Garone: A titularidade precoce de Guarín no Vasco

Colombiano Fredy Guarín ganhou a vaga e a confiança de Luxemburgo no Vasco

Andre Schmidt
Colaborador do Torcedores

Crédito: Rafael Ribeiro/Vasco

O Vasco nunca apresentou um futebol vistoso, ofensivo, nesse Campeonato Brasileiro. Uma coisa, porém, a equipe vinha sendo desde a chegada de Vanderlei Luxemburgo: competitiva. Algo que vem perdendo nas últimas rodadas.

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Independente de nomes escolhidos para a escalação, constantemente alterada em razão de suspensões e lesões, sabia-se no início do trabalho de Vanderlei Luxemburgo como o Vasco iria jogar. Seus pontos fortes e fracos. Era um time, antes de tudo, encaixado defensivamente e montado para contra-atacar.

Nos últimos jogos, porém, apesar da ideia ainda ser a mesma, a eficiência na estratégia tem sido bem diferente. Um dos motivos, ao meu ver, a entrada precipitada de Fredy Guarín no time titular. Pra entender a alteração, no entanto, é preciso primeiro compreender como era o Vasco antes do colombiano.

O início do trabalho de Luxemburgo

Após sofrer 10 gols nos quatro primeiros jogos do Brasileiro (2,5g/j)- antes de Luxa -, a equipe precisou de mais 11 rodadas pra tomar outros dez – foram 12 no total (1,1 g/j). Foi vazado mais de uma vez apenas pelos ataques de Grêmio e Flamengo nesse período. Exatamente os times com mais gols no futebol brasileiro em 2019.

O 4-1-4-1 compacto na defesa, com dois volantes por dentro – Raul e Marcos Júnior, às vezes Andrey – e dois pontas muito participativos na marcação – Rossi e Marrony – era eficiente. Uma escalação de segurança para deixar a degola.

O problema, até então, era ofensivo.

Sem o centroavante pedido na janela de transferências – o clube tentou Anangonó, Tréllez e Pottker, entre outros -, mas com o surgimento de Talles Magno, o Vasco seguiu apostando na velocidade e nas bolas paradas. Justo, pelas limitações do elenco.

Atacando, porém, Raul e Marcos Júnior saíam pelos lados, dando apoio aos pontas e aos laterais na construção das jogadas. Poderia não ser o ideal, já que não são jogadores de definição, seja no último passe ou na finalização, mas era o que dava equilíbrio ao time. Bem fisicamente, eram capazes de cumprir as duas funções em campo: atacar e defender. Algo fundamental na estratégia vascaína.

Sólido defensivamente, o time precisava de pouco para vencer. Apenas um gol nas partidas contra Ceará, Goiás, Fortaleza e Internacional para ficar com os três pontos. De um também para pontuar contra Avaí, Fortaleza, Palmeiras, Athletico Paranaense e, novamente, o Vozão. Somente dois para triunfar contra Inter, Fluminense, São Paulo, Chapecoense, Atlético Mineiro e Botafogo. Em ninguém fez três.

Não encantava, mas subia na classificação.

As primeiras mudanças

Após estabelecer o esquema com três volantes, dois deles se apresentando ao ataque pelos lados, o treinador decidiu abrir mão do sistema que vinha funcionando. A última vez que o trio Richard, Raul e Marcos Júnior iniciou um jogo foi no 0 a 0 com o Avaí, em Santa Catarina, onde a equipe não foi bem.

Talvez pressionado por jogar em casa contra um adversário da parte de baixo da tabela, no duelo com o Fortaleza, Luxemburgo lançou um quarteto à frente com Rossi, Marrony, Talles Magno e Ribamar. Apenas Richard e Andrey jogaram mais recuados.

O Vasco venceu, mas apenas após o técnico sacar o seu camisa 9 e colocar mais um meia em campo: Felipe Ferreira. A mudança inicial, portanto, apesar de na teoria ter um olhar para o gol, na prática não foi o que ocorreu. Com dois atacantes e dois homens de velocidade pelos lados,  a equipe conseguiu apenas cinco finalizações – uma na direção do gol. Com a trinca de meias – um deles um pouco mais solto, caso de Ferreira -, na etapa final, esse número dobrou. Das 10, cinco foram no alvo.

Indefinição e a busca por algo novo

No jogo seguinte, contra o Botafogo, Luxemburgo parece ter aberto mão de vez do esquema com três volantes. Manteve Felipe Ferreira como titular, compondo o meio com Richard e Bruno Gomes. O 2 a 0 aberto em apenas 18 minutos, ambos em chutes de fora da área, deram tranquilidade ao time.

No entanto, com Felipe, a combatividade no meio caiu e o Bota passou a esboçar uma pressão. Para tranquilizar a partida, o técnico lançou Marcos Júnior em seu lugar, voltando ao esquema do início. Foi quando a posse do Glorioso caiu de 71% (!) para cerca de 61%, e o Vasco segurou o 2 a 1.

Posse do Vasco subiu após as mudanças (Fonte: Footstats)

O mesmo aconteceu contra o Internacional, na rodada seguinte. Vanderlei repetiu a escalação, acabou pressionado fora de casa por um time superior e precisou mudar no intervalo novamente. Dessa vez, trocou Ribamar por Guarín, com Marrony virando centroavante. O gol veio logo no início do 2º tempo e a pegada no meio foi mantida após nova entrada de Marcos Jr na vaga de Felipe Ferreira. A posse vascaína subiu de 28% para mais de 40% após as alterações, mesmo com Júnior não indo bem.

Vasco subiu sua posse após as mudanças contra o Inter também (Fonte: Footstats)

A titularidade de Guarín

Após entrar bem no decorrer dos confrontos com Botafogo e Internacional, Guarín ganhou a primeira chance entre os 11 contra o Ceará. Mas não como volante. O colombiano atuou mais avançado, fazendo a função que vinha sendo exercida por Felipe Ferreira. Praticamente não tocou na bola, deixando o campo com apenas oito passes certos e três errados.

Contra o Grêmio, a ideia de jogo foi mantida, somente com Raul entrando na vaga de Rossi, suspenso. Jogando ao lado de Bruno Gomes e Richard, Guarín ficou ainda mais isolado na criação e o Vasco acabou derrotado em São Januário. O mesmo aconteceu nos jogos com Fluminense – 0 a 0 – e Palmeiras – derrota por 2 a 1.

Na teoria, o time seguiu com os três volantes do início do trabalho. Na prática, porém, passou a jogar com dois homens mais fixos e um meia central. Esse, no entanto, pesado, incapaz de fazer a transição e a recomposição em velocidade. Não durante 90 minutos. Dessa maneira, a equipe perdeu o apoio dos volantes pelos lados – que tinha com Raul e Marcos Jr/Andrey – e também intensidade na marcação. Dificultou para criar e para se defender.

Nos últimos quatro jogos, o Vasco cedeu aos adversários 59 finalizações. Uma média de cerca de 15 por partida. Nas dez rodadas anteriores, o volume havia sido de 106 – 10,6 por jogo, aproximadamente 33% a menos. Números que deixam clara a frouxidão recente na cobertura da bola.

Tecnicamente, Guarín tem tudo para ser titular do Vasco. Mas não agora, não fora de forma. Certamente o colombiano não é o único problema, porém, sua entrada longe das melhores condições físicas alterou a dinâmica do coletivo, que tem tido dificuldades para se encaixar.

Restando poucos jogos para o fim do Brasileiro – e do ano -, ter que remontar o Vasco por causa de um jogador é um risco desnecessário que Luxemburgo escolheu correr.