Papo Tático: Por que ainda precisamos pegar leve com Pia Sundhage

Seleção Feminina amarga novo vice-campeonato ao ser derrotada pela China na disputa de penalidades; falta de criatividade no meio e finalizações ruins são os grandes problemas da equipe brasileira

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Daniela Porcelli / CBF

A chegada de Pia Sundhage gerou uma onda de esperança em todos aqueles que lutam para que o futebol feminino tenha a credibilidade e o espaço que merece aqui no Brasil. Afinal, estamos falando de uma treinadora que chegou a três finais olímpicas seguidas e conquistou duas medalhas de ouro. Por outro lado, a tal mudança que eu e você estávamos esperando ainda não aconteceu. Primeiro por algumas “heranças” deixadas por Vadão (falta de um meio-campo criativo e problemas nas finalizações) e depois (e talvez o mais importante) por algumas escolhas questionáveis de Pia na montagem do elenco. Seja no esquema tático ou por confiar em jogadoras que não rendem ou sequer estão entrando em campo pelas suas equipes. Mas será que ela é a única culpada? É o que vamos ver aqui e agora.

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Para o jogo contra a China, Pia Sundhage optou por um 4-4-2 que mais se assemelhava a um 4-4-1-1 com Ludmila e Marta mais à frente, Tamires na lateral e Debinha, Formiga, Luana e Chú à frente da linha defensiva. É interessante notar que a Seleção Feminina trazia uma dinâmica interessante na construção das jogadas de ataque (talvez até para amenizar os problemas causados pela ausência de uma atleta mais criativa no meio-campo). Ludmila não se limitava a ficar no ataque. Ela recuava para atrair a marcação adversária e abrir espaços que (em tese) deveriam ser aproveitados pelo trio de meias da Seleção Feminina. O mesmo acontecia quando uma das “pontas” recuava para o meio-campo. Em alguns momentos, Marta era a jogadora mais avançada da equipe e sempre contava com a companhia de Debinha mais à direita e os avanços de Tamires pelo outro lado. As chances apareceram, mas os gols não apareceram como na vitória por 4 a 0 sobre o Canadá.

Ludmila e Chú recuavam, atraíam a defesa chinesa e abriam espaços para as subidas de Tamires, Debinha e Marta. A nossa camisa 10 chegou a ser a jogadora mais avançada da Seleção Brasileira em alguns momentos. Foto: Reprodução / TV Globo

Essa movimentação do setor ofensivo da Seleção Feminina ajudava a desorganizar o sistema defensivo chinês. Além disso, Pia Sundhage trouxe uma novidade no desenho tático e na disposição das jogadoras dentro de campo. Tamires (que joga no meio-campo e até no ataque com a camisa do Corinthians) às vezes aparecia jogando mais por dentro, quase como uma armadora junto de Luana e Formiga. Com bom passe e boa visão de jogo, a camisa 6 ajudava bastante na saída de bola e municiava o ataque brasileiro com bons passes e bons lançamentos. Num deles, Debinha perdeu grande chance na frente da goleira. Embora a alternativa seja louvável, o posicionamento de Tamires ainda não resolveu o grande problema da equipe de Pia Sundhage: a falta de criatividade no meio-campo brasileiro. O time vem de muito tempo jogando de uma maneira e é mais do que natural que tenha dificuldades para assimilar novos conceitos. Pia Sundhage precisa de tempo, coisa que Vadão teve de sobra.

Ludmila recuava, Tamires aparecia por dentro e como “lateral-armadora” e acionava Chú, Debinha e Marta no ataque. A formação ajudou a amenizar a falta de uma jogadora criativa no meio-campo, mas não resolveu o problema. Foto: Reprodução / TV Globo

Jogando dessa maneira, o Brasil criou algumas chances, mas acabou esbarrando num outro problema sério: o escrete canarinho concluía muito mal ao gol chinês. Ludmila e Debinha tiveram as melhores oportunidades da partida, mas falharam no momento decisivo. Geyse teve a bola do jogo nos acréscimos, mas também falhou. E nas penalidades, a China acabou levando a melhor. Mesmo invicta no comando da Seleção Feminina, Pia Sundhage ainda não conseguiu levantar uma taça com a equipe. Em seis partidas, o Brasil teve quatro vitórias e dois empates, marcando 14 gols e sofrendo apenas dois. Números excelentes, é verdade, mas que não refletem aquilo que se viu dentro de campo. O segundo tempo do jogo contra a China foi um dos mais fracos em termos de produção ofensiva da Seleção Feminina sob o comando de Pia Sundhage. A treinadora tem sim sua parcela de culpa. No entanto, será que não estamos pegando pesado demais?

É bom lembrar que Pia Sundhage tem apenas seis jogos no comando da Seleção Brasileira e que quase toda comissão técnica ainda é a mesma dos tempos de Vadão. Ou seja, boa parte das análises e das observações ainda são feitas da maneira como eram feitas. É como se Pia ainda não tivesse a tal “carta branca” que a CBF prometeu a ela no dia de sua apresentação oficial. Ao mesmo tempo, as dificuldades com o idioma e o tempo escasso até os Jogos Olímpicos são outros pontos que dificultam muito o trabalho da treinadora sueca. Tais fatos nos levam a questionar se Pia tem mesmo a tal “carta branca” para fazer o que quiser na Seleção Feminina ou se a sua contratação foi uma maneira de calar os críticos da CBF. è fato que algumas das escolhas de Pia Sundhage devem ser questionadas sim, mas é preciso levar em consideração que a treinadora sueca está no olho do furacão e entender que a estrutura da CBF ainda está bastante contaminada por pessoas que não querem largar o osso.

Todos nós queremos ver a Seleção Feminina levantando taças e conquistando títulos importantes. Mas é preciso ter sabedoria e discernimento para não cairmos no lugar comum e na armadilha das nossas próprias expectativas com relação a ela e repetir os velhos erros do passado. Pelo menos por enquanto, precisamos pegar leve com Pia Sundhage sim. Até porque alguns já caíram nessa armadilha e repetem o discurso preconceituoso que eu e você vemos e lemos todos os dias. É cedo demais para uma avaliação mais precisa do trabalho de Pia à frente da Seleção. E para se fazer isso, é preciso levar em consideração que a estrutura do futebol feminino na CBF ainda está completamente viciada. O time já evoluiu bastante com relação às atuações da Copa do Mundo Feminina apesar desse pouco tempo, mas ainda é possível se fazer muito mais e convocar jogadoras com mais condições de desempenharem um bom papel dentro de campo.

Pia Sundhage sabe do riscado, mas não é “Salvadora da Pátria”. É preciso pegar leve e não cair na armadilha do imediatismo e do discurso preconceituoso de uns e outros. Até para que a mesma estrutura viciada da CBF não indique mais um nome que agrade a cúpula no caso da saída da treinadora sueca.

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