Iberê Riveras: Terceirizado, Paulista de Jundiaí volta a ser campeão; veja outros destaques do interior

Enquanto Ponte Preta e Guarani fazem o dérbi campineiro 195 em crise política, Paulista e XV de Piracicaba fazem o seu torcedor sonhar

Iberê Riveras
Colaborador do Torcedores

Foto: Campeão da Segunda Divisão, o Paulista irá disputar a Série A3 em 2020 (Gustavo Amorim/Paulista FC)

Vice-campeão paulista de 2004, campeão da Copa do Brasil de 2005, integrante da Copa Libertadores da América de 2006, com direito a vitória sobre o poderoso River Plate. Ninguém poderia imaginar que, a partir de 2007, o Paulista Futebol Clube entraria na fase mais negra de sua história, com cinco rebaixamentos em dez anos. O sobe-e-desce do tradicional “Galo da Japi”  Japi é o nome da serra que escora a cidade – tem relação direta com o histórico de parcerias e cogestões, que interfere há 25 anos.

Tudo começou em 1994, com a Magnata como parceira. A primeira cogestão se deu no ano seguinte, com a Lousano Condutores Elétricos, que inclusive alterou o nome do clube para Lousano Paulista. Entre 1998 e 2002, novo sistema de cogestão, desta vez com a multinacional italiana Parmalat, que radicalizou e criou o Etti Jundiaí. “Até este ponto, os torcedores torciam o bico para as mudanças de nome, mas os resultados em campo acabavam dispersando”, aponta o historiador Ivan Gottardo, autor do livro “1968, O Ano Que o Galo Cantou”, que além de detalhar a história do PFC desde que foi fundado por funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro em 1909, destaca o primeiro acesso do clube à elite do campeonato estadual.

“O maior problema desta época das cogestões, que foi boa para o clube, é que quando elas foram embora o Paulista ficou sem nada, não soube se profissionalizar”, continua Gottardo. Esse é um dos maiores problemas do futebol brasileiro. Via de regra, os clubes não acertam a mão nos contratos, desperdiçando a chance de crescer ao lado dos bons parceiros ou cogestores e de proteger seu patrimônio ante os aventureiros. Após a saída da Parmalat, o clube chegou a se chamar apenas Jundiaí por cerca de seis meses, até que após um plebiscito entre os torcedores o nome original foi resgatado.  Curiosamente, durante o período de ouro entre 2004 e 2006, não havia parceria. Boa parte dos destaques era “da base” no período da Parmalat.

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Alguns meses depois da inédita participação do clube na Copa Libertadores, em 2006, o Paulista entrou na maior roubada de sua história. Uma parceria com o projeto Campus Pelé e o Banco Fator desencadeou uma crise sem precedentes. Lançado pelo próprio Pelé em 2007, o objetivo do fundo era usar o Paulista para revelar, negociar jogadores e recompensar investidores ao redor do mundo. No entanto, tudo foi pelos ares três anos mais tarde, com enorme prejuízo para o clube – além das dívidas, as quedas no Brasileirão da Série B para a C, em 2007, e da C para a D, em 2008. No ano seguinte, eliminação na Série D e adeus ao calendário nacional. O pior ainda estava por vir.

A segunda onda de rebaixamentos, desta vez em nível estadual, começou em 2014, quando caiu da A1 para a A2. Os anos de 2016 e 2017 representaram o fundo do poço com as quedas para a A3 e, finalmente, para o quarto e último nível do futebol paulista. A dívida chegou a R$ 22 milhões, mais de 100 processos trabalhistas, contas bloqueadas e, desespero, o estádio Jayme Cintra levado à leilão, mais de uma vez – não foi arrematado. Uma entidade assistencial chegou a organizar um almoço beneficente que permitiu o pagamento de três contas de energia.

Perto de fechar as portas, o Paulista se reuniu mais de uma vez com representantes da Red Bull, fabricante de energéticos, para tentar viabilizar um grande projeto que envolveria também o Oeste de Barueri, que disputa a Série B do Brasileiro. No entanto, a multinacional austríaca acabou optando por um dos maiores rivais do Paulista, o Bragantino. No início deste ano, sem forças para andar com as próprias pernas, o Paulista partiu para uma nova parceria, com as empresas Kah Sports e Fair Play, responsáveis pelo agenciamento de atletas, mas também pela gestão de departamentos de futebol. “Foi uma negociação difícil, no começo fomos vistos com muita desconfiança por boa parte dos torcedores, da imprensa. Mas aos poucos, demonstrando a seriedade do nosso projeto, as coisas foram se acertando”, afirma Hikmat Derbas, um dos sócios da Kah Sports, que assumiu o posto de supervisor de futebol. Pelo contrato, o Paulista continua responsável pelo departamento administrativo – a boa notícia é que algumas contas já foram desbloqueadas após a Justiça responsabilizar o Banco Fator pela maior parte da dívida. Acordos trabalhistas também têm sido conduzidos e a possibilidade de zerar as contas já não parece tão distante. O Paulista, parece, começa a sair da UTI.

A campanha na dificílima 4ª e última divisão do Campeonato Paulista foi bastante regular, com 19 vitórias, oito empates e apenas três derrotas. A partir das quartas de final, com jogos de ida e volta, a coisa esquentou. Duas vitórias contra o Assisense, outras duas contra o Flamengo de Guarulhos – que garantiram o acesso à Série A3 – e dois empates na final contra o tradicional Marília, que também subiu de divisão. O título veio em grande estilo, com um eletrizante 3 a 3 com o estádio Jayme Cintra lotado. O gol que decidiu a competição foi marcado pelo zagueiro João Paulo, aos 43 minutos do segundo tempo (veja abaixo a reportagem da TV TEM de Marília).

Após a conquista do sábado (2), o técnico Edson Fio, o gerente de futebol José Carlos Santos e o próprio Hikmat Derbas foram sondados por clubes da A1 e de outros estados. O contrato do Paulista com a Kah Sports e Fair Play só vai até o final da Copa São Paulo de Juniores de 2020, que inclusive terá Jundiaí como uma das sedes. Segundo Derbas, a sequência do projeto com o “Galo da Japi” está em aberto. “Ainda não foi conversado, não tem nada definido.” O Paulista deverá estrear na Série A3 do Paulista de 2020 no dia 18 de janeiro.

 
Hikmat Derbas (supervisor de futebol), José Carlos Santos (gerente de futebol) e Edson Fio (técnico)

A mensagem que a trajetória do Paulista deixa para todos os clubes do interior é clara e cristalina: parcerias e cogestões podem ser imprescindíveis para clubes que não conseguem se manter. No entanto, é preciso que cada detalhe dos acordos seja extremamente bem formulado. Um clube não pode terceirizar o seu futebol sem que receba uma contrapartida substancial que o ajude a preservar o seu patrimônio, privilegiando a sua autonomia. Os ganhos precisam contemplar os dois lados. Já no caso de parcerias malsucedidas, só o contrato pode proteger o clube das incontáveis aves de rapina que sobrevoam o futebol em busca de um naco de carne, uma oportunidade de golpear estas entidades sagradas chamadas “clubes de futebol”. Todo cuidado é pouco.

XV de Piracicaba de olho no calendário nacional

O “Nhô Quim” tem batido na trave para retornar à 1ª divisão do Campeonato Paulista – caiu em 2016. Um dos caminhos para alcançar quarto e último nível do Campeonato Brasileiro – a Série D – é pelo Paulista da Série A1, o outro é pela Copa Paulista – o campeão escolhe entre uma vaga para a Série D do Brasileiro, que a partir de 2020 terá nova fórmula e garantirá o mínimo de 14 jogos para cada clube.

Neste sábado (9), às 18h, o XV recebe no Barão de Serra Negra o São Caetano, pela partida de ida da final da Copa Paulista, torneio bolado pela Federação Paulista de Futebol para ocupar os clubes ‘sem calendário’ no segundo semestre. A fanática torcida piracicabana está mobilizada para a partida, que será transmitida pela Fox.

Para o gestor de futebol do clube, Beto Souza, é a oportunidade do XV dar o “pulo do gato”. “Em 2016, ganhamos esta mesma Copa Paulista e optamos pela vaga na Série D do Brasileiro, mas não conseguimos passar da 1ª fase. Se conseguirmos uma nova conquista, vamos insistir na Série D, nosso objetivo é estabilizar numa competição nacional”, afirmou. Como as vagas para a Série D são móveis, ou seja, cada federação estadual indica, a cada ano, seus representantes de acordo com a última temporada, a perspectiva de estabilidade só começa na Série C – proeza que o Ituano alcançou neste ano.


Beto Souza é o gestor do XV (Foto: Jefferson Barbosa/EPTV)

Em relação ao calendário paulista, Souza demonstra preocupação. “Ao mesmo tempo que seria interessante preenchê-lo um pouco mais, não sei se seria viável para muitos clubes, pois aumentaria consideravelmente as despesas. Atualmente, os clubes do interior possuem enormes dificuldades para manter a folha salarial por cinco, seis meses, fora as outras despesas, já que começam suas atividades bem antes do início do campeonato. Os times se apresentam em novembro, no mais tardar em dezembro, para iniciar a pré-temporada, imagina isso com um torneio que durasse ainda mais.”

Dérbi campineiro 195 “só pela rivalidade”

Guarani e Ponte Preta enfrentam-se neste sábado (9), às 16h30, no Brinco de Ouro da Princesa. A temporada dos dois clubes é tenebrosa. No Campeonato Paulista, não avançaram às quartas de final nem se consolaram com o Troféu do Interior. Já no Brasileiro da Série B, a cinco rodadas de sua conclusão, não têm mais chance de acesso – o Guarani ainda precisa se safar de vez do risco de rebaixamento.

O caos político não dá sossego aos dois rivais. O ex-presidente do Guarani, Palmeron Mendes Filho, que era alvo de processo de impeachment, renunciou em setembro, alegando problemas de saúde. Esta semana foi a vez de José Armando Abdalla, com a mesma alegação, deixar a presidência da Ponte Preta. A pressão sobre Abdalla aumentou há algumas semanas, quando estourou o escândalo que derrubou o ex-diretor de marketing, Eric Silveira, acusado de cometer irregularidades na administração de um bar do clube e na distribuição de ingressos às torcidas organizadas.

O novo presidente do Bugre é Ricardo Miguel Moisés, que responde por denúncia do Ministério Público por fraude de combustível. Moisés foi proprietário de postos de gasolina no interior de São Paulo e teria participado de organização criminosa que adulterava o produto. A possibilidade de sofrer processo de impeachment segue pairando sobre o Brinco de Ouro da Princesa.

Já o novo mandatário da Ponte é Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, coordenador de Relações Institucionais da CPFL. Apesar de ser o 1º vice-presidente da atual administração, Arcanjo tinha rompido com o ex-presidente Abdalla. A Macaca não passava por uma renúncia de presidente desde 1996, quando o histórico Sérgio Carnieli assumiu – ficou no poder até 2011. Atual presidente de honra, Carnielli agora vê sua ala voltar ao poder com Arcanjo.

Poucas vezes se viu na história do futebol clubes embananados politicamente prosperarem em campo. É de se lamentar que GFC e AAPP sofram tanto com seus dirigentes, suas incríveis torcidas merecem coisa melhor. Só há uma saída: novos grupos se organizarem e partirem para a dura missão de adentrar a vida política de seus clubes. A trajetória é longa, penosa, mas recompensadora.

Final da Copa Paulista na FOX e FPF TV

O campeão terá direito de escolha entre uma vaga na Copa do Brasil de 2020 ou a Série D de 2020; o vice-campeão fica com outra vaga.

Final, jogo de ida:

Sábado (9), 18h
XV de Piracicaba x São Caetano, no Barão de Serra Negra (Piracicaba)

Paulista Sub-15 na FPF TV

Semifinal, jogos de volta

Sábado (9), 9h – FPF TV
São Paulo x Santos, no Morumbi (São Paulo) (0 x 3)
Palmeiras x Red Bull Brasil, no CT do Palmeiras II (São Paulo) (3 x 0)

Paulista Sub-17 na FPF TV

Semifinal, jogos de volta

Sábado (9), 11h
Palmeiras x Novorizontino, no CT do Palmeiras II (São Paulo) (2 x 1)
Corinthians x São Paulo, no Parque São Jorge (1 x 2)

Paulista Sub-11 na FPF TV

Não sobrou nenhum clube do interior. A final será disputada entre Palmeiras e Santos.

Paulista Sub-13 na FPF TV

Com dois empates por 0 x 0 contra o Santos, o MAC está na final.

Final, jogo de ida

Domingo (10), 10h
São Paulo x Marília, no José Liberatti (Osasco)

Paulista Sub-20 (1ª) no DAZN

Semifinal, jogos de volta

Sábado (9), 10h
Red Bull Brasil x Ituano, no CT do Red Bull Brasil (Jarinu) (2 x 0)
Segunda (11), 19h
Palmeiras x São Paulo, no Pacaembu (São Paulo) (1 x 0)

Paulista Sub-20 (2ª) na FPF TV

O XV de Jaú superou o Bandeirante de Birigui e a Inter de Bebedouro eliminou o São José.

Final, jogo de volta

Sexta (feriado do dia 15), às 10h
Inter de Bebedouro x XV de Jaú, no Sócrates Stamato (Bebedouro) (1 x 1)

Copa São Paulo de Futebol Júnior 2020 – cidades-sede confirmadas

Araraquara, Bauru, Franca, Indaiatuba, Itapira, Itu, Jundiaí, Marília, Porto Feliz, Sertãozinho, Taubaté, Tanabi, Assis, Guaratinguetá (interior), Barueri, Diadema e Suzano (Grande São Paulo).

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