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Papo Tático: A incrível virada do Flamengo, o título da Libertadores e as maravilhas que só o futebol pode proporcionar

Fla perdia para o River Plate até os 43 minutos do segundo tempo quando Gabigol balançou as redes duas vezes; time de Jorge Jesus teve garra e ganhou força com a entrada de Diego Ribas

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Este que escreve costuma dizer que o futebol é a melhor invenção do homem depois do pão de queijo e do sorvete de flocos. As coisas que o velho e rude esporte bretão nos proporciona são incríveis. São verdadeiras lições de vida e de superação. Assim como a final (única) da Copa Libertadores da América. O Flamengo sofreu com a ótima marcação do River Plate e demorou para se encontrar no jogo. Quiseram os roteiristas desta história que o time de Jorge Jesus crescesse nos minutos finais e que o jogador que fosse mudar o rumo da decisão fosse Diego Ribas. A virada lembrou a final épica da Liga dos Campeões de 1998/99, quando o Manchester United arrancou uma virada impossível do Bayern de Munique nos acréscimos. O ponto é que o Flamengo de Gabigol, Arrascaeta, Bruno Henrique e (principalmente) Diego Ribas nos mostrou que o jogo só acaba quando termina. E isso é pra vida toda.

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Difícil falar de tática e estratégia num jogo tão cheio de nuances como foi essa final da Libertadores. É bem verdade que o River Plate de Marcelo Gallardo começou a partida pressionando a saída de bola do Flamengo e anulando as principais armas do escrete comandado por Jorge Jesus. O gol de Borré, logo aos 14 minutos de partida (em bobeira de Willian Arão e Gerson), deu a impressão de que os Millonarios não teriam problemas para confirmar o bicampeonato sul-americano e o terceiro título em cinco temporadas. Palacios, Enzo Pérez, De La Cruz, Montiel e Nacho Fernández faziam boa partida e anulavam Arrascaeta, Bruno Henrique, Gabigol e (principalmente) Éverton Ribeiro, o jogador responsável pela criação no meio-campo do Flamengo. Além disso, Rafinha sofria com as descidas dos jogadores do River às suas costas e Filipe Luís parecia desligado da partida, errando passes bobos. Todo o time sentia a final da Libertadores.

A volta do intervalo mostrou um Flamengo um pouco mais intenso nas suas transições, mas que ainda sentia a decisão e o tamanho da partida. O River Plate seguia dominando os espaços no meio-campo e colocando muito mais intensidade nas transições e na pressão em cima do homem da bola. Se os Millonarios estavam melhores nos âmbitos técnico e tático, o Flamengo mudaria seu estado de espírito a partir da lesão muscular de Gerson (justamente um dos melhores do time carioca). Jorge Jesus chamou Diego Ribas, justo o jogador que havia ficado de fora dos gramados por conta de uma grave lesão e que estava marcado por erros em jogos decisivos. E foi justamente o camisa 10 quem ajudou a equipe rubro-negra a acalmar os nervos, colocar a bola no chão e trabalhar as jogadas com a calma e a qualidade já conhecida dos torcedores do Flamengo. Do outro lado, o River Plate começava a sentir o cansaço e via seu adversário crescer nos minutos finais.

Marcelo Gallardo já havia colocado Júlian Álvarez, Lucas Pratto e Paulo Díaz nos lugares de Nacho Fernández, Borré e Casco quando Diego estava em campo. Jorge Jesus sentiu que o River já dava sinais de cansaço e fez uma alteração ousada: Vitinho no lugar de Willian Arão. Era tudo ou nada diante de uma equipe copeira e bastante acostumada a jogar a Copa Libertadores da América. Mas não era isso que os roteiristas dessa história estavam preparando para nós, amantes do futebol bem jogado. Aos 43 minutos da segunda etapa, Lucas Pratto (em seu melhor momento Diego Souza) perdeu a bola na intermediária e o Flamengo armou o contra-ataque. Bruno Henrique achou Arrascaeta dentro da área e passou a bola. O uruguaio cruzou rasteiro e achou Gabigol livre para empatar a partida. Três minutos depois, o zagueiro Pinola (que vinha de atuação soberba na decisão) hesitou na frente do camisa 9 rubro-negro. Era o gol do título. O gol que demorou 38 anos para ser comemorado novamente.

Existem coisas que não se explicam com tática, números ou desenhos. O futebol é para ser sentido. Não foi por acaso que Filipe Luís e Diego Alves falaram em “desfrutar” do momento nas entrevistas concedidas na quinta-feira (21). Há como se falar que Marcelo Gallardo errou nas mexidas (o que de fato aconteceu) e que as saídas de Nacho Fernández e Borré precisam ser explicadas pelo treinador do Millonarios. Por outro lado, como não exaltar as mexidas de Jorge Jesus? Como não se emocionar com a redenção de Diego Ribas, jogador que quase saiu do clube e que sofreu de uma lesão que quase o tirou dos gramados? E como não se exaltar com o torcedor rubro-negro? Seja em Lima, no Rio de Janeiro, em Brasília, em Lisboa, em Marte ou nos confins do universo. Como dizia Nelson Rodrigues, “o Flamengo tornou-se uma força da natureza e, repito, no Flamengo venta, chove, troveja, relampeja”. E não foi nenhum pouco diferente na decisão da Libertadores.

O Flamengo de Jorge Jesus transcendeu a tática. Tal como fizeram outras grandes equipes da história do Mais Querido do Brasil. Como em 1981 (guardadas as devidas proporções) esse time joga um futebol bonito, ofensivo e envolvente. Se o Fla que superou o Cobreloa há exatos 38 anos em três partidas igualmente emocionantes, Éverton Ribeiro, Diego Ribas e companhia precisaram de noventa e poucos minutos para conseguir uma das viradas mais fantásticas da história da Copa Libertadores da América. Talvez comparável apenas à conquista da Liga dos Campeões 1998/99 pelo Manchester United de Alex Ferguson numa partida em que o Bayern de Munique já comemorava o titulo. Mas se tem uma coisa que os roteiristas do velho e rude esporte bretão detestam é quem comemora antes do apito final. Talvez esse tenha sido o grande erro de Marcelo Gallardo. Ao trazer sua equipe pra trás, ele deu o campo que o Flamengo tanto queria para jogar.

Detalhes que vencem partidas. Detalhes que fazem grandes equipes levantar taças. Assim como o cada vez mais impressionante Flamengo de Jorge Jesus. O time que não desistiu em nenhum momento. A equipe que entrou de vez no imaginário de todos os amantes do velho e rude esporte bretão.

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