Helvídio Mattos: “Aquele futebol do interior foi para uma gaveta, mas não somos obrigados a conviver com esse”

Um dos maiores repórteres da história do jornalismo brasileiro revive grandes momentos à espera dos “clubes-empresa”

Iberê Riveras
Colaborador do Torcedores

Foto: Helvídio Mattos exibe a camisa do XV de Jaú, campeão do Paulista Sub-20 da Segunda Divisão

Não é só dentro das quatro linhas que o futebol perdeu o romantismo. O jornalismo esportivo também tem se tornado cada vez mais pragmático, insensível. Dono de um estilo inconfundível que une informação e poesia, Helvídio Mattos está fora das telinhas desde que foi dispensado pela ESPN Brasil no final de 2017, um desfalque insubstituível para o “fã do esporte”.

Nascido em São Paulo no ano seguinte à Copa do Mundo de 50, Helvídio interessou-se pelo ofício porque, na vila aonde residia, seus amigos de infância eram filhos de jornalistas. Cresceu, sonhou ser correspondente de guerra, “inventou países” e criou, assim, sua “primeira grande reportagem”.

Após passar por veículos importantes da mídia impressa como o ‘Jornal da Tarde’ e a ‘Revista Cruzeiro’, “aprendeu televisão” em 1978 na TV Tupi – que vivia seus estertores. Já no ano seguinte, iniciou sua trajetória na TV Cultura, quando marcou época nos programas ‘Vitória’ e ‘Grandes Momentos do Esporte’, entre outros.

Em entrevista para a TV Torcedores, em março deste ano, contou que a experiência que teve em outras editorias o fez um repórter que trata o futebol de outra maneira. “Pô, quando você for fazer um jogo de futebol, aquele estádio cheio, não se esqueça de olhar para o cara que vende pipoca, porque ali pode ter uma história também.” Aí está a centelha de sua mirada jornalística.

Em 1996, José Trajano o levou para a recém-criada ESPN Brasil, casa em que permaneceu por 21 longos anos. Desde o final de 2017, a legião de fãs de Helvídio Mattos, na qual me incluo, aguarda o seu retorno.

Você conhece o canal do Torcedores no Youtube? Clique e se inscreva!
Siga o Torcedores também no Instagram

Iberê Riveras: Você nasceu na capital, mas sua ligação com o interior é forte. Como ela se iniciou?

Helvídio Mattos: Minha relação com futebol do interior do Estado de São Paulo vem de longe, quando eu era criança ainda e foi amadurecendo ao longo do tempo, ao longo da minha vida. Foi pelas páginas dos jornais e pelas ondas do rádio que eu tomei conhecimento do futebol do interior, dos clubes de lá. Eu ficava fascinado pela história das rivalidades locais, por exemplo, do Come-Fogo [Comercial x Botafogo] de Ribeirão Preto, do dérbi de Campinas e depois, avançando um pouco no tempo, quando cheguei a cobrir muitos jogos no interior. O Bragantino era muito legal, teve o envolvimento da cidade naquele momento em que se sagrou campeão paulista no embate contra o Novorizontino [1990], quando chegou à final do Brasileiro disputando com o São Paulo [1991], lembro da Ferroviária de Araraquara do grande Bazani, lembro também  do XV de Piracicaba que era presidido pelo seu folclórico presidente [Romeu Italo Ripoli], estes times me marcaram muito. Depois veio o XV de Jaú, o União São João de Araras, o Mogi Mirim, estes times acabaram fazendo parte sim da história do futebol paulista, como um todo, uns alcançaram status de nível nacional. Foi muito legal participar, primeiramente ver, ouvir e ler e depois testemunhar o futebol do estado de São Paulo. É uma época que eu tenho saudades.

IR: O que se lembra do período em que a TV Cultura cobria jogos da Intermediária com o José Góes, o Dudu [Carlos Eduardo Leite], o Wilson de Freitas? Você chegou a trabalhar com eles nestas coberturas?

