Iberê Riveras: “Nova rica” do futebol brasileiro, Ferroviária projeta chegar à elite nacional até 2025

Bilionário que fez do São Caetano uma potência nos anos 2000 rompe com clube do ABC e assume a “Ferrinha” de Araraquara

Iberê Riveras
Colaborador do Torcedores

Foto: As três estrelas sobre o escudo celebram o "tricampeonato do interior" em 1966/67/68

O ano de 2019 está sendo generoso com o futebol do interior de São Paulo. Depois da aquisição do Bragantino por parte da Red Bull, a tradicional Ferroviária, que já era um clube-empresa desde 2004, se habilita a subir até o topo da pirâmide do futebol brasileiro. O sonho se tornou palpável na noite da última terça-feira (19), quando os 12 acionistas da Ferroviária S/A aprovaram por unanimidade a venda dos 49% da empresa “Know How” para a “MS Sports”, braço de administração esportiva do empresário Saul Klein, um apaixonado pelo futebol.

“Depois da fundação [em 1950, por um grupo de empregados da Estrada de Ferro Araraquara (EFA)], depois daquelas campanhas memoráveis dos anos 60, 70 e 80 e da transformação em clube-empresa, temos agora um momento importantíssimo na vida da Ferroviária. A gente recebe com muita satisfação um novo investidor, um investidor de porte, com vida muito longa no futebol. As expectativas são muito boas para nós”, afirmou Carlos Alberto Salmazo, presidente da AFE. A Associação Ferroviária de Esportes irá disputar em 2020 a 1ª divisão do Campeonato Paulista e a 4ª do Brasileiro.

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Saul Klein, herdeiro das Casas Bahia e “eterno parceiro” do São Caetano – vice-campeão brasileiro em 2000 e 2001, vice da Copa Libertadores em 2002, campeão paulista em 2004, vice em 2007 –, interrompeu suas doações ao clube do Grande ABC há pouco tempo. Chegou a flertar com o rival Santo André e com o Comercial de Ribeirão Preto, mas acabou elegendo o clube da Morada do Sol – apelido da cidade de Araraquara, localizada a 277 km da capital – como o seu novo xodó.

Ninguém acreditava que um dos maiores mecenas do futebol brasileiro se desligaria um dia do “Azulão”, clube-empresa do qual não era sócio, mas doava cerca de R$ 2 milhões por mês. Aparentemente, quem partilhava deste pensamento era o presidente do clube, Nairo Ferreira de Souza, figura polêmica indicada pelo histórico prefeito Luiz Olinto Tortorello (1937-2004) quando da fundação da AD (Associação Desportiva), em 1989. Calcula-se que Saul proporcionou ao clube algo em torno de R$ 500 milhões nos últimos 20 anos. Não foi o suficiente para o São Caetano aprender a andar com as próprias pernas. Após 30 anos de vida, sua estrutura é paupérrima – até o estádio Anacleto Campanella é da prefeitura. Pior do que isso, as dívidas hoje batem na casa dos R$ 30 milhões. O time foi campeão da Copa Paulista no último sábado (16), mas os atletas não recebem seus vencimentos há dois meses. Disputará a 2ª divisão do Paulista no ano que vem.

Saul é filho do lendário Samuel Klein (1923-2014), imigrante judeu-polonês que sobreviveu ao campo de concentração nazista entre os anos de 1939 e 44. Migrou para o Brasil em 1952, quando conseguiu acumular algum capital como mascate, vendendo roupa de cama, mesa e banho. Fundou, cinco anos mais tarde, as Casas Bahia, que se tornaria uma das maiores redes de varejo do país.

No início deste século, as ações da companhia já estavam divididas igualmente entre os três filhos de Samuel: o primogênito Michael (que era e é o presidente da empresa), Sara (que vive nos Estados Unidos e nunca participou da administração) e o caçula Saul, então responsável por todo o departamento comercial. Era ele quem conseguia preços e prazos junto aos fornecedores em condições mais vantajosas do que a concorrência. “Trata-se de um grande negociador, conhecedor do mercado como poucos”, afirmou certa vez um executivo que trabalhou com os Klein. “Tem visão estratégica além de seu tempo”, cravou.

Em 2009, após anos de desentendimentos com o irmão sobre a condução dos negócios – pesou também a tradição judaica de dar preferência ao primogênito –, Saul decidiu sair da sociedade, vendendo a sua terça parte para Michael pela fábula de R$ 5 bilhões. O empresário tem comportamento discretíssimo, raramente dá entrevistas ou se deixa fotografar. Reside em Alphaville, bairro nobre de Barueri e seu refúgio é a Ilha de Itaparica, na Bahia.


Genivaldo Leal (diretor de futebol do São Caetano), Saul Klein e Nairo Ferreira
Foto: Reprodução Facebook/AD São Caetano

Um dado chama a atenção na trajetória de Saul. Justamente no período em que deixou as Casas Bahia, há dez anos, afastou-se fisicamente do dia-a-dia do São Caetano, seguindo apenas na retaguarda financeira, controlando o fundo de colaboradores e doadores à distância. A última década do “Azulão” foi pífia, repleta de más campanhas e rebaixamentos, ao mesmo tempo em que Saul enfrentava problemas de saúde. Em julho deste ano, reapareceu no cotidiano do clube cheio de disposição, animado. Esteve presente in loco em várias partidas do time azul na Copa Paulista, especulou sobre novas frentes de negócio, mas frustrou-se com o presidente Nairo. Resolveu ir embora, não se sabe se de forma definitiva.

Encantou-se pela Ferroviária por sua administração transparente, boa infraestrutura e considerável patrimônio. Sem dívidas, o clube grená tem apresentado superávit nos últimos anos. Pesou também o calor de sua torcida, que começou a festejar a nova fase da agremiação ainda na noite da aprovação do acordo. O modelo de administração tende a ser semelhante ao do Red Bull Bragantino, inclusive com um sistema de jogo único, das categorias de base ao profissional – o diretor de futebol será o ex-zagueiro Roque Júnior, ex-Palmeiras e Seleção Brasileira, que já estava no clube.


Camisa das temporadas 55/56, em exposição no museu do clube no estádio Arena da Fonte
Foto: Reprodução/TV Ferroviária

O presidente da Ferroviária, Carlos Alberto Salmazo, deixará a “Locomotiva” no final do ano para que um nome de confiança de Saul Klein assuma o comando. Serão realizados investimentos na base, infraestrutura, como a construção de um centro de treinamento completo, com academia, alojamento, refeitório e centro médico. O investimento inicial será o mesmo que era repassado ao São Caetano, R$ 2 milhões por mês – a folha salarial no último Campeonato Paulista girava em torno de R$ 500 mil mensais. O vitorioso projeto de futebol feminino também será mantido. A equipe é a atual campeã brasileira e vice-campeã da Copa Libertadores.

No Paulistão, a Ferroviária integra o Grupo D, ao lado de Corinthians, Red Bull Bragantino e Guarani. Vai sair lasca.

A coluna recomenda a leitura do livro “Samuel Klein – A História do Homem que Revolucionou o Varejo no Brasil”, do jornalista Elias Awad.

Cronologia da “Ferrinha”

1950: Fundação do clube
1951: Estreia na 2ª divisão do Campeonato Paulista
1955: Campeã da 2ª divisão (supera seu maior rival, o Botafogo de Ribeirão Preto), acesso à 1ª divisão do Campeonato Paulista
1956: Estreia na 1ª divisão do Campeonato Paulista
1959: Melhor campanha da história (3ª colocada da 1ª divisão do Paulista)
1960: Primeira excursão ao exterior (vitória sobre o Porto por 2 a 0), vitórias sobre os quatro grandes de São Paulo (inclusive sobre o Santos de Pelé: 4 x 0)
1963: Mais duas vitórias sobre o Santos de Pelé (4 a 1 em Araraquara e 5 a 1 na Vila Belmiro)
1965: Rebaixamento à 2ª divisão do Campeonato Paulista
1966: Campeã da 2ª divisão (supera o XV de Piracicaba), acesso à 1ª divisão do Campeonato Paulista
1967: “Campeã do Interior” (título atribuído pelo jornal “Folha de S. Paulo” à equipe interiorana de melhor desempenho no Campeonato Paulista)
1968: “Bicampeã do Interior”, novamente 3ª colocada da 1ª divisão, vitória em amistoso sobre o Napoli por 4 a 0, em Araraquara
1969: “Tricampeã do Interior” (conquista definitiva do Troféu Folha de S. Paulo), novamente vitórias sobre os quatro grandes de São Paulo
1971: “Taça dos Invictos” após 14 jogos sem perder (vence o rival Botafogo no “jogo da taça”)
1980: Estreia na 2ª divisão do Campeonato Brasileiro (3ª colocada)
1983: Estreia e única participação na 1ª divisão do Campeonato Brasileiro – vitória histórica sobre o Grêmio por 3 a 1 no Estádio Olímpico. O time gaúcho seria campeão mundial naquele ano) (12ª colocada)
1985: Semifinalista do Campeonato Paulista (superada pela Portuguesa)
1988: Estreia na 3ª divisão do Campeonato Brasileiro
1994: Vice-campeã da 3ª divisão do Brasileiro (superada pelo Novorizontino), acesso à 2ª divisão
1996: Rebaixamentos à 2ª divisão do Campeonato Paulista (após 30 anos na elite) e à 3ª do Brasileiro
1997: Rebaixamento à 3ª divisão do Campeonato Paulista
2000: Rebaixamento à 4ª divisão do Campeonato Paulista
2002: Remanejamento à 3ª divisão do Campeonato Paulista por conta do Torneio Rio-São Paulo
2003: Rebaixamento à 4ª divisão do Campeonato Paulista
2004: Transformação do clube em S/A (Sociedade Anônima), acesso à 3ª divisão do Campeonato Paulista
2006: Campeã da Copa Paulista (superou o Bragantino na final) – quebrando jejum de 40 anos sem títulos
2007: Acesso à 2ª divisão do Campeonato Paulista, estreia na Copa do Brasil
2009: Reforma e reinauguração do estádio Fonte Luminosa (que se tornou Arena da Fonte), rebaixamento à 3ª divisão do Campeonato Paulista
2010: Vice-campeã da 3ª divisão do Campeonato Paulista (superada pelo Red Bull Brasil na final), acesso à 2ª divisão do Campeonato Paulista
2015: Campeã da 2ª divisão do Campeonato Paulista, acesso à 1ª divisão do Campeonato Paulista – após 19 anos
2016: 2ª participação na Copa do Brasil
2017: Bicampeã da Copa Paulista (supera a Inter de Limeira na final), 3ª participação na Copa do Brasil
2019: Passa a ser controlada pela empresa “MS Sports”, do empresário Saul Klein

Vídeo divulgado pelo Botafogo de Ribeirão Preto contra o racismo Clique aqui

 Paulista Sub-20 (1ª divisão) no DAZN

Final, jogo de volta
Domingo (22), 10h
Red Bull Brasil x Palmeiras, no Nabi Abi Chedid (Bragança Paulista) (2 x 0)

Campeonato Paulista – Série A1

1ª rodada
Quarta-feira (22 de janeiro)
Corinthians x Botafogo
Ferroviária x Mirassol
Inter de Limeira x Guarani
Ituano x Palmeiras
Novorizontino x Oeste
Ponte Preta x Santo André
Santos x Red Bull Bragantino
São Paulo x Água Santa

Domingo (5/4) – Quartas-de-final (única)
Domingo (12/4) – Semifinal (única)
Domingo (19/4) – 1ª Final
Domingo (26/4) – 2ª Final

Campeonato Paulista – Série A2

1ª rodada
Quarta-feira (22 de janeiro)
Monte Azul x Rio Claro
Portuguesa x XV de Piracicaba
Penapolense x São Caetano
Votuporanguense x Juventus
Audax x Taubaté
Atibaia x Red Bull Brasil
Sertãozinho x Portuguesa Santista
São Bernardo FC x São Bento

Quarta-feira (1/4) – 1ª Quartas-de-final
Domingo (5/4) – 2ª Quartas-de-final
Domingo (12/4) – 1ª Semifinal
Domingo (19/4) – 2ª Semifinal
Quarta-feira (22/4) – 1ª Final
Sábado (25/4) – 2ª Final

Campeonato Paulista Série A3

Dos 16 participantes, 14 são do interior.

Batatais, Barretos, Capivariano, Comercial, Desportivo Brasil, Linense, Marília, Nacional, Noroeste, Olímpia, Paulista, Primavera, Rio Preto, Velo Clube (interior), EC São Bernardo e Grêmio Osasco (Grande São Paulo).

Final da Copa Paulista – São Caetano campeão

O São Caetano irá disputar a Série D de 2020; o XV de Piracicaba jogará a Copa do Brasil de 2020.

XV de Piracicaba 2 x 3 São Caetano
São Caetano 1 x 1 XV de Piracicaba

Paulista Sub-20 (2ª divisão) – XV de Jaú campeão

XV de Jaú 0 x 0 Inter de Bebedouro
Inter de Bebedouro 0 x 2 XV de Jaú

Paulista Sub-17 – São Paulo campeão

O Novorizontino foi eliminado na semifinal.

Paulista Sub-15 – Palmeiras campeão

O Red Bull Brasil foi eliminado na semifinal.

Paulista Sub-13 – São Paulo campeão

Marília vice-campeão

São Paulo 3 x 2 Marília
Marília 0 x 1 São Paulo

Paulista Sub-11 – Santos campeão

Rio Claro, Primavera de Indaiatuba e Manthiqueira de Guaratinguetá pararam nas quartas de final.

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