Aira Bonfim: Racismo velado e boleiro ou histórias para ninar gente grande

Colunista do Torcedores fala sobre racismo no futebol e cita o discurso de Roger Machado

Aira Bonfim
Colaborador do Torcedores

Crédito: Getty Images

Há poucos dias presenciamos o encontro inédito entre dois técnicos de futebol negros que se enfrentaram na partida válida pela 25ª rodada do Brasileirão. O Fluminense de Marcão Oliveira e o Bahia de Roger Machado protagonizaram o primeiro jogo da história do torneio máximo liderado por negros em pleno Maracanã.

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A despeito de tantos ídolos negros produzidos em campos tupiniquins, a exemplo de Leônidas da Silva, Pelé, Romário, Reinaldo, Vladimir, Ronaldinho e Neymar, nos surpreende que o “esporte nacional” não tenha realizado, até 2019, um encontro entre técnicos de futebol representantes da raça de maior composição numérica nesse país.

Fiz cópia – ou reuso – descarado do título do samba enredo campeão da escola de samba da Estação Primeira de Mangueira (História pra Ninar Gente Grande) de 2019. Fiz porque justificar o racismo, descarado na ausência de negros nos cargos de chefia e liderança, é como se encarássemos os nossos problemas assim… dormindo… ninando…

Como diz o samba, “Brasil chegou a vez de ouvir” e “tirar as poeiras dos porões”, afinal “queremos um país que não está no retrato”, que é real e de todos. E como tudo que acontece na sociedade tem também reflexo dentro de campo, o futebol nos ajuda a refletir sobre as oportunidades (ou não) numa carreira profissional esportiva.

E para quem já vira os olhos ao falar de racismo, antes que comece a papagaiar “discursos de igualdade” sobre a justificativa que “somos todos iguais, humanos e é apenas preciso se esforçar mais”, vale lembrar esse problema é estrutural da formação do brasileiro, forjado em séculos de famílias negras escravizadas, como bem lembrado (aliás, uma primorosa aula!) pelo técnico do Bahia, Roger Machado:

“Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso. As maiores discriminações que já senti não são ofensas e piadas ruins, mas, sim, o racismo estrutural. Quando passei pela faculdade, eu era o único estudante negro na sala e, com o dinheiro que ganhei no futebol, posso ir a restaurantes onde raramente existem outros negros, e eles costumam me dizer que minha presença naqueles lugares prova que os negros têm acesso a eles, mas a verdade é que o fato de sempre eu ser o único nesses lugares comprova racismo. ”

Vale lembrar que esse mesmo futebol se projetou (e ainda se projeta) como um sonho de ascensão social entre as pessoas mais pobres do Brasil. E sob um contexto de extrema desigualdade entre ricos e pobres, sendo esse último grupo ocupado majoritariamente por pessoas negras, o mesmo esporte forjou por anos a falsa ideia de uma possível democracia racial através desse esporte.

Apesar dos tantos destaques individuais no futebol, negros ocupam de maneira minoritária cargos de competência técnica e confiança, a exemplo de profissões como a de técnico de futebol ou até mesmo de goleiro. Negros também são alvos constantes dos episódios de racismo aqui e no mundo. Só em 2019, de acordo com o Observatório da Descriminação Racial no Futebol foram 36 casos mencionados no país.

Na semana passada seis pessoas foram presas por conta de comportamento racista, durante o jogo da Bulgária x Inglaterra pela Eurocopa, fato que inclusive provocou a demissão do então presidente da federação búlgara de futebol, Borislav Mihaylov. Imagina se a moda pega por aqui???

Vale lembrar, ao olharmos a nossa própria história esportiva, nas primeiras décadas do século XX, que jogadores negros brasileiros, já nas primeiras incursões internacionais realizadas contra vizinhos latinos, eram xingados de macaquitos para baixo.

Na época, ao invés de oportunamente encararem o racismo de frente, inverteram as prioridades e, para resolver o problema, dirigentes esportivos e o presidente do país preferiram não ou desconvocar jogadores negros e, dessa maneira, evitar o que foi chamado de “constrangimento internacional”.

Daniel Alves ficaria mais puto ainda se soubesse que o ato racista que ele viveu em campo em 2014, no Barcelona, é caso antigo e muito mal resolvido no ambiente do futebol. O mesmo pode-se dizer sobre o que aconteceu com o goleiro Aranha em Porto Alegre, no mesmo ano.

Vale outra lembrança histórica que, também nos primórdios desse esporte, ligas como a carioca Metropolitana (a principal do país), criou empecilhos formais aos clubes filiados a ponto de não conseguirem inscrever jogadores negros e trabalhadores braçais nos principais campeonatos de 1900.

O Bangu Atlético Club repudiou a proibição e abandonou a Liga. Anos mais tarde, em 1924, seria o Vasco da Gama que tomaria a mesma decisão. Ambos os clubes, inclusive, têm em suas histórias destacados personagens negros já nos primórdios de 1900: o Vasco com o presidente Cândido José de Araújo, em 1905, e o Bangu, um ano após a sua fundação em 1904, com o jogador Francisco Carregal.

Foto: Divulgação/Felipe Oliveira

Não faltaram outros bons exemplos de clubes em outras regiões do mapa, de norte a sul do país.

Entretanto, vale destacar que episódios de acepção de pessoas pretas aconteceram (e acontecem) desde então, e ao lado de temas como política e religião, o futebol se fez protegido e se transformou um dos seus piores problemas, o racismo, em algo natural/naturalizado no país do futebol.

Não é normal que em mais de 100 anos de muita boleiragem não exista uma única presença de um técnico negro na elite do futebol nacional.

Não é normal um povo amalgamado, feito de raças, cores e línguas, permitir uma única representação ocupando cargos de prestígio e visibilidade no futebol e em qualquer outra profissão.

Não é normal sugerir que as oportunidades, inclusive de trabalho, sejam resultado apenas do mérito próprio. Para bons entendedores de nossa história, apesar de tanto atraso, a chegada de Roger e Marcão à elite do futebol nacional representa o resultado de conquistas das mais diferentes lutas!

“Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra”

(trecho do samba enredo da Mangueira)

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