Rafael Oliveira: o jogo mais aguardado da Inglaterra

Liverpool e Manchester City terão mais um confronto direto no domingo. O duelo tem se tornado a maior atração da Premier League nos últimos anos

Rafael Oliveira
Colaborador do Torcedores

Crédito: GettyImages

São seis pontos de diferença na tabela. Distância que ficou muito próxima de sofrer alterações na rodada do último fim de semana. O Manchester City virou aos 41 minutos do 2º tempo contra o Southampton. O Liverpool perdia para o Aston Villa até os 42 do 2º tempo e comemorou o gol da vitória aos 48.

O drama também sinaliza uma oscilação no nível coletivo dos dois principais times da Premier League. O calendário aperta, as lesões aparecem, os elencos ficam curtos e o desempenho não tem a regularidade de outros períodos. Natural.

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Só que o confronto direto tomou outra proporção. Nos últimos anos, é o maior jogo do futebol da Inglaterra e um dos mais aguardados da Europa. Klopp e Guardiola elevaram não só o patamar de suas equipes, mas os duelos ganharam uma espécie de história particular.

É como se um jogo fosse a sequência de outro que acabou há meses. É como se um time nunca tivesse esquecido os detalhes que definiram ou condicionaram o encontro anterior. As características coletivas e individuais são tão conhecidas que as adaptações viram a parte mais interessante das estratégias.

Na temporada passada, o tão esperado confronto em Anfield acabou em um frustrante 0 a 0. Para muitos, um jogo fraco. De fato, não foi o jogaço que poderia, especialmente para quem queria ver a “trocação” entre equipes tão poderosas ofensivamente. E não foi por acaso.

Guardiola e Klopp se conhecem muito bem. Já haviam travado disputas fantásticas na Alemanha. Sabem os riscos que cada modelo representa. E aquele duelo sem gols em outubro de 2018 foi a exata resposta aos frenéticos encontros anteriores. Para ser mais específico, aos três outros jogos de 2018. Dois deles definiram a vaga na semifinal da Champions League, com vitórias do Liverpool.

O primeiro ponto é o controle dos ritmos. O Liverpool de 2017 e 2018 era o time do ataque implacável nas transições. Cada bola recuperada significava a chance de acelerar e castigar defesas  expostas. O Manchester City costuma ser o time do controle a partir da posse de bola, mas prolongar sequências de passes no campo de ataque pode tirar mais peças de posição para uma eventual perda.

E assim Guardiola mudou a abordagem. Se Klopp quer definir rapidamente, agora Pep queria alterar a armadilha. Não seria mais o City quem adiantaria suas peças e ofereceria campo aberto em uma eventual perda. No 0 a 0 em Anfield, a troca de passes se concentrava quase dentro da própria área. Goleiro, zagueiros, laterais e volante. Assim, acumulando mais jogadores recuados, tinha mais opções de passe e tentava atrair a pressão, outra marca de Klopp.

A marcação adiantada para sufocar a saída do adversário é outra característica daquele Liverpool de 2017 e 2018. Mas subir com tantas peças tão adiantadas também pode gerar riscos contra um time qualificado. Um passe vertical poderia quebrar linhas e achar campo para fazer o City ter espaços.

E desta forma pouco aconteceu. Virou uma batalha do controle de ritmos e riscos. Guardiola se protegeu com a bola, mantendo a posse no campo de defesa. Foi mais pragmático para limitar uma arma que o havia castigado meses antes. É claro que a troca de passes dentro da própria área também exige concentração e precisão, já que um erro pode custar ainda mais caro. Mas foi um risco calculado.

A grande questão é que os times estão em constante transformação. 2019 já se passou e o último duelo foi no dia 3 de janeiro, no 2 a 1 do City em Manchester (ignorando a Supercopa, em agosto, que tem um caráter de quase pré-temporada). Ultimamente, o Liverpool não tem sido o time das transições, por mais que tenha tal característica pelas individualidades. Tampouco deseja promover jogos tão frenéticos como antes.

Desde que Fabinho se consolidou, passou a ser um time de maior controle no campo de ataque, com o brasileiro protegendo a dupla de zaga, fortalecendo o conceito de “perde-pressiona” e liderando a recuperação da segunda bola. Hoje, o Liverpool condiciona seus adversários pelo poder ofensivo dos seus laterais. As inversões para Robertson acelerar na esquerda e principalmente a capacidade técnica que Alexander-Arnold desenvolveu para os lançamentos e cruzamentos. Da direita saem os melhores passes para finalizações.

A atmosfera de Anfield foi muito respeitada por Guardiola no último duelo. Agora, a desvantagem na tabela pressiona o Manchester City a arriscar mais. Qual será a abordagem? O que será reaproveitado dos últimos confrontos e como as novas características trarão novas adaptações? Liverpool x City sempre promete um jogaço, e a riqueza tática de um Klopp x Guardiola vai além da emoção que a partida poderá entregar.

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