HM: Na época em que eu trabalhei na TV Cultura, que foi a partir de 1989, entrei para fazer o ‘Vitória’, mas mesmo assim eu ia para o interior para trabalhar com o Zé Góes e o Dr. Wilson. Havia um programa na TV Cultura, que ia ao ar sábado, ao vivo, não estou falando do ‘Grandes Momentos do Esporte’, estou falando de outro programa que envolvia praticamente toda a TV Cultura. Era voltado para a cidade, para uma cidade do interior, um festival de cultura mesmo na cidade. A própria Inezita Barroso se apresentava. E, dentro desse festival, tinha o futebol da Intermediária. E lá ia eu, na maioria das vezes com o Góes, mas também com o Dr. Wilson. Era muito legal porque você entrava no estádio, era uma festa… em São José do Rio Preto, em outras cidades do interior paulista. O José Góes se fez em Sorocaba como narrador esportivo, ele tinha muito do interior paulista na alma dele, eram jogos maravilhosos, os estádios quase sempre lotados, a torcida muito empolgada e eram jogos bons de você trabalhar, isso me fez conhecer um pouco mais deste mundo futebolístico do interior de São Paulo. Foi uma época muito legal na minha formação.

IR: Como você vê a decadência do futebol do interior?

HM: Vejo com muita tristeza a situação de penúria em que os clubes paulistas do interior estão. Falta dinheiro pra tocar o futebol, alguns clubes como o Botafogo, por exemplo, estão trilhando o caminho de se associar a uma empresa para se transformar num clube-empresa. Talvez mais pra frente, outros clubes também tentem isso, mas até agora não está dando certo não. Um clube disputa um campeonato por três meses, que é o Campeonato Paulista, e depois a Copa Paulista, que também é de “tiro curto”, então é muito pouco para você manter o elenco para o ano seguinte, pagar salários, “bicho”, então é complicado. Os clubes de um tempo para cá viraram formadores de jogadores, de talentos para “exportação”, seja para fora do país ou mesmo para os clubes maiores de dentro do estado ou o Santos. Eu não consigo enxergar uma solução para isso. É triste você ter vivido o período em que os campeonatos estaduais eram mais valorizados e, agora, essa decadência nos clubes do interior.

IR: Acredita que a FPF [Federação Paulista de Futebol] tem a missão de auxiliar os clubes ou isso é um problema exclusivamente deles?

HM: Acredito que a FPF deveria ser mais atuante, a solução não está só nos clubes. A coisa tem que ser conjunta, clubes e Federação Paulista. Também não acho que as prefeituras dos municípios que têm clubes de futebol profissional possam arcar com as despesas. A prefeitura tem que cuidar primeiro do município mesmo, da população, das demandas da população e tocar o bonde. Mas acredito que, se por ventura, esse projeto do clube-empresa que está tramitando no congresso passar, com os devidos ajustes, aí pode ser a solução, mas também depende muito de quem vai se associar com o clube. A coisa é bem complicada. Eu acredito no clube-empresa, mas precisa ver direitinho como é que vai ser.

IR: A FPF enriqueceu muito nas últimas décadas, tanto que chegou a construir o seu novo prédio. Este dinheiro não deveria ser direcionado aos clubes?

HM: Eu acredito que essa coisa da construção de sedes luxuosas de federações ou confederações de esportes vai muito da empáfia dos dirigentes. No caso da FPF, não tinha mais como ela continuar na sede antiga da [Avenida] Brigadeiro Luís Antônio, por um motivo simples. Com a evolução da tecnologia, estes prédios mais antigos não tinham mais condições de abrigar uma sede de federação. São tantos fios, cabos, eletricidade. Agora estamos na era digital, todo mundo trabalha na base do computador, da internet, então tem que ter uma tecnologia apropriada. Tudo bem construir uma sede adequando estas necessidades, mas não precisaria ser nada luxuoso, torrar uma quantidade grande de dinheiro. Eu votaria por algo mais simples e parte deste dinheiro ser destinado a algum tipo de suporte aos clubes mais necessitados. Mas talvez o problema seja outro, político. Não se pode deixar chegar ao ponto de o clube “sumir do mapa”, fazer parte do passado só.

