Juliana Veiga: Legado de Diego Hypólito vai muito além do esporte

Hypólito, que foi destaque na ginástica, tem o exemplo de vida como principal ensinamento

Juliana Veiga
Colunista do Torcedores.com, com passagens por Band e ESPN.

Crédito: Getty Images

Diego Hypólito foi duramente criticado nos últimos dias. O legado dele, porém, é muito maior que seus títulos e conquistas. Além dos dois títulos mundiais (2005 e 2007), cinco ouros em Jogos Pan-Americanos (2007 e 2011) e três ouros em Jogos Sul-Americanos (2010), a forma como lidou com tanto preconceito, abuso e violência durante sua linda carreira como atleta profissional fica marcada para todos nós.

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Filho de um motorista de ônibus, Sr. Wagner Hypólito, e uma costureira, Dona Geni Matias, Diego e sua irmã, Danielle, construíram carreiras vitoriosas no esporte. Levaram nossa bandeira ao lugar mais alto do pódio várias vezes. Quando fui ver todos os títulos de Diego, fiquei impressionada. É surreal.

Fiz ginastica artística no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, dos 5 aos 13 anos. Era amadora total. Mas ia três vezes por semana praticar. Participava de competições, que eram mais uma apresentação pros pais do que qualquer coisa. Mesmo amadora, vivia com o corpo lenhado.

Tive a oportunidade de conviver com os atletas profissionais que treinavam no Ibira. A área de aparelhos e treinos era gigante, os atletas ocupavam o espaço mais radical da sala, só os equipamentos nível profissional, mesmo, tudo maior.

Eu, que era uma amadora, vivia zoada. Imaginem eles, que ficavam seis, sete, oito horas treinando. Lembro de ver mãos e pés sempre machucados. É um dos esportes mais sofridos para o atleta de alto rendimento. Diego deve ter tido seus dias de mãos sem pele, ombros, joelhos, punhos e pés muito machucados. Mas essa é a carreira de atleta. Treina, tem muitas dores e segue em frente.

O que me deixa ainda mais orgulhosa do Diego é sua postura. Extremamente educado e e gentil. Sempre lidou com críticas de uma forma passiva e serena. Poderia ter explodido várias vezes, mandado fulano se fod***, mesmo.

Sou da mídia, e, por experiência própria, ela é cruel quando quer. Para desmoralizar uma pessoa basta uma frase.
Mas quando assisti, no Globo Esporte, seu depoimento sobre os abusos sexuais cometidos no início da sua carreira pelo ex-técnico da seleção Fernando de Carvalho Lopes, chorei, chorei mesmo, como se fosse meu filho. Como lidar com tal humilhação? E ainda tinha o bullyng, a violência nos treinos, os maus tratos, a submissão. Isso tudo em plena formação, dos sete aos dez anos. É muito punk imaginar uma criança passar por isso e, ainda assim, ser um dos principais atletas do seu país. Subir no pódio e estender a linda bandeira mesmo diante de tanta maldade

Isso é o que eu quero falar. Esse homem chamado Diego Matias Hypólito, 33 anos, de Santo André, São Paulo, merece mais que nosso respeito e admiração.

Obrigada, querido Diego, por ser tão forte, por nos dar tanto orgulho e encher nossos corações de alegria.
Você é um herói. Saber que por trás do esporte acontece isso é desesperador. É decepcionante.
Mas isso não é o esporte. Isso é o ser humano.

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