Rafael Oliveira: Klopp, Guardiola e a banalização do anormal

A disputa na Inglaterra novamente está concentrada em Liverpool e Manchester City

Rafael Oliveira
Colaborador do Torcedores

Crédito: Ian MacNicol/Getty Images

A Premier League é referência mundial e se consolidou como sinônimo de campeonato competitivo em alto nível. A capacidade de investimento permite contratações de peso para os diferentes cantos da tabela e isso gera interesse por clubes que vão além do atual bloco dos “seis grandes”.

A grande contradição é olhar para os últimos anos e enxergar as disputas entre Manchester City e Liverpool. Em 2017/18, o campeão teve incríveis 100 pontos. Em 2018/19, 97 pontos não bastaram para que os Reds impedissem o bi dos Citizens. Agora, o Liverpool larga com 100% de aproveitamento em 8 rodadas.

Não é normal. Nunca foi. E o nível atingido pelas equipes comandadas por Jurgen Klopp e Pep Guardiola não pode ser diminuído ou relativizado. O Liverpool sustenta uma série de 17 vitórias consecutivas, a segunda maior da história do futebol inglês, apenas atrás das 18 do Man City de 2017.

Ao contrário do que é frequentemente pregado para criticar outras ligas nacionais, a distância na classificação não é necessariamente um sinal de campeonato fraco ou pouco competitivo. Pode ser desequilibrado ou até previsível, mas não define o nível tático ou técnico. E a disputa entre Guardiola e Klopp é um bom exemplo de como a diferença também pode ser reflexo de algo positivo. Um puxa o outro, sem margem de erro e com aproveitamentos quase impecáveis.

O problema é quando nos acostumamos e passamos a tratar a exceção como normalidade. Vitórias viram rotinas, goleadas já são sem graça e tropeços são sempre imperdoáveis. Ainda não é o caso da Premier League, embora as derrotas do City para Norwich e Wolverhampton sejam pesadas para a classificação, mas aconteceu nas outras ligas em que trabalharam.

Guardiola conseguiu dominar completamente a Espanha e Alemanha. Criou times fantásticos que sobraram na regularidade dos pontos corridos. Imposição atrás de imposição, com um repertório coletivo que potencializou várias individualidades. O domínio foi tão grande que os títulos viraram mais do mesmo na avaliação de muitos, perdendo de vista o tamanho do trabalho para construir tamanho aproveitamento. Para diminuir os desafios competitivos de La Liga e Bundesliga, muitos questionavam o que aconteceria em uma Premier League, em que o equilíbrio não permitiria a mesma “facilidade”.

O mesmo. Após um período de adaptação e implementação de seu modelo de jogo, a Inglaterra viu a mesma dominância de Guardiola. Nunca um time sobrou tanto, nem nas sequências de Ferguson no Man Utd ou no título invicto de Wenger no Arsenal. Neste cenário, aparece Jurgen Klopp. Um outro estilo de jogo, capaz de bater de frente e competir contra o time a ser batido. E mais: com a improvável tarefa de acompanhar ao longo de 38 rodadas, como José Mourinho conseguiu fazer com o Real Madrid em 2012, auge da rivalidade espanhola, ao alcançar a inédita marca dos 100 pontos.

O Liverpool não vence o Campeonato Inglês desde 1990. E poucas vezes disputou, de fato, o título desde então. Muito aconteceu no período, mas, em muitos dos casos, o maior problema estava no número de tropeços bobos, em jogos “simples”, contra adversários inferiores. Os pontos já não ficam pelo caminho e Klopp subiu mais um degrau: agora, além de ser capaz de competir contra qualquer adversário, também há regularidade capaz de ganhar a cada fim de semana em uma das ligas mais exigentes do planeta.

Não é pouca coisa. E nem pode ser tratado como algo comum. A batalha travada por Guardiola e Klopp permite que duas exceções históricas dividam o mesmo tempo e disputem entre si no mesmo período. A Premier League nunca havia visto um time capaz de fazer mais de 95 pontos em uma temporada. Em dois anos, viu o Man City fazer 100 e 98, e o Liverpool fazer 97. Um conseguiu 18 vitórias consecutivas em 2017 e o outro já tem 17 em 2019. Com 100% após 8 rodadas, nada leva a crer que a pontuação necessária para levantar a taça vá diminuir. Guardiola eleva o nível de imposição, e sorte do campeonato que tem alguém com a capacidade de disputar até o fim.

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