IR: Acha que os bons tempos do futebol do interior podem voltar ou foi algo que não volta mais?

HM: Olha, voltar ao que era antes, isso não vai acontecer mais. Com os clubes fortes, na sua maioria, times poderosos, com jogadores e técnicos muito bons, isso não vai voltar mais, já faz parte de uma gaveta que está no armário do passado, infelizmente. A gente vai ter que conviver com uma nova realidade. No entanto, não somos obrigados a conviver com a realidade atual, isso não pode acontecer. Tem que ter uma nova realidade, teremos que lutar para que esta nova realidade se consolide.

IR: Das matérias sobre clubes e jogos no interior, quais as que mais te marcaram?

HM: Lembro bem das minhas idas a Bragança Paulista pela TV Cultura, quando o Bragantino estava prestes a jogar o jogo de volta da decisão do Brasileiro de 91, contra o São Paulo. Eu lembro bem da cidade toda enfeitada, todo mundo era Bragantino lá, o pessoal da rádio de Bragança, as pessoas na rua, a população de mais idade com o orgulho tremendo de ver o seu Bragantino na final de Campeonato Brasileiro. E a população jovem se divertindo à beça, formando torcida. Lembro também do ‘Bar do Silvio’ ali em frente à igreja, que era o bar da tradicional linguiça de Bragança, então toda vez que a gente ia pra lá, terminava o trabalho e depois a imprensa toda se encontrava lá pra conversar sobre o trabalho que havia sido feito naquele dia. Essas idas à Bragança foram muito proveitosas, tanto profissional quanto pessoalmente, foi muito legal mesmo. E claro, me lembro do dérbi de Campinas [Ponte Preta x Guarani], os dois times eram fortes no Campeonato Paulista, de muita tradição. Era uma rivalidade muito grande, mas muito grande mesmo que às vezes chegava à violência. Às vezes não, quase sempre (risos). Mas era bom ir a Campinas num dia de dérbi, a cidade ficava em polvorosa. Uma coisa que me marcou muito foi uma matéria lá em São Carlos, com a turma do [Grêmio] Sãocarlense, não sei se chegou a disputar a 1ª divisão, mas a 2ª com certeza. Já pela ESPN, teve uma ocasião que o Sãocarlense estava numa draga danada e os jogadores iam de ônibus para o jogo, ônibus de linha. E eu acompanhei isso, indo para um jogo. Vários jogadores pegavam o mesmo ônibus e fiz esse trajeto com eles até chegar ao estádio. A volta pra casa também. Isso era uma coisa característica do futebol do interior porque às vezes não tinha dinheiro. Era preciso se virar pra continuar fazendo o que mais se gostava, que era jogar futebol.

IR: Quais as torcidas mais apaixonadas que você se lembra?

HM: Ah, as torcidas… (risos), lembro de muita coisa. Essa coisa de Bragança que eu falei… Mas lembro do Come-Fogo lá em Ribeirão Preto, as torcidas do Comercial e do Botafogo, sendo o jogo lá no Santa Cruz [estádio do Botafogo] ou no Palma Travassos [estádio do Comercial], era uma festa muito grande. A cidade toda se envolvia, não tinha como não ser torcedor de um desses times. Mesma coisa lá em Campinas. Lembro de uma matéria que fiz quando o Oeste de Itápolis subiu da 2ª para a 1ª pela primeira vez na história, era um clube relativamente novo. O estádio lá em Itápolis era pequeno, tiveram que erguer aquelas arquibancadas móveis, de estrutura metálica. Como era muito vertical e ficava cheia de cabecinhas, era chamada de “Bombonera de Itápolis”. Mas não posso me esquecer da torcida do XV de Novembro de Piracicaba, que tem o canto mais caipira das torcidas de clubes do interior de São Paulo. Eu vou cantar um trechinho só para vocês terem a medida, a noção de como era esse canto da torcida. Vamos lá, era mais ou menos assim: “Cáxara de forfe/Cúspere de grilo/Bícaro de pato/Já que tá que fique/Gooooorrrr!/Quinzê/Crá crá crá!/Quinzê/Crá crá crá!” E por aí vai (risos). (Veja a versão do hino popular do XV de Piracicaba com a banda ‘Seo Manouche’)

 Final da Copa Paulista na FOX e FPF TV

O campeão terá direito de escolha entre uma vaga na Copa do Brasil de 2020 ou a Série D de 2020; o vice-campeão fica com outra vaga.

