Domingo é dia de Preto x Branco: o jogo patrimônio de Heliópolis

É chegado um dos encontros mais memoráveis da várzea paulistana no próximo domingo, dia 08/12/2019. Uma tradição realizada ininterruptamente desde 1972: o Encontro Preto X Branco do bairro de São João Clímaco, na zona sul de São Paulo.

Aira Bonfim
Colunista do Torcedores.com.

As várzeas da Estrada das Lágrimas

Onde se localiza hoje a favela de Heliópolis, rente a Estrada das Lágrimas, aconteceu pela primeira vez a partida do Preto contra Branco no extinto campo do Copa Rio, organizada pela equipe do Flor de São João Clímaco.
Na década de 1960, onde hoje encontram-se centenas de famílias e comércio em Heliópolis, existia um verdadeiro parque esportivo com 23 campos de futebol naquela região. De acordo com os relatos de ex-frequentadores, esse ambiente de lazer era ocupado por adultos e crianças, de domingo a domingo.
Desde os primeiros anos do século XX existe a partida de Pretos contra Brancos. Em São Paulo mesmo, na zona norte, existe esse clássico de décadas organizado pelo Dragões da Casa Verde.
Em uma sociedade que recém “libertava” seus escravizados negros, em meio a descoberta da moda do esporte inglês que seduzia qualquer melanina, era natural que tal rivalidade de raça fosse levada de fora para dentro de campo.
O campo do Arapuá, do Flôr, ou mais precisamente, o Clube Desportivo da Comunidade, o CDC Parque Fongaro, acolheu a partida no seu endereço desde o campo em Heliópolis desapareceu.

Partida realizada em 18/12/2011. Acervo Museu do Futebol

“vamos ver quem joga melhor”

Apesar do Preto x Branco de ser reconhecidamente uma partida popular, jogada entre amigos e em espírito de confraternização, vale lembrar que corpos negros, dentro de campo, eram repreendidos por qualquer “corpo a corpo”, característica comum dos esportes de contato físico, principalmente dentro de um jogo como o futebol.
Sob os olhos famintos de uma arquibancada branca, rica, estruturalmente dominante e preconceituosa do início do século, alguns arriscariam que os dibles do futebol nasceram assim, nos desvios dos negros sob os corpos dos brancos.
De volta a São João Clímaco, nos idos dos anos 60, o jogo de futebol do Flor na verdade ficou conhecido com a rivalidade dos times de solteiros contra casados. Esse certame é outro clássico do futebol varzeano e encontrado de norte a sul do Brasil antes mesmo do meu avô Nelson ter nascido.

A origem

De acordo com os depoimentos presentes no documentário Preto x Branco de Wagner Morales, de 2004, o Tipiu, “um criolo bem quisto e com amizade na cidade toda” foi o responsável por iniciar o jogo entre raças.
O “negrão gente fina”, que só andava de bermuda, inaugurou um placar que desde a década de 70 tenta se manter equilibrado entre Brancos e Pretos. O desafio não se restringe aos jogadores, mas principalmente aos árbitros corajosos que durante décadas ousaram apitar um jogo tão rivalizado.
O ano de 2011 foi marcado pela a estreia do gramado sintético no campo CDC Parque Fongaro, local que realiza os jogos e a festa brinde para quem acompanha esse verdadeiro patrimônio da zona sul.

Partida realizada em 18/12/2011. Acervo Museu do Futebol

Vestiário: “você se sente o quê?”

“Negro lindo”, “Negro dos mais negros”, “não chega a ser branco”, “misturado”, “moreno”, “mostarda”,  “Negro mais claro”, “café com leite”, “preto mesmo”, “negrão”, “mulato camaleão”, “mais escurinho”, “clarinho” são algumas das definições auto-declaradas pelos próprios jogadores do evento.
Num Brasil que buscou branquear sua população negra fazendo campanha para a vinda de imigrantes europeus nas primeiras décadas do século XX, a mistura das melaninas compõe a própria cultura desse jogo. Não faltam casos de atletas que jogam ano para um e ano para outro time.

Preconceito em campo

Praticamente desconhecido na capital paulista, essa partida varzeana coloca o tema do racismo em voga. Os jogadores, quando perguntados, narram uma séries de experiências de preconceito ocorridas no seus cotidianos… principalmente fora de campo, longe dos guetos.
Em uma comunidade altamente miscigenada, a peculiaridade da partida é a auto-atribuição da raça pelo participante. Cada jogador se declara negro ou branco e “escolhe seu time”.
Símbolos do racismo entram e saem da partida nos longos anos em que o encontro boleiro é realizado. Macaco, banana, xingamentos e até pipas com o símbolo da suástica já estiveram presentes no Preto x Branco paulistano.

Partida realizada em 18/12/2011. Acervo Museu do Futebol

Sueli, um assombro de mulher

Seu Osmário e Seu Francisco certa vez relataram o caso de Sueli, uma jogadora que atuava ali nos campos de São João Clímaco.
Nascido em Juazeiro do Norte, o frequentador do clássico inter-raças contou certa vez sobre seu assombro ao ver uma mulher jogando tão bem.
Uma habilidade tal, que segundo ele,  deixaria a melhor do mundo, Marta Vieira, para trás “fácil, fácil”…
Apesar desse histórico, o encontro do Preto X Branco ainda não apresentou a sua Preta contra Branca. Apesar da ausência de jogadoras em campo, o evento conta com uma quantidade significativa de mulheres na festa.
(fica aí a dica hein!’? Bora fazer um jogo feminino ainda inédito meu povo!)

Quer conhecer?

Se você ficou interessado em conhecer melhor o clássico Preto x Branco segue um ou as duas opções abaixo:
1) Vai lá! Domingão, dia 09/12, CDC Parque Fongaro, Rua Professor Sylar Baltazar de Araújo 220. A festa começa cedinho e vai até tarde, com várias partidas, com direito a muitos gorós e apresentações musicais!

2) O documentário abaixo foi feito em 2004 e por uma semana a equipe entrevistou personagens e registram o dia a dia dos bairros até a chegada do famigerado jogo. O filme revela as tensões raciais locais em 55 minutos.

 
Gênero: documentário. Direção: Wagner Morales. Coprodução: Wagner Morales, Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) e Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec)