Parreira relembra 20 anos do Flu na Série C: “1999 é tão emblemático quanto 1984”

Técnico que comandou dois títulos nacionais do Tricolor em divisões diferentes relata dificuldades no processo rumo ao acesso

Patrick Monteiro
Colaborador do Torcedores

Crédito: Reprodução

“Se demora dois, três anos, ia complicar. Caiu num ano e voltou no outro. Foi importantíssimo”. Essas são frases de quem esteve à beira do gramado em cada passo de um processo arriscado e sem margem para erro. Há 20 anos, em 1999, o clube “das três cores que traduzem tradição” teve que ir até a terceira divisão do futebol brasileiro. A incumbência de guiar aquele “time de guerreiros” ficou com o já campeão mundial pela Seleção Brasileira cinco anos antes, Carlos Alberto Parreira. Ele e seus comandados obtiveram sucesso em campo. Assim, o Fluminense conquistou o acesso e o título da Série C. Em participação especial no programa “Boleiragem“, do SporTV, ao lado do apresentador Roger Flores e dos também convidados Roni e Marco Brito (todos integrantes do Tricolor de 1999), o técnico da África do Sul no Mundial de 2010 recordou momentos marcantes da campanha no terceiro escalão nacional.  

Sobresse resgate, a gente não pode deixar de falar de três fatores importantíssimos: a visão, a missão e o processo. Doutor (Francisco) Horta (ex-presidente do Fluminense) foi uma pessoa importantíssima nesse processo todo. Ele me convenceu ir para lá. Falou: ‘Parreira, é uma página negra, nós temos que dar a volta nisso daí’. Eu cheguei, falei: doutor, aqui dentro a gente não pode mais, o Fluminense está acabando aqui, esse vestiário, o campo…'”, revelou o treinador do Brasil nas Copas de 1994 e 2006. 

Mas, para que o desfecho fosse positivo, era necessário montar um time vencedor antes mesmo de cruzar as quatro linhas do gramado. Assim, Parreira usou a mesma tática do cartola do clube: o verbo convencer. 

“O papo com todo mundo que veio era exatamente esse aqui: ‘Fluminense não é time de terceira divisão. Eventualmente ele está na terceira. Fluminense é time de primeira divisão. Você vai trabalhar no Fluminense’. Consegui trazer o Lídio Toledo (médico)Moraci Sant’Anna (preparador físico), Américo Faria (dirigente)... Fizemos uma equipe, uma comissão técnica de alto nível”, destacou, antes de frisar: “Não foi difícil, não. Eram o poder de convencimento do doutor Horta e a ligação que tínhamos com o Fluminense”. 

Para tornar a tarefa viável, entretanto, Parreira e os jogadores tiveram de superar o vazio que prevalecia nos cofres do clube. Fato que, na visão dele, assemelhou-se com outro time campeão: um que venceu o mundo quase três décadas antes.  

“Não tinha dinheiro, não tinha infraestrutura, começamos tudo novamente, e a seleção de 70 foi muito disso. A CBF não tinha dinheiro, mas tinha jogadores excepcionais, vínhamos de uma derrota em 66, nós treinamos três meses no Rio de Janeiro em retiro dos padres, que é uma concentração de menos de três estrelas, nós íamos para o campo treinar em Itanhangá, de Kombi”, recordou o técnico que não pensaria muito para responder se passaria por aquela situação outra vez.  

“Nós faríamos tudo novamente para dizer: ‘trouxemos o Fluminense de volta para a primeira divisão’. Todos pagaram um preço muito grande. O salário não era alto, o sacrifício era muito grande, a responsabilidade era enorme. Durante quatro meses, ficamos treinando em Jacarepaguá, na Ilha, não tinha local para treinar. A torcida foi maravilhosa, desde o primeiro momento ela abraçou o time. Isso foi fundamental”, pontuou. 

Se era árduo derrubar as barreiras fora de campo, dentro foi preciso somente proporcionar a evolução dos atletas em busca da montagem de uma equipe consistente e vitoriosa: “Se você olhar esse time, todos passaram por grandes clubes. Tiveram muito sucesso no futebol. Esse time da final (contra o Náutico) já era encorpado, de grande qualidade. Até chegar aí foi complicado. Foi uma temporada toda”, recordou Parreira, sem fazer distinção entre dois títulos nacionais de divisões diferentes que ele faturou como treinador na história do Fluminense. 

“Fomos campeões em 84 da Série A, mas o de 1999 é tão emblemático, tão significativo quanto qualquer outro título. Porque foi difícil. Não é fácil ganhar a Série C. Naquela ocasião era complicado”, opinou. 

Contexto 

Embora tenha obtido o acesso à Série B de 2000, o Fluminense campeão da “Terceirona” de 1999 foi parar na elite nacional no ano seguinte graças à uma “virada de mesa” que resultou na criação da Copa João Havelange, vencida pelo rival Vasco sobre o São Caetano na final. Outros clubes foram convidados, na ocasião, para disputar a Série A daquela temporada sem, necessariamente, ter conseguido a vaga dentro de campo – entre eles, o Bahia.  

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