Final, jogo de volta

Sábado (16), 17h
São Caetano x XV de Piracicaba, no Anacleto Campanella (São Caetano do Sul) (3 x 2)

Paulista Sub-20 (1ª) no DAZN

Final, jogo de ida

Quarta-feira (20), 16h
Palmeiras x Red Bull Brasil, no Pacaembu (São Paulo)

Paulista Sub-20 (2ª) – XV de Jaú campeão

Sexta (15)
Inter de Bebedouro 0 x 2 XV de Jaú (0 x 0)

Paulista Sub-17

O Novorizontino foi eliminado na semifinal. Palmeiras e São Paulo farão a final.

Paulista Sub-15

O Red Bull Brasil foi eliminado na semifinal. Palmeiras e Santos farão a final.

Paulista Sub-13 na FPF TV

Final, jogo de volta

Domingo (17), 10h
Marília x São Paulo, no Bento de Abreu Sampaio Vidal (Marília) (2 x 3)

Paulista Sub-11

Rio Claro, Primavera de Indaiatuba e Manthiqueira de Guaratinguetá pararam nas quartas de final. A final está sendo disputada entre Palmeiras e Santos.

Copa São Paulo de Futebol Júnior 2020 – cidades-sede confirmadas

Araraquara, Bauru, Franca, Indaiatuba, Itapira, Itu, Jundiaí, Marília, Porto Feliz, Sertãozinho, Taubaté, Tanabi, Tupã, Assis, Guaratinguetá (interior), Barueri, Guarulhos, Diadema e Suzano (Grande São Paulo).

Campeonato Carioca 2020

Dois clubes do interior (Americano de Campos e Friburguense – campeão da Série B1) irão disputar a Seletiva que irá apontar os dois últimos participantes do Estadual do Rio. Os rivais serão América, Macaé, Nova Iguaçu e Portuguesa.

Os outros dois clubes interioranos (Volta Redonda e Resende) caíram no Grupo B e terão a concorrência direta de Fluminense, Vasco da Gama e Madureira, além do 2º colocado da Seletiva.

Seletiva – 1ª rodada

Sábado (21 de dezembro), 15h
Nova Iguaçu x Friburguense, no Laranjão (Nova Iguaçu)
Portuguesa x Americano, no Luso Brasileiro (Ilha do Governador)

Campeonato Paulista da Série A1 de 2020

Dos 16 participantes, nove são do interior.

Botafogo, Ferroviária, Guarani, Inter de Limeira, Ituano, Mirassol, Novorizontino, Ponte Preta, Red Bull Bragantino (interior), Corinthians, Palmeiras, São Paulo (capital), Água Santa, Oeste, Santo André (Grande São Paulo), Santos (litoral).

Campeonato Paulista da Série A2 de 2020

Dos 16 participantes, dez são do interior.

Atibaia, Monte Azul, Penapolense, Red Bull Brasil, Rio Claro, São Bento, Sertãozinho, Taubaté, Votuporanguense, XV de Piracicaba (interior), Audax, Juventus, Portuguesa, São Bernardo FC, São Caetano (Grande São Paulo) e Portuguesa Santista (litoral).

Campeonato Paulista da Série A3 de 2020

Dos 16 participantes, 14 são do interior.

Batatais, Barretos, Capivariano, Comercial, Desportivo Brasil, Linense, Marília, Nacional, Noroeste, Olímpia, Paulista, Primavera, Rio Preto, Velo Clube (interior), EC São Bernardo e Grêmio Osasco (Grande São Paulo).

LEIA MAIS:
Iberê Riveras: Terceirizado, Paulista de Jundiaí volta a ser campeão; veja outros destaques do interior
Iberê Riveras: ‘Nova Intermediária’ e ‘Terceirona’ poderiam chacoalhar o futebol paulista