Papo Tático: Desperdício de talentos e futebol burocrático, um retrato do quinto jogo sem vitória da Seleção Brasileira

Mais organizada e concentrada, Argentina vence o Brasil com gol de Messi ainda no primeiro tempo; Tite promove mudanças, mas atuação da sua equipe deixou a desejar mais uma vez

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Este que escreve já se posicionou mais de uma vez como fã do trabalho de Tite e de sua história no futebol. Mas nem mesmo a admiração por um profissional vitorioso como o técnico da Seleção Brasileira pode influenciar o julgamento e a análise das atuações recentes da sua equipe. A derrota para a Argentina nesta sexta-feira (15), em Riade, na Arábia Saudita, foi mais um retrato da péssima fase de Tite. Equipe espaçada, estática e completamente burocrática, além da insistência numa estratégia de jogo que não tem funcionado. De nada adiantou ouvir a torcida que pedia pela entrada de Rodrygo e promover a entrada do garoto do Real Madrid. A Seleção Brasileira vive um dos seus períodos mais complicados nessas últimas décadas.

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A situação já se mostrava complicada nos primeiros minutos da partida, quando Gabriel Jesus desperdiçou penalidade que ele mesmo sofreu (o terceiro pênalti perdido nas últimas quatro cobranças). Três minutos depois, Messi abriu o placar para uma Argentina que jogava de maneira organizada num 4-2-3-1 e se fechava em duas linhas com seu camisa 10 pronto para armar o contra-ataque no momento em que a posse da bola fosse retomada. Já Tite tentava “reinventar” a Seleção Brasileira (nas suas próprias palavras) barrando Marquinhos e Philippe Coutinho e promovendo as entradas de Éder Militão e Lucas Paquetá na sua equipe. O que se via, no entanto, era a mesma apatia dos últimos jogos. A Seleção se mantinha estática e não conseguia furar o eficiente bloqueio defensivo portenho e nem criar algo além do ataque posicional tão defendido e utilizado por Tite.

Argentina se defendendo em duas linhas e negando espaços ao ataque brasileiro. A equipe de Tite sofreu para criar jogadas no primeiro tempo. Foto: Reprodução / TV Globo

Tite tentou mudar o desenho tático da Seleção Brasileira ainda na primeira etapa mudando apenas o posicionamento dos seus jogadores. O seu costumeiro 4-1-4-1 (com Paquetá e Arthur alinhados à frente de Casemiro) e voltou para o 4-4-2 com o jogador do Milan aberto pelo lado direito, Willian à esquerda, Firmino voltando um pouco mais e Gabriel Jesus no comando de ataque. A única coisa que essa mexida conseguiu fazer foi abrir uma verdadeira cratera no meio-campo brasileiro e facilitou ainda mais o trabalho dos comandados de Lionel Scaloni. A Argentina seguia levando mais perigo e a Seleção Brasileira continuava apática e sem criatividade apesar de ter mais posse de bola. Não é exagero dizer que essa “nova” disposição tática lembrava muito o 4-2-4 espaçado de Vadão nos tempos em que este comandou a Seleção Feminina. Péssima inspiração.

Paquetá saiu do meio e veio para a direita na mudança do 4-1-4-1 para o 4-4-2. A mudança no esquema tático piorou ainda mais o desempenho da Seleção Brasileira. Foto: Reprodução / TV Globo

Veio o segundo tempo e Tite fez o óbvio. Mandou a campo o único jogador com características de articulador que tinha à disposição. Philippe Coutinho entrou no lugar de Paquetá e melhorou (um pouco) a produção ofensiva da Seleção Brasileira na partida. No entanto, o camisa 11 não conseguiu fazer a diferença dentro de campo muito por conta da já conhecida insistência de Tite no seu ataque posicional. Sem movimentação e intensidade nas transições, o futebol de Philippe Coutinho, Firmino e todos os demais brasileiros foi sumindo aos poucos. O mesmo aconteceu com Fabinho (que entrou no lugar de Arthur na segunda etapa). O volante do Liverpool melhorou a dinâmica do meio-campo, mas esbarrou na falta de mobilidade do escrete canarinho. Como se vê, o problema nem está nos jogadores, mas na estratégia escolhida por Tite para a Seleção Brasileira.

Philippe Coutinho entrou, mas a Seleção Brasileira não mudou de estratégia. O ataque posicional de Tite acabou com a mobilidade do time em campo. Intensidade zero. Foto: Reprodução / TV Globo

Na metade do segundo tempo, Tite promoveu as entradas de Renan Lodi, Richarlison e Rodrygo nos lugares de Alex Sandro, Gabriel Jesus e Willian respectivamente, mas sem modificar seu estático e burocrático esquema de jogo. A Argentina seguia melhor em campo e obrigou o goleiro Alisson (o melhor da Seleção Brasileira na partida) a trabalhar bastante. Foram pelo menos duas grandes defesas (fora o pênalti de Messi) do camisa 1 do escrete canarinho. Tite ainda tentou colocar mais presença ofensiva na área portenha com a entrada de Wesley (atacante do Aston Villa) no lugar de Casemiro. No entanto, o ataque posicional defendido pelo treinador seguia travando a equipe brasileira. A nossa Seleção terminou o jogo com 59% de posse de bola, mas finalizou apenas cinco vezes a gol contra 11 da Argentina (dados do SofaScore). Resumo da ópera: cinco jogos sem vitórias e muito a ser corrigido.

Tite empilhou sua equipe de atacantes no final da partida, mas acabou esbarrando na boa organização defensiva da Argentina de Lionel Scaloni. O ataque posicional segue sem dar resultados na Seleção Brasileira. Foto: Reprodução / TV Globo

A Seleção Brasileira chegou ao seu quinto jogo sem vitórias. São duas derrotas (Peru e Argentina) e três empates (Colômbia, Senegal e Nigéria). A última vez em que a nossa Seleção amargou um jejum tão longo foi há 28 anos, quando Paulo Roberto Falcão era o treinador. Outros tempos, outra conjuntura e outros jogadores. Certo é que Tite já mostrou que pode fazer muito mais com esse mesmo grupo de jogadores. Já faz algum tempo que a Seleção Brasileira não empolga e não apresenta um bom futebol. Seja por conta da fase ruim de alguns atletas da confiança do treinador ou pela insitência em estratégias que não funcionam mais. Não com esse grupo. Quem assiste aos jogos do Liverpool sabe que Firmino e Fabinho estão comendo a bola. É impressionante como o talento desses dois (e de muitos outros) são violentados na Seleção Brasileira.

Este que escreve ainda aguarda a tal “reinvenção” no jeito de jogar da equipe comandada por Tite. Mas o que realmente preocupa são as avaliações feitas pela comissão técnica da Seleção Brasileira nesses últimos dias. A conta de todos esses erros está chegando. E será bem salgada.

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