Aira Bonfim: Entre um campo de futebol ou uma escola, eu prefiro os dois, juntos!

Nem todo terreno sem construção é um espaço vazio de ocupações. Para cidades grandes como São Paulo, metros quadrados têm valor econômico para o mercado e por vezes, simbólicos para seus usuários.

Aira Bonfim
Colaborador do Torcedores

Uma várzea, uma pipa, uma festa junina são ocupações que não estão alheias de conflitos com o poder público.

Um pontinho no mapa

Imagine que você é a prefeita/o de São Paulo e precisa escolher na extensa cartografia da metrópole, um lugar para a construção de um equipamento de ensino/lazer/cultura/esporte.

Mapa do Geoportal.com

Numa perspectiva aérea da vista da cidade, são os terrenos marrons, demarcadinhos com as linhas da área e escanteio do futebol que chamam a atenção de qualquer pessoa.

Assim sendo, foram os campinhos de várzea que historicamente deram lugar às inúmeras construções municipais nas últimas décadas.

Essa é uma realidade de cunho urbanístico e político. Espaços “vazios” e periféricos que oportunamente dão lugar a chegada do poder público. Entretanto, vale destacar que na contramão, novos campos de futebol ou espaços de lazer e esporte, nem sempre surgem na mesma quantidade e qualidade para suprir o verdadeiro vazio de suas extinções.

Codó, Botafogo e o CEU Jambeiro

Essa desapropriação esportiva e de lazer já foi a realidade de muitos times de São Paulo. No entanto, quero destacar nesse texto o exemplo de resistência e parceria de entre o campo do Grêmio Botafogo FC de Guaianases e Codó com o CEU Jambeiro (Centro de Educação Unificado).

Campo do Botafogo de Guaianases ainda com terrão. Foto Enrico Spaggiari

Essas equipes de várzea coexistem no mesmo terreno do CEU Jambeiro há mais de 16 anos, quando o empreendimento foi inaugurado no extremo da Zona Leste, no bairro de Guaianases pelo ex-presidente Lula, o ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin e a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

Na época, em 2003, o fardamento da Estrela Solitária foi entregue para todos os políticos! Fato rememorado nas fotos presentes no museu do time (sua sede fica localizada na Rua Professor Alexandre Monat, na Vila Minerva).

A equipe do bairro, fundada em 1955, brigou com unhas e dentes pela sua permanência no local. No entanto, como contrapartida, o grêmio foi obrigado a mudar um pouquinho o lugar do campo e dividir o terreno e relações de vizinhança com o CEU.

O projeto dos CEUs inaugurados na gestão da Marta abriu não só escolas públicas, mas incluiu no equipamento a existência de teatro, quadra, biblioteca, tele-centro e muitas atividades, cursos e atrações gratuitas para quem morava quase na beira do mapa paulistano….Então, vendo assim…valia o esforço de convivência!

O Botafogo por sua vez, conquistou prestígio entre outros times da cidade por meio das boas colocações em campeonatos importantes de futebol amador: Copa Kaiser, Desafio ao Galo, Copa Negritude, Copa do Boi…. só para citar alguns.

Além de uma torcida numerosa e barulhenta, o time há anos atrai centenas de jovens entre 6 e 16 anos do bairro de Guaianases e redondezas para jogar bola. Esse público, desde a abertura do CEU Jambeiro, passou também a ocupar as atividades escolares e de contra turno do próprio equipamento.

Em 2012, quando visitei o recém colocado campo sintético da agremiação, eram 700 crianças atendidas gratuitamente. Quantitativamente, o Botafogo têm condições de produzir promessas esportivas, e nos últimos anos, pelo menos 10 garotos já foram treinar no CT de Cotia do SPFC.

Aliás, meu amigo e antropólogo Enrico Spaggiari tem uma pesquisa linda sobre o deslocamento na cidade de São Paulo dos atletas mirins do Botafogo oportunizada pelo futebol de várzea.

Vizinhança

O exercício do diálogo e os embates entre as diferenças políticas entre os times e o CEU Jambeiro não foram/são fáceis. Aliás, que relação de 16 anos é moleza?

Como o terreno é propriedade da SME, qualquer mudança ou reforma próxima ao campo ganham dimensão oficial e enfrentam caminhos burocráticos que ninguém gosta muito.

Campo do Codó e do Botafogo em 2019. Foto Aira Bonfim

Todavia, enquanto em outros CEUs da cidade só encontramos histórias de campos e times que deixaram de existir com a chegada das escolas, lá em Guaianases, cuidar do time, das histórias, do patrimônio e das cercanias do CEU Jambeiro que fundem numa ação única e compartilhada.

Os times têm muito a ensinar para o jovem CEU Jambeiro. O CEU têm muito a contribuir para a manutenção dos campos de futebol no local. A cidade só tem a ganhar com esse exercício de vizinhança e convivência.

O futebol de várzea se fez/faz de uma oportunidade de experiência de extensão do que é público e de como deve ser cuidado/preservado algo que pertence à todos.

O CEU é um projeto modelo, ousado, interdiciplinar, educativo, cultural, e no caso do território de Guaianases, ainda mais esportivo que tanto outros!

Não só pelos campos de futebol agregados ao projeto, mas todo o combo histórico-identitário que vêm com eles.

Não conhece??? Vai lá!

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