Allan Simon: Flamengo enterra velhos conceitos sobre audiência em SP

Sucessos do Flamengo no Ibope em SP na Libertadores provam que povo paulista quer ver é bom futebol na TV

Allan Simon
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo. Trabalha com esportes desde 2011 e já passou por veículos como R7 (Rede Record), Abril.com, UOL Esporte e Torcedores nas funções de redator, repórter, editor e apresentador de vídeos. Experiências de coberturas em duas Copas, duas Olimpíadas, dois Pans. Atualmente, produz o Blog do Allan Simon, é colunista de Mídia Esportiva do Torcedores e colaborador do UOL.

Crédito: Globo e Flamengo - Ilustração: Allan Simon

Quando o Flamengo foi campeão da Copa do Brasil pela última vez, em 2013, quem estava em São Paulo e fosse flamenguista só conseguiu assistir à conquista do título diante do Athletico Paranaense em TV aberta porque a Band transmitiu o jogo decisivo. A Globo exibiu a semifinal da Copa Sul-Americana entre Ponte Preta e São Paulo apenas para os paulistas. Todos os outros estados viram a final nacional.

Quando o Flamengo foi campeão da Copa do Brasil na vez anterior, em 2006, quem estava em São Paulo e fosse flamenguista só conseguiu assistir à conquista do título diante do Vasco da Gama em TV aberta porque a Record transmitiu o jogo decisivo. A Globo mostrou a semifinal da Libertadores entre São Paulo e Chivas Guadalajara, jogo de ida, para paulistas e gaúchos. Todos os outros estados viram a final nacional.

Fomos “educados” a acreditar que esses dois exemplos são normais, afinal, a Globo precisava priorizar os jogos dos paulistas para o estado de São Paulo. Eram semifinais de competições continentais. Mas isso tudo são relíquias de um tempo no qual a emissora acreditava que o público de SP não gostava de ver jogos de times de outros estados. Talvez tivesse razão, baseada em números da época. Quem somos nós para contestar, não é mesmo?

Mas eu arrisco a dizer que, nos tempos atuais, tendo os poderes sobre o calendário que a Globo sempre possuiu, provavelmente as finais da Copa do Brasil de 2006 e 2013 teriam sido alteradas para outro dia da semana para serem exibidas em rede nacional, como foram os mata-matas da Libertadores com o mesmo Flamengo em 2019, além das partidas que decidiram a Copa do Brasil sem a presença inclusive de cariocas.

É que os tempos mudaram. Hoje estamos todos mais próximos, as redes sociais encurtaram todas as distâncias e estão iniciando um processo de mudança nas rivalidades e na própria forma como consumimos futebol. A conquista do título continental por parte do Flamengo foi um sucesso de audiência no mesmo estado de São Paulo que a Globo lá atrás julgava não se interessar pelos jogos do Rubro-Negro.

Segundo dados preliminares do Ibope divulgados pelo site Observatório da Televisão, foram 32 pontos de média, chegando a bater 41 pontos na Grande São Paulo em pleno sábado à tarde, um dia que tem marcado audiências ruins quando a emissora mostra futebol. Não foi exceção, nem acaso. Os duelos entre Flamengo e Grêmio nas semifinais já tinham marcado 30 e 32 pontos, ida e volta, respectivamente. Nos dois casos, o percentual de televisores ligados na Globo dentro do total tinha sido de 46% e 48%. No sábado, bateu 51%.

Não estamos fazendo uma comparação vazia com o passado. É real. Há bem pouco tempo, ainda que não houvesse paulistas disputando um campeonato paralelo, a Globo provavelmente teria “puxado” jogos do Campeonato Brasileiro para atender aos torcedores de São Paulo, deixando as decisões do Flamengo para as outras partes do país. O que mudou?

Além da mentalidade da Globo, nós passamos a acompanhar com muito mais interesse times de outros estados não apenas porque eles são fortes, têm investimentos e bons trabalhos, como o Flamengo de Jorge Jesus e o Grêmio de Renato Gaúcho. Mas porque estamos mais próximos dos torcedores dessas equipes. O dia todo em comentários de posts no Facebook, no Instagram, nas discussões e RTs do Twitter, não estamos mais fechados nas “bolhas” que nos confinavam às rivalidades meramente regionais.

Se nos anos 1990, por exemplo, perder um clássico era o auge de sofrer gozação pelo que viria no dia seguinte na escola ou no trabalho, agora perder uma partida para o Flamengo, Internacional, Grêmio, Cruzeiro, etc, gera quase o mesmo efeito e em tempo real. Começaram a surgir rixas virtuais, desafetos, torcidas que se provocam o tempo todo na internet. A tecnologia nos aproximou.

Surgida em 2005 no polêmico Brasileirão dos jogos anulados devido à “Máfia do Apito”, por exemplo, a rivalidade entre Corinthians e Internacional se intensificou nos últimos anos. Não era só uma questão de ter um amigo gaúcho em São Paulo, ou um paulista em Porto Alegre, para ver essas discussões sobre “roubo”, “colocar no DVD” e afins virarem realidade. Bastam alguns cliques. Fico imaginando como seria a relação entre palmeirenses e gremistas, por exemplo, se existissem as redes sociais com tamanho alcance na década de 1990, quando ambos os times viveram intensas batalhas principalmente em mata-matas.

O fato é que essa rivalidade virtual leva a animosidades na web, mas também a seguir mais de perto o adversário, secar com força parecida com a qual se seca um rival tradicional em momentos decisivos. E coloque aí o maior acesso que hoje nós temos ao Brasileirão como um todo. Antigamente era bem difícil sair do tradicional jogo de quarta e/ou fim de semana que sempre tinha um time paulista de um lado e algum “forasteiro” do outro, que nós precisávamos conhecer ali, na hora, pois não tínhamos acesso aos demais jogos.

Hoje as transmissões da Globo na competição nacional ainda são assim, mas nós conhecemos todos os outros 16 participantes da Série A por SporTV, Esporte Interativo, e, para alguns, o Premiere. Conhecemos até os 20 da Série B. Se assinar o DAZN, conhece os 20 da Série C. E com algum esforço de pesquisa, descobre que tem serviço de streaming em parceria com a CBF transmitindo até a Série D.

Essa ampliação de acesso faz com que nós estejamos mais conectados tanto no dia a dia com internautas do Brasil inteiro, como também ao noticiário dos clubes, ao que acontece nos treinos, as crises, sabemos deles com muitos detalhes coisas que antes eram, no máximo, “notas peladas” (aqueles textinhos que o apresentador lê rapidamente nos telejornais sem sequer ter uma imagem ilustrando) mínimas nos programas esportivos, ou pequenos textos em alguma coluna marginalizada nos jornais impressos. E, sim, nos interessamos por decisões, sejam elas quais forem.

Nada justificaria ficar sem a final da Libertadores na TV aberta, como já aconteceu em decisões do Cruzeiro, por exemplo, sem exibição para São Paulo. O povo paulista deu nas televisões a resposta dos novos tempos: velhos conceitos precisam acabar. Queremos ver bom futebol, não importa quem jogue.

Allan Simon é jornalista esportivo desde 2011, tendo passado por redações como o R7, Abril.com, UOL Esporte e Torcedores. Participou das coberturas de duas Copas do Mundo, duas Olimpíadas, dois Pans, e diversos outros momentos históricos do esporte brasileiro nesta década. Criador do Prêmio Torcedores de Mídia Esportiva. Atualmente comanda o Blog do Allan Simon, é colaborador do UOL e colunista do Torcedores. 

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