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Aira Bonfim: Eu fui no maior festival de várzea feminino do mundo!

Campeonato de várzea foi realizado em São Paulo neste feriado

Aira Bonfim
Colunista do Torcedores.com.

Nem mesmo a chuva espantou o entusiasmo de quem conferiu no feriado o maior festival de futebol feminino de várzea (do mundo!) realizado em São Paulo, no Complexo Esportivo Campo de Marte, zona norte da cidade.

O evento contou com a participação de 74 equipes femininas, com atletas do todos os cantos da metrópole, além da presença de equipes paraguaias para abrilhantar ainda mais esse marco histórico.

Foto Aira Bonfim

Marco Histórico?

Para acolher as mais de 1000 jogadoras de futebol, o festival contou com o envolvimento dos 6 campos de várzea pertencentes ao complexo: Pitangueira, SADE, Cruz da Esperança, Baruel, Veteranos Unidos Paulista e o Aliança (Soraia).

Só dessa maneira foi possível realizar 36 partidas simultaneamente em um único dia. Praticamente uma “rave” de futebol feminino das 8h as 18h no feriadão do dia da proclamação da República!

E falando em festa rave, é curioso pensar que os festivais de futebol surgiram inicialmente como festas “sportivas” lá no início do século XX. Entre 1910 e 1920 era muito comum ver clubes das principais ligas do Rio de Janeiro e São Paulo reunindo-se aos domingos em longas programações de atividades esportivas ao ar livre.

Foto Cassimano

É bem curioso que já nessas ocasiões já conseguimos identificar nas pesquisas meninas competindo corrida, bola ao cesto e ciclismo. E quando nos aprofundamos ainda mais nas fontes históricas, encontramos garotas inclusive jogando futebol entre elas ou mesmo em equipes mistas.

Já nessa sexta feira, quase 100 anos depois, o festival fez com que tivessem garotas para tudo quanto é lado: no estacionamento, no vestiário, brigando no campo, na arbitragem, no bar, fazendo selfie, canetando em campo, arrumando o cabelo, bebendo cerveja, cantando, comendo e carregando troféus de um lado para outro.

Foto Aira Bonfim

Quando foi que deixamos as meninas de fora do jogo?

A ocupação feminina no ambiente esportivo – e não só lá – já foi vista como uma invasão. Como se não fosse possível corpos diferentes (nesse caso homens e mulheres) pertencerem a um mesmo lugar, lazer, diversão… ou seja, ao mesmo esporte.

Apartou-se mulheres do jogo, do campo, do conhecimento e da prática sobre o futebol por mais de 40 anos (tempo em que foi legalmente proibido promover o esporte bretão entre as brasileiras).

Foto Aira Bonfim

“Mas porquê será que nunca tínhamos tido essa ideia antes??”

A frase dita por um dos organizadores do festival feminino refere-se a ideia de convidar times femininos para jogar nos 6 campos públicos do Complexo Esportivo.

A resposta encontra-se na naturalização feita por décadas de que futebol não é coisa para mulher – inclusive no país do futebol…

Em outras palavras….

“Porque vocês não nos chamaram para o jogo ué???”

Fica tão mais legal!

Mais a várzea feminina está surgindo agora?

No babe…..No…

Mesmo quando o futebol nem ao menos era permitido no nosso país já contávamos com times femininos jogando nos 4 cantos desse Brazil.

Agora, em 2019, essas equipes continuam lutando por agenda nos campos públicos, respeito e até mesmo vestiários femininos que considerem a existência delas no ambiente esportivo.

Foto Aira Bonfim

A diferença é que nos dias de hoje armas poderosas de comunicação têm contribuído significativamente com a ampliação da modalidade. As ligas femininas são formadas por Whatsapp; através das redes sociais é possível conhecer equipes e eventos varzeanos femininos;

A internet facilitou a disseminação do tema com mais facilidade. Novos canais de conteúdo sobre a modalidade permitem com que meninas do Brasil todo tenham acesso às histórias do passado e do presente.

E não poderíamos deixar de notar como a onda feminista mais recente alavancou com ela a percepção de que podemos ser o que desejamos, inclusive amantes da bola.

Não a toa, a frase feminista “Jogue como uma garota”, cunhada principalmente nos meses próximos à Copa do Mundo de Futebol Feminino realizada na França esse ano, foi vista sendo usada pelas mães das jogadoras do festival de hoje.

Foto Aira Bonfim

A várzea feminina que vemos hoje é tão resistente quanto as jogadoras de 20 anos atrás. A diferença é que elas cada vez mais atletas e famílias compreendem o direito de mulheres ocuparem um lugar entre as quatro linhas.

E agora, para onde vai esse futebol?

Com chuva ou sol, a galera jogou como se não houvesse amanhã no festival do dia 15/11/2019.

E talvez não houvesse amanhã mesmo. Existia um encontro marcado, único, inédito e digno que compor as linhas de um Guinness Book, a publicação dedicada aos recordes e superlativos reconhecidos internacionalmente.

Foto Cassimano

Para os que abriram as portas desses campos da Zona Norte de São Paulo… acredito que dificilmente se vejam sem a presença de mulheres dentro das quatro linhas no próximos meses…

Para quem compareceu, jogando ou acompanhando, levou de brinde um abraço e uma self de figuras ilustres da modalidade como a técnica Emily Lima e a ex-jogadora Deva Santos.

Foto Aira Bonfim

A cobertura da imprensa esportiva, a presença das equipes do Museu do Futebol e o samba só de mulheres vieram para chancelar ainda mais a importância desse encontro.

Eu, rouca como nunca antes, me sinto privilegiada por testemunhar em vida acontecimentos como este.

Se vc perdeu ou não mora em São Paulo, não perca a oportunidade de organizar o seu próprio festival de várzea feminino e quebrar o recorde do seu bairro ou cidade!

“Quem consegue reunir mais do que 74 times jogando no mesmo dia coloca o o dedo aqui!”

 

Foto Cassimano

Mais um vez os meus parabéns a Maria Amorim, Seu Otacílio Ribeiro e todos os representantes dos clubes do Complexo Esportivo Campo de Marte: Edson Sena, Edward Barbosa, Antônio Vieira, Fabio Henrique, José Humberto e Soraia Marques.

 

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