Roger Machado reflete sobre racismo: “Querem fazer acreditar que política e esporte não se misturam”

Roger Machado, técnico do Bahia, em entrevista dá aula sobre racismo estrutural e institucional

Severino José da Silva
Colaborador do Torcedores

Crédito: Reprodução

O técnico Roger Machado, atualmente treinando o Bahia, surpreendeu a todos em entrevista coletiva concedida após a derrota para o Fluminense, em outubro. Na entrevista dissecou o racismo no futebol, esporte que não permite ainda a discussão política.

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Ao The Intercept Brasil, o treinador falou mais sobre o assunto, pouco explorado no esporte. Perguntado das diferenças que percebe no racismo na vida pessoal e no futebol, entre Porto Alegre, sua cidade natal, e Salvador, onde mora atualmente, Roger não economizou na resposta.

Do ponto de vista da desigualdade, não vejo diferença. A elite soteropolitana é branca como em qualquer lugar. Mas por Salvador ter um maior número do que o resto do Brasil, isso levou alguns negros a chegarem em posições no topo da pirâmide, o que me faz sentir representado”, disse.

Barreiras do racismo

Roger Machado também foi questionado sobre quais foram as principais barreiras que o racismo impôs na sua trajetória no futebol.

“Como jogador não sofri barreiras. O racismo estrutural entende que, como jogador, eu estaria num lugar de direito. Ao participar como agente desse espetáculo, nos tornamos mais brancos, o que nos permite no máximo circular em ambientes aos quais normalmente teríamos pouco acesso”, respondeu a respeito de sua experiência como jogador.

Referindo-se a sua vivência como técnico de futebol, Roger disse que “por exercer um lugar de liderança e gestão, em alguns momentos percebo que não me concedem o direito de estar ali. O racismo estrutural não vê, ou não admite, que somos capazes de ocupar atividade que exija competência intelectual para desenvolvê-la.”

O que pensa sobre o comportamento dos atletas brasileiros

A respeito do comportamento dos atletas brasileiros que não se posicionam politicamente, a exemplo do que acontece em vários países, Roger afirmou que “no Brasil querem fazer acreditar que política e esporte não se misturam.”

Na visão do treinador do Bahia, há a intenção de deixar o futebol  à parte da sociedade. Para Roger, se momento há discussão sobre racismo, homofobia e machismo, por exemplo, “temas para os quais precisamos de políticas adequadas” já é prova suficiente da atividade política.

Roger ainda questionou a razão dos atletas brasileiros não poderem discutir política “Será que é por conta do racismo estrutural? Além disso, muitos atletas têm medo de uma retaliação do sistema”, completou o treinador.

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