primeiro tempo com as investidas de Walsh, Parris, Mead e Taylor. O English Team, por sua vez, aproveitava bem os espaços deixados entre as linhas do time brasileiro e empilhou oportunidades de gol numa atuação mais sólida do que a da equipe de Pia nos primeiros 45 minutos. Faltava compactação e intensidade nas transições.

Pia Sundhage armou a Seleção Feminina no mesmo 4-4-2 das partidas contra Argentina e Chile, mas a Inglaterra foi melhor no primeiro tempo. Faltava intensidade e compactação na equipe brasileira. Foto: Reprodução / SporTV

A única chance da Seleção Feminina no primeiro tempo saiu justamente quando a equipe imprimiu mais intensidade e movimentação nas jogadas de ataque. Debinha saiu da direita para o meio (abrindo o corredor para Giovana) e desarrumando as linhas inglesas. A camisa 9 viu Bia Zaneratto se movimentando no espaço entre as linhas e passou a bola. Bia poderia ter passado para Marta (que entrava livre pela esquerda), mas preferiu a jogada individual e chutou da entrada da área para a defesa sem muitas dificuldades de Earps. Já temos aqui alguns dos conceitos de Pia Sundhage: ultrapassagens, intensidade e velocidade nas transições.

Debinha sai do lado para o meio e abre o corredor para a descida de Giovana. Marta abre o campo e Bia Zaneratto aproveita o espaço entre as linhas inglesas. Foto: Reprodução / SporTV

Uma das “heranças” deixadas por Vadão é o 4-4-2 que se transforma em 4-2-4 com a projeção das “pontas” para o ataque. Pia vem mantendo esse desenho tático, mas com algumas pequenas mudanças. A treinadora sueca incentiva as jogadas individuais, o improviso das jogadoras brasileiras. Aconteceu com Tamires e com Maria no lance dos dois gols brasileiros. As “pontas” se projetam para garantir superioridade numérica no ataque enquanto as volantes Luana e Formiga armam o jogo. É nesse sentido que se percebe mais uma necessidade da equipe brasileira. Falta uma jogadora para iniciar as jogadas no meio-campo, alguém que consiga organizar a equipe com bons passes e boa visão de jogo.

Pia Sundhage e a “herança” deixada por Vadão: o 4-4-2 que se transforma em 4-2-4 com as “pontas” se projetam para receber o passe das volantes brasileiras. Foto: Reprodução / SporTV

Por fim, a Seleção Feminina jogou melhor na segunda etapa. A equipe teve mais compactação, permitiu menos e ainda saía com mais intensidade para o ataque. Vale destacar também que as entradas de Ludmila e Maria melhoraram muito o desempenho do time de Pia Sundhage. Se a equipe brasileira ainda sente falta de uma organizadora no meio-campo, a treinadora sueca compensa esse problema com uma postura mais fechada e muita velocidade nas transições. A lamentar somente a bobeira de Mônica no único gol da Inglaterra na partida, marcado por England aos 35 minutos. Mesmo assim, o time brasileiro mostrou maturidade e administrou bem a vantagem até o apito final.

Seleção Feminina mais fechada e com linhas mais compactadas no segundo tempo. No destaque, o posicionamento de England às costas de Mônica pouco antes do gol da Inglaterra. Foto: Reprodução / SporTV

A primeira vitória da Seleção Brasileira Feminina sobre a Inglaterra na história dá sim uma certa esperança com relação à participação da equipe nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Por outro lado, ainda existe a necessidade de se corrigir alguns problemas mais sérios da equipe. A falta de uma organizadora no meio-campo é o mais grave para este que escreve. Pode ser Thaisa num 4-1-4-1 alinha da à Luana com Formiga à frente da zaga brasileira. Ou até mesmo Marta, jogando por dentro num 4-2-3-1 logo atrás de Bia Zaneratto (ou Ludmila) com duas jogadoras mais rápidas pelas pontas. De qualquer maneira, o segundo tempo do Brasil mostrou uma equipe mais sólida e mais concentrada.

A Seleção Feminina volta a campo nesta terça- feira (8) contra a Polônia, em Kielze, às 15h15 (horário de Brasília). Será mais uma boa chance de se observar como a equipe vem assimilando os conceitos de Pia Sundhage.

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