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Aira Bonfim: Torcidas Organizadas como fonte histórica

Superamos a época que tínhamos acesso apenas às histórias de reis e rainhas, líderes políticos, geralmente homens, brancos e muito, muito, muuuuuito ricos

Aira Bonfim
Colunista do Torcedores.com.

Crédito: Divulgação

Vale a pena lembrar que fazer parte da história sempre foi um valor em disputa em qualquer lugar do planeta, e aqui, dentro e quatro linhas do futebol, não seria diferente.

Ser lembrado é uma espécie de “imortalidade” simbólica, e nesse sentido, a grande narrativa do futebol brasileiro por anos colocou de escanteio tanto a presença, como as narrativas que surgiram de um de seus grupos mais emblemáticos: as torcidas organizadas.

Podemos amá-los ou odiá-los,

querer exterminá-los ou exaltá-los,

ter proximidade ou distanciamento…

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Para mim pouco importa a opinião dos leitores sobre esses atores do espetáculo chamado futebol, ou mesmo procurar alguma resposta consensual sobre as torcidas.

O que quero deixar grifado aqui é: as torcidas nasceram junto com o futebol e são sujeitos históricos desse fenômeno, gostemos ou não.

Eu disse tudo isso para ilustrar um trabalho de pesquisa recente que deu voz às torcidas organizadas brasileiras legitimando-as entre as narrativas do tal esporte nacional.

O trabalho realizado em 2014 rendeu dentre tantas coisas um livro que acabou de chegar nas prateleiras brasileiras:

Territórios do Torcer – Depoimentos de lideranças das torcidas organizadas de futebol 

Organizado pelos pesquisadores Bernardo Buarque de Hollanda e José Paulo Florenzano, o livro que acabou de ser lançado pela editora EDUC traz de forma inédita 10 depoimentos de lideranças de diferentes épocas de torcidas organizadas de São Paulo.

As entrevistas transcritas trazem consigo peculiaridade de diferentes épocas de arquibancada, histórias torcedoras, conflitos e perspectivas de pessoas que por algum momento de suas vidas (ou até hoje) estiveram ocupando as linhas de frente desses coletivos nos estádios.

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Vale destaque às viagens e negociações do falecido Hélio Silva, figura conhecidíssima da antiga TUSP (Torcida Uniformizada do São Paulo), uma das primeiras torcidas uniformizadas do Brasil, de 1939. A Independente surgiria apenas 33 anos depois.

As confissões de Paulo Serdan, ex-presidente da Mancha Verde (ainda sem o Alvi-Verde), além dos mitos fundadores em torno das conhecidas torcidas alvi-negras do Corinthians, Gaviões da Fiel e Camisa 12, narradas pelo fundador Cláudio Faria Romero, o Vila Maria.

Ainda tem entrevistas com lideranças do Santos, Portuguesa, Juventus assim como de representantes de outras torcidas dos clubes já mencionados acima.

O livro é também uma auto-propaganda uma vez que arrisquei um textinho próprio elaborado na época, 2014/2015. Coordenei naquela oportunidade uma frente de pesquisa quantitativa, ou seja, a aplicação de 600 questionários com frequentadores de organizadas de São Paulo.

As minhas peripécias com essa missão realizada do lado de fora dos estádios (era proibido entrar portando papel ou caneta) estão contadas no livro. O ano marcou a inauguração das Arenas, a Copa do Mundo no Brasil e tantos outros fatos que incidiram sobre as opniões dos torcedores.

A tabulação das pesquisas assim como o documentário resultante dessa empreitada podem ser encontrados no banco de dados do Museu do Futebol, parceiro do projeto ao lado da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC).

Em breve prometo compartilhar trabalhos de pesquisas de outras torcidas (e torcedoras!) ou mesmo sobre aqueles que são impedidos de torcer nas arquibancadas!

Tem muito babado loko dentro do desejo de acompanhar um clube do coração…

Mais se eu pudesse definir as organizadas em uma única frase que aprendi, seria:

“é preciso apoiar, cantar e cobrar do início ao fim!”

 

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