Papo Tático: Conquista do Paulistão Feminino é a cereja do bolo no ano mágico do Corinthians de Arthur Elias

Timão vence o São Paulo por 3 a 0 diante de mais de 28 mil torcedores presentes no Itaquerão; Corinthians conquistou o Paulistão, a Libertadores e foi vice-campeão brasileiro e transformou 2019 num ano mágico

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rodrigo Coca / corinthians.com.br

É bem possível dizer que o que eu e você vimos no Itaquerão na manhã deste sábado (16) é algo histórico. O Corinthians venceu o São Paulo por 3 a 0 na final do Campeonato Paulista de Futebol Feminino diante de 28.862 torcedores presentes no estádio. Recorde de público para uma partida entre clubes na modalidade no país e título que coroa o belíssimo trabalho de Arthur Elias à frente do Timão. Vice-campeão brasileiro (perdendo para a Ferroviária na final), campeão da Libertadores Feminina e agora o primeiro Campeonato Paulista da equipe feminina (com 20 vitórias em 20 jogos). O ano do Corinthians foi qualquer coisa de mágico. Não existe outra palavra para definir essa temporada. Foram 47 jogos em 2019 e apenas uma única derrota. Recordes sendo batidos e barreiras sendo quebradas.

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Já era de se esperar que o jogo seria bastante intenso no Itaquerão. De um lado estava o Corinthians de Arthur Elias. E do outro estava o São Paulo de Lucas Piccinato. Ambos crias do Centro Olímpico campeão brasileiro em 2013 e ambos adeptos de um futebol de bastante intensidade nas transições, velocidade nos contra-ataques e muitas trocas de passes. Só que era o Timão que levava a melhor nesse último quesito e, consequentemente, em todos os demais. Arthur Elias deixou Crivelari mais à frente e trouxe Vic Albuquerque mais para o meio, junto de Millene e Tamires numa variação do seu usual 4-2-2-2 para um 4-2-3-1 mais definido. Já o Tricolor Paulista atacava e se defendia num 4-4-2 com Cristiane no comando de ataque ao lado de Valéria. O grande problema, no entanto, estava na compactação das linhas do time de Lucas Piccinato. Havia uma cratera na frente da defesa e um prato cheio para seu adversário.

Corinthians armado no 4-2-3-1 (variando para o 4-2-2-2 conforme a movimentação de Vic Albuquerque) e explorando bem os espaços à frente da defesa do São Paulo. Esse foi o mapa da mina para o título inédito do Timão. Foto: Reprodução / YouTube / FPF TV

É claro que esses espaços seriam bem aproveitados pelo bem armado time do Corinthians. Logo aos quatro minutos de partida no Itaquerão, a zagueira Érika aproveita a desatenção das adversárias e faz o lançamento para Crivelari que só ajeita para Vic Albuquerque (que já havia se atacado o espaço vazio) aparecer às costas de Thaís e Bruno e marcar um belo gol por cobertura. O lance seria um resumo do que foi a primeira etapa da Final Majestosa: o São Paulo buscava o ataque com Ary e Yaya conduzindo a bola pelo meio, Cristiane abandonava o ataque para armar o jogo, mas o time como um todo não conseguia engrenar por conta dessa já citada falta de aproximação entre as jogadoras do Tricolor Paulista. Brenda e Jaqueline muito mais corriam atrás de Katiuscia e Juliete do que apareciam na frente para ajudar o ataque são paulino. A superioridade do Corinthians era tanta que a equipe teve dois gols anulados ainda nos primeiros 45 minutos.

O grande problema do São Paulo na Final Majestosa foram os espaços que a equipe deixava à frente da sua defesa. Tanto para atacar como para defender, o time de Lucas Piccinato sofreu além da conta diante de um Corinthians bem armado e organizado. Foto: Reprodução / YouTube / FPF TV

A rigor, a única boa chance do São Paulo na partida foi um chute de Brenda defendido por Tainá Borges dentro da área no final da primeira etapa. E só. A volta do intervalo até mostrou um Tricolor Paulista mais aceso e mais presente no campo ofensivo. Só que aí foi a vez do Corinthians dar uma aula grátis de contra-ataque para quem estava assintindo a Final Majestosa. Bola recuperada no ataque, a redondinha chega em Juliete que vê Crivelari atacando o espaço onde estariam as zagueiras do São Paulo. A camisa 19 do Timão passa para Millene no lado direito e faz o passe em profundidade. Ela tira a zagueira adversária da jogada e a bola sobra para Juliete (que acompanhou e acreditou no contra-ataque desde o início) tocar na saída de Carla e marcar o segundo do Corinthians na Final Majestosa. Tudo feito com muita objetividade e deixando evidente todo o trabalho feito por Arthur Elias na sua equipe.

Bola recuperada no meio-campo por Juliete e todas as jogadoras do Corinthians já se posicionam para atacar o espaço vazio. Mais uma amostra da boa execução dos conceitos de Arthur Elias na sua equipe. Foto: Reprodução / YouTube / FPF TV

A pá de cal viria aos 35 minutos da segunda etapa com uma movimentação interessante do time do Corinthians. Paulinha já havia entrado no lugar de Crivelari e o time de Arthur Elias já havia retornado ao seu 4-2-2-2 mais costumeiro. Tamires e Paulinha aparecem mais por dentro (abrindo o corredor para a subida das laterais), a camisa 21 se livra da marcação e faz o passe (novamente) às costas da zaga do São Paulo para Millene marcar o terceiro gol e fechar a belíssima vitória corintiana. O que impressiona nem é o placar, mas a forma como ele foi construído. O time comandado por Arthur Elias não abandonou seu estilo de jogo e manteve a concentração durante os 90 e poucos minutos da Final Majestosa. Nem mesmo quando Lucas Piccinato rearrumou o São Paulo numa espécie de 4-2-4 ultra-ofensivo e posicionou quatro jogadoras na intermediária ofensiva o Corinthians se abalou. Isso é mérito das atletas e também da comissão técnica.

Tamires e Paulinha aparecem por dentro, abrem o corredor para as laterais e ainda armam contra-ataques. E tudo isso sempre aproveitando os espaços generosos à frente da defesa são paulina. Foto: Reprodução / YouTube / FPF TV

Impossível não dizer que o título do Paulistão Feminino está em ótimas mãos. Não so pelos recordes, mas pela maneira como esse time do Corinthians entrou em campo nesse ano mágico de 2019. Organização, concentração, ótima proposta de jogo, disciplina tática e muito mais. Arthur Elias merece os méritos pela montagem da equipe e por conseguir implementar seus conceitos de futebol moderno e bem jogado no Timão. Ao mesmo tempo, não podemos nunca deixar de exaltar o São Paulo de Lucas Piccinato. Campeão Brasileiro da Série A2, finalista do Paulistão e um projeto que pode dar muitos frutos num futuro próximo. Ainda mais com Cristiane comandando a equipe com sua experiência, carisma e inteligência. O que eu e você vimos no Itaquerão foi a cereja do bolo de um ano sensacional para o futebol feminino. Equipes com camisas pesadas percebendo que a modalidade merece mais respeito e visibilidade de tudo e todos.

Presenciamos a história sendo reescrita numa manhã de sábado. Fica a esperança de dias melhores para o nosso futebol feminino. Pelo clima entre as duas equipes e pela emoção que tomou conta de jogadores, jornalistas e comissão técnica antes, durante e depois da Final Majestosa